CAPÍTULO XV - 3A TEMPORADA - ROCASÓRIO PARTE 2




Ao sair do carro, olhei ao redor sem conseguir enxergar exatamente as pessoas. Não por estar sem óculos, mas porque o êxtase tinha fugido ao meu controle. Eu sorria sem a menor capacidade de relaxar as bochechas. E, ao contrário do que eu temia, eu não me sentia uma noiva aérea, sorrindo apenas por protocolo. Eu podia sentir meu sorriso brilhar no olhar também. A minha alma inundada de felicidade segura, transbordava. Por sorte o Daddy estava lá pra me dar o braço e me guiar, do contrário, eu provavelmente teria saído flutuando. E enfim, eu o vi. Com o nariz apoiado nas mãos. Sorrindo quase que inconformado. Em seguida, ele balançava os braços com os punhos fechados como se comemorasse um gol de bicicleta aos 45 do segundo tempo em final de copa do mundo. Ali eu achei que o choro ia me render e meu joelho ia dobrar. Ao invés disso, algo inusitado aconteceu e eu provavelmente nunca mais vou esquecer daquela sensação, passe o tempo que passar. Meus ombros balançavam como se eu estivesse chorando de soluçar. E, de certa forma, eu estava. Mas o meu sorriso não só não se transformou num bico, como expandiu. Meu olhos inundaram, mas não embaçaram a vista mais linda de toda a minha existência até ali: o grande amor da minha vida num terno azul destacando seus olhinhos azuis-dinamarqueses-de-amarelo-ouro-degradê, comemorando o nosso amor, a nossa felicidade sólida, e sem precisar abrir a boca: dizendo o quanto me ama. Respirei fundo. Vi o sinal da cerimonialista. O Daddy parou de andar no meio do caminho. E eu precisei respirar fundo de novo. O Príncipe não conseguia tirar os olhos de mim, então não viu quando a cerimonialista sinalizou pro Rocasogro ir ao nosso encontro. Num misto de riso com choro, a gente conversou pelo olhar. Era a realização de um sonho pra ele me levar até o altar junto com o Daddy. Mas era um privilégio maior ainda pra mim, que pude ser acompanhado não por um, mas por dois pais. Daddy me deu um beijinho na testa como se partilhasse daquela gratidão comigo. E quando o Rocasogro conseguiu respirar novamente, seguimos em direção a um Príncipe com o rosto mergulhado nas mãos, soluçando. Quando olhou pra mim de novo, colocou as mãos na cintura como quem diz “p***q**p****minhafilhaaaa”. Respiramos fundo. No plural mesmo porque nesse momento eu pude ver que a emoção era geral e não era só a Rocasogra que se afogava no lencinho. 

Ele me deu um beijinho na testa, abraçou o Daddy, ganhou um beijinho do Rocasogro e, finalmente, me deu o braço.

- Você tá maravilhosa - ele disse. E com a testa colada uma na outra, por alguns segundos, éramos só nós dois, no dia mais mágico das nossas vidas. Finalmente. Nesse momento eu quase desmanchei, mas consegui contornar o bico. De frente pro Pastor-Gui, ele nos fez sinal pra respirar fundo, obedecemos. Tudo sob controle.


Uns meses antes, quando a escolha do celebrante foi mais complicada do que eu tinha previsto, e encontramos o nosso apenas na quarta tentativa, eu não me lembrei que, até esses contratempos estavam previstos desde sempre. Que nada era por acaso. E, quando o grande dia chegou, e o Pastor pronunciou a primeira frase da sua mensagem, “Há algo de muito especial no amor”, eu senti a certeza no coração que não poderia ter sido outra pessoa. E não era nem porque ele me conhecia há anos e acompanhou parte da minha história na Era mais cinzenta. A serenidade na sua fala, seu sorriso fraterno e carinhoso, e suas palavras que pareciam ter sido ditadas por Deus e os anjos, era a coroação perfeita para celebrar a nossa união. 


“Há algo essencial no amor. Todos estão à procura do amor. Mas afinal, o que é o amor? Há algo indecifrado no amor. Grandes obras foram escritas tentando chegar a uma conclusão do que é esse amor. Músicas foram cantadas, poemas foram citados, mas sempre falta algo. É impossível explicar quando a gente simplesmente ama. Agora, o que é o amor? É praticamente impossível definir em palavras o que é esse sentimento. Eu tenho uma visão privilegiada do olhar deles. Esse olhar define um pouco do que é o amor. Sendo assim, se não há como explicá-lo, só nos resta, vivê-lo. Porque o amor não é pra ser definido, mas é pra ser sentido.” - Foi a introdução daquela noite mágica. E a gente não podia se sentir mais abençoado. Mais transbordados e cercados de amor. Ele disse todas as palavras certas, tudo o que desejávamos ser como marido e esposa, tudo o que sonhávamos em construir pro nosso casamento, para nossa aliança. E conforme ia fazendo cada vez mais sentido em nossos corações, nossos dedinhos se apertavam um no outro. Quando o Pastor-Gui convidou a todos a abaixar a cabeça em oração, eu olhei pra cima e encarei Deus nos olhos. E além de pedir a chuva de bênçãos no nosso casamento como o Pastor orava, eu agradeci a noite perfeita que Ele nos presenteava, sem deixar nenhuma gotinha cair do céu. Agradecia aquele sentimento intenso que me transcendia e me levava pra tão perto dEle. Que não me permitia sequer pensar no atraso, na luz que não era do sol se pondo, ou do espaço até o altar que acabou ficando pequeno demais. O que se enraizava no meu coração era que aquele dia não poderia ser mais perfeito. E daí vieram os votos.

“Princesa, preciso admitir que eu nunca acreditei em conto de fadas. Ainda mais naqueles onde a Princesa no ‘felizes para sempre’ com o Príncipe da sua vida. Porém, no dia 18 de Outubro de 2014, tudo isso mudou. Depois de anos sem nos ver, você foi me visitar junto com meus pais, e naquele ano trágico de Copa do mundo, você tocou a campainha, eu abri a porta, e então, 7x1 pra você.” - Ele começou enquanto eu me equilibrava num misto de bico pra chorar, ombrinhos balançando e as gargalhadas que só ele arrancava de mim. “Ali, naquele exato momento, eu já sabia que era você. Quem diria que hoje eu teria a chance de dizer sim pra minha primeira namorada? A mulher que desde o meu primeiro namoro, me deu objetivos, sonhos e planos. A mulher que não só me aceita da maneira que eu sou, mas que me coloca em um lugar onde eu nunca imaginei um dia chegar. Aquela que me olha diferente…” e ele embargou. Precisou respirar antes de continuar. E eu perdi o controle sobre meu bico. Quantas vezes eu sonhei com aquele momento... E por mais que eu piscasse pra acordar, eu continuava sonhando. “Pra tentar demonstrar o que eu sinto por você, eu precisei pedir ajuda pros meus diários, pra voltar um pouco no tempo. Como naquele 11 de Maio (2015) em Chicago, eu cheguei em casa cansado e triste depois de um dia muito difícil. Eu não tinha te falado o que tinha acontecido, você olhou pra mim, não falou nada, apenas me abraçou e disse ‘ei, vai ficar tudo bem. Eu confio em você e você não está sozinho’. A paz junto com a certeza que eu tive de que tudo daria certo depois daquele simples gesto, me fez entender o quão necessária você é na minha vida”. Transbordei. “Não posso ficar dando spoilers dos meus diários, afinal, escrevi ele pros nossos filhos”. Gargalhei. E, pela primeira vez, me dei conta que eu seria a mãe dos filhos para quem ele escrevera aqueles diários. A “mãe” a quem ele se referia nos diários, mesmo antes da gente se reencontrar. E, um dia, nossos possíveis filhos teriam as duas versões da história pra ler.

Aqueles olhinhos azuis-dinamarqueses-deamarelo-ouro-degradê me fitavam apaixonados, como no nosso primeiro beijo em 2007, e como o segundo primeiro beijo em 2014. Deus, como eu queria ter aquele olhar pro resto da minha vida, e lá estava ele, jurando nunca sair do meu lado. “Eu repetia várias vezes pra mim mesmo: ‘Guilherme, essa menina é a mulher da sua vida. Não deixe nada no mundo tirar ela de você’. E até hoje eu fico repetindo essa frase. Não me interessa se estamos na Alemanha, Estados Unidos, Brasil ou qualquer outro lugar. Se estamos mergulhando em vulcão, pulando de pedras no mar ou fazendo churrasco no Vaticano Brasileiro. Nunca foi sobre o País, cidade, ou sobre o que estamos fazendo, meu lugar preferido,  o lugar que eu escolhi passar o resto da minha vida, é do seu lado. Eu te juro não só amor eterno, mas um amor cheio de surpresas e aventuras, que se a Disney nos descobrir, vai querer nos patrocinar. Que Deus nos abençoe muito, no nosso (finalmente) felizes para sempre. Eu te amo”


Absolutamente nada a acrescentar.


“Só nos meus sonhos mais profundos eu idealizava o homem ideal para estar comigo nesse altar.” - eu comecei. “Hoje eu juro amor eterno àquele que não passa um dia sem me arrancar um sorriso (mesmo que eu tente evitar), que me impulsiona a sonhar alto, que me cuida num mimo incondicional. Cuidadoso com cada detalhe pra me fazer um pouco mais feliz a cada dia. E hoje depois de toda a distância superada, nossa lista de sonhos realizados e sonhos renovados duplicou. Mas até mareja nossos olhinhos em poder dizer que…” - respira, respira, respira. “...finalmente acabou a distância! Deus permitiu que a gente se escolhesse de novo depois de 6 anos separados. Uma escolha tão certa, que hoje escolhemos ser um só. Pra poder continuar se escolhendo pelo resto dos capítulos que estão para serem escritos… juntos”. E ele me olhava mordendo o lábio tentando controlar as emoções que transbordavam sem hesitar. Antes de listar oficialmente meus votos, eu precisava listar alguns dos motivos pelos quais me apaixonei por ele. “Você adora dizer que eu te aproximei de Deus mas eu insisto em dizer que foi o contrário.

Sua humildade. Sua empatia pelo próximo. Seu amor incondicional à família. O quanto você guarda a sete chaves seus avós. Seu dom de viver “sempre sorrindo”. Sempre sendo grato. Sempre buscando a melhor versão de si”. E enquanto ele fazia o tímido no sorrisinho torto que eu amo, eu podia ver os convidados ao redor concordando com a cabeça. Então, fiz meus votos: “Por isso hoje, eu prometo te amar como se as despedidas do aeroporto estivessem nos alcançando. Prometo fazer da nossa casa, um lar. Prometo não ir dormir sem orarmos juntos. Prometo que essa é a rotina que mais gosto no nosso dia. Prometo ser a melhor amiga pra viajar o mundo e rir até a barriga doer. Nem vou tentar prometer dormir menos. Me deixa. Prometo ser a mãezona que você enxerga em mim quando for da vontade do Pai que nossa família cresça. Prometo muitos domingos de filme, pipoca, sofá e Ferinha. Te prometo uma parceria de muita amizade, cumplicidade, respeito e amor. Pro resto da vida. Nem que eu precise dos próximos 194 anos, prometo que vou me empenhar a te retribuir o mundo mágico que você me oferece todos os dias. Me dá a mão. Não solta nunca mais. Respira fundo e sejamos gratos por quem veio abençoar a nossa aliança no dia de hoje. Te amo!”. Enquanto ele me dava mais um beijinho na testa, a cerimonialista me passou a última plaquinha surpresa do dia que dizia: “Vez da princesa atacar”. Ele me olhou sem entender.

Uma música familiar começou a tocar. As portas da entrada se abriram e, carregando nossas alianças, entraram os avós maternos dele ao som de “Ave Maria” pela voz da Deli. Ele levou as mãos na cintura, e foi a vez dele fazer o bicão. Eu sei que a surpresa era pra ele, e era minha grande chance de devolver todos os grandes gestos que ele já tinha feito por mim. Mas nem eu estava preparada pra ver ele desmanchar daquele jeito. De longe, um dos momentos mais mágicos da nossa história. Quando o Vô me abraçou depois de entregar as alianças, disse baixinho “Deu certo, fia!” e aquela emoção me preencheu como em poucos momentos da vida temos o privilégio de nos sentir. Como se tudo já tivesse valido à pena e não faltava mais nada. E só então quando o Príncipe virou pra frente, foi que ele viu que era nossa querida amiga-madrinha-anjo cantando o último refrão. Ele ergueu os olhos pra cima e soluçou. Talvez num agradecimento em silêncio pela bênção da amada avó Amália. Então ajoelhamos, recebemos a bênção do Pastor, dos nossos pais, e trocamos as alianças. Quando o Pastor-Gui declamou “Eu vos declaro, marido e mulher”, ele me puxou pro selinho, eu avancei pro beijão no meu finalmente marido oficial. E quando achei que as surpresas tinham enfim acabado, minha família entoou o trecho da música que a única avó que conheci na vida (da minha família) cantava em todos os Natais: “Essa família será abençoada, porque o Senhor vai derramar o seu amor. Derrama Senhor, derrama Senhor, derrama sobre ela o seu amor” e eu desmanchei. Era como ter um pedacinho dela ali com a gente. E nossa, como ela e o Príncipe teriam se dado bem.

-Não precisa mais dizer que pode beijar a noiva, né? - o Pastor-Gui concluiu nos fazendo gargalhar.

-Pode falar que eu beijo de novo - o Príncipe respondeu.

E nos beijamos de novo.


Ao som de “Perfect” e “Thinking out loud” do Ed Sheeran, começaram os cumprimentos dos padrinhos e familiares e foi onde a avalanche nos atropelou. Cada abraço era um pouco que a gente transbordava. Aqueles abraços, além de uma formalidade para o fim da cerimônia, eram também abraços de despedida. Dois dias depois a gente embarcaria de volta pra Alemanha, de vez. Runi, Muralha, Lulu, Otávio, Woody… Cada um falava uma coisa mais bonita que o outro. Rudolph, que tinha feito uma cirurgia de emergência recentemente, quis me destruir dizendo “não sabia se eu estaria aqui hoje”. Topã e Príncipe de afundavam num só praticamente, e abraçar a Jaquelinda era abraçar dois ao mesmo tempo, com que coragem desfazer esse tipo de abraço? Uns eram breves para conter a emoção, outros tinham dificuldade de soltar. A B. sabia que aquele era nosso abraço de despedida, e foi o mais longo de todos eles.  A Deli, que foi minha cúmplice na grande surpresa da noite, veio com seu sorriso largo abraçar um Príncipe que já caía no choro só de lembrar da música. O abraço dele com a Bride foi intenso também. Era minha amiga de colegial, mas o laço que eles criaram foi de irmãos de sangue. Ele passou a cerimônia toda com o terço da Desatadora dos Nós que ela deu de presente. O Chico Bento dançou na minha festa de 15 anos, abraçá-lo junto com a Rosinha era muito especial. Quando vieram nossos pais e irmãos, pensei que teríamos que encerrar a noite ali mesmo. O abraço do Rocasogro era esmagador. A Rocasogra, tadinha, não tinha restado nem uma gotinha do rímel no olho. Arco-Íris performava o clássico bico que deu origem ao meu e olhava pro Príncipe preenchida de gratidão. E o Daddy, no silêncio mais alto da noite, segurou minhas mãos e sorriu sem descolar os lábios fazendo que ‘sim’ com a cabeça, com os olhinhos me fitando a alma. Levou a mão direita no lado esquerdo do peito e deu duas leves batidinhas, ainda num silêncio que eu ouvi em alto e bom som tudo o que eu precisava ouvir. Vieram meus irmãos e ver o Minoine me fez querer desistir de manter a maquiagem pra festa. Depois os avós, com os grisalhos e a doçura infinita que nos abençoou desde o primeiro dia em que fui apresentada à família. E por fim, os sobrinhos, e Merida me fazia querer desistir da mudança, ou contrabandeá-la comigo. Acabou. Olhamos um pro outro num suspiro profundo de alívio e gratidão de quem acabou de transbordar amor. O que me faz pensar quanto privilégio cabe na nossa história. E que injusto soa chamar de privilégio o que não deveria ser raro, essa coisa de ser cercado de amor.

Saímos ao som de “Say a little pray for you” como eu sempre imaginei que seria toda vez que assistia um dos meus filmes rayssinha preferidos (“O casamento do meu melhor amigo”). Sei que nem sempre é saudável que a gente alimente os sonhos românticos que temos pra esse grande dia, afinal, muita coisa pode sair do planejado. E no nosso caso mesmo, saiu. Quase 1h de atraso na cerimônia nos tirou a luz do pôr do sol, mas nos cobriu com um céu estrelado quase mágico. Quando começamos a idealizar aquele dia, 2 anos antes, eu ouvi “Não espere que fique igual às referências do Pinterest, tá? Nunca fica.”. E não ficou mesmo. Ficou melhor. Graças a um time exemplar de fornecedores escolhidos a dedo e com muito cuidado durante todo o processo. Mas aquele cenário bucólico no meio dos eucaliptos, coroado com varais de luzes que se misturavam com as estrelas numa brisa leve que anunciava o fim do verão, só podia ser palco do nosso conto de fadas. Aquele dia 04 de Maio de 2019 foi pintado a dedo, e só a gente poderia protagonizar. Ao caminhar de mãos dadas com o grande amor da minha vida, e agora meu marido, em direção à uma chuva de arroz, eu podia sentir o sorriso de cada um dos convidados que nos aplaudiam ali, numa energia eletrizante de emanar e compartilhar a felicidade que permeava aquele lugar. Terminei aquele trajeto dando pulinhos numa expressão bastante literal de felicidade.

Quando os convidados desceram para a festa, Príncipe e eu ficamos para a sessão de fotos dos noivos. E enquanto a Felícia queria se esbaldar de tantos cliques, a gente só pensava numa coisa: uma cerveja gelada no copo americano. E quando entramos na festa ao som de “Meu Abrigo” de Melim, Minoine garantiu um pitstop na lata de cerveja mesmo, antes de entrar oficialmente na pista de dança para a valsa que ensaiamos -talvez não o suficiente. Os padrinhos já nos aguardavam com o shot que substituía o champanhe. E brindamos ao som de “I’ll be there for you” do The Rembrandts. E enfim, a pista de dança se abriu. O Príncipe foi para uma ponta e eu para outra, e enquanto trocávamos sorrisinhos tímidos, “Beauty and the Beast” por Ariana Grande e John Legend começou a tocar. E ali, debaixo do céu estrelado e uma enorme árvore iluminada, dançamos nossa primeira valsa. Mais uma vez, dessa vez quase que numa réplica perfeita, me senti como na cena do meu filme predileto, Orgulho & Preconceito, quando Elizabeth dança pela primeira vez com Mr. Darcy, e o salão lotado de pessoas ao redor dos dois simplesmente desaparece. Os dois parecem flutuar numa conexão poderosa, possivelmente de outras vidas. Eu sabia que ele dava tudo de si pra lembrar os 3 passinhos que a gente ensaiou para aquele momento. Mas era difícil sair daquele transe que conectava nossos olhares, enquanto em acariciava o rosto dele como que pra me convencer de que ele era real. Era como se estivéssemos nos relando pela primeira vez e a eletricidade enrijecia cada pelo do braço, despertando também centenas de borboletas no estômago. Ali, 12 anos depois dos conhecer, 5 anos depois de nos reencontrar, e 30 minutos depois de nos casarmos, a combustão de um amor raro recém-encontrado. Daqueles que te fazem entender que você passou a vida inteira esperando por aquele encontro. Do tipo que se mistura a gente numa única frequência e traduz finalmente o significado de LAR. Naqueles pouco menos de 3 minutos, a gente flutuou, cantou, riu e se conectou como se selasse o que seria do nosso futuro juntos: um eterno conto de fadas-real.

Quando chegou o momento do nosso “gran finale”, o maior medo dele se concretizou: depois de me rodar numa pirueta e me puxar pra si, ele não conseguia tirar do bolso interno a rosa que deveria me entregar. Pois eu acho que se não fosse assim, com uma grande gargalhada no final, não seria perfeito. E com o microfone na mão e todos os olhos em nós, ele fez um agradecimento em nome do casal, pelo privilégio de celebrar nosso amor cercados de todas as pessoas que mais amamos. Se enrolou um pouco, no calor da emoção. Eu me fiz breve, finalizando com um “Vamos beber pelo amor de Deus!” e assim abrimos a festa. Sem cerimônia para abrir o jantar ou a pista de dança, muito menos passar de mesa em mesa pra tirar foto. Jantamos rapidamente aquela comida de fazenda deliciosa, vendo os convidados se misturarem nas mesas (tudo fora do mapa de lugares que eu levei 6 meses para concluir) corremos pra pista de dança e de lá não saímos até o fim da festa.     Em menos de 1 hora estávamos de chinelo, com um copo de cerveja na mão, cantando e dançando nosso bom e velho pagodinho. Quando a dupla sertaneja chegou, não nos desgrudamos mais. Ouso dizer que vai ser difícil encontrar casal que curta juntinhos uma pista de dança como nós. A gente cantava e performava cada uma das músicas. E ao redor, numa pista de dança de cimento, todo mundo se divertia e rebolava até o chão -para o espanto do convidado alemão que estava acostumado com outro tipo de festa de casamento. Até o Vô foi parar no meio da muvuca. A gente ajoelhou no chão pra cantar o hino nacional do Brasil “Evidências”, joguei o buquê, o Príncipe jogou a caixa de Whisky e, no breve momento em que paramos para um registro na cabine de fotos, ouvimos o DJ dizer “para essa aqui a noiva disse que sairia de onde estivesse pra dançar” e começou a tocar “Dancing Queens” do ABBA. Saímos correndo direto pro palco onde os músicos estiveram horas antes.

A noite inteira. Eu e ele. 

Quando enfim não dava mais pra ignorar a realidade de que a festa tinha chegado ao fim, os convidados aos poucos iam se despedindo, levando docinhos, tirinhas de fotos, um chinelo estampado de selos de viagem, e uma tag de mala de viagem com os dizeres “Onde quer que você vá, vá por amor”. Que diz um pouco mais do que o tradicional “E viveram felizes para sempre”. Que me soa simplista demais. Ao fim daquele dia mágico tão esperado, a semente que a gente queria plantar não é que é pra ser fácil, simples e romantizado. Mas se for amor de verdade, vai valer à pena. O nosso conto de fadas teve tantas reviravoltas, idas e vindas, falhas e defeitos, encontros e despedidas, que sob nenhuma circunstância poderia ser resumido num clichê irreal. Assim como foram nossos anos de namoro à distância, a gente sabia que na página seguinte não só os dias coloridos nos aguardavam. Mas era por amor. Amor de verdade.

E por amor, seguimos.

Porque por amor sempre vale a pena seguir.


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