CAPÍTULO XVI - 3A TEMPORADA

                          



Acordamos no dia 05 de Maio de 2019 numa tremenda ressaca. Não de bebida, mas de felicidade. Tá bom vai, de bebida também. Mas despertamos sorrindo. Desacreditados que aquela noite tinha sido mesmo real e que agora, éramos oficialmente: Sr. e Sra Olivão-Rocamora. A gente se olhava em silêncio, e caía na gargalhada. Numa felicidade genuína, leve, segura. Como se a gente tivesse despertado de um sonho para perceber que ele era, na verdade, nossa realidade. Nos despedimos daquela suíte especial com um vestido de noiva de barra marrom num ombro, uma latinha de brahma na mão, e no bolso mais de meio milhão de grampos que tiramos juntos do meu penteado. No lobby de entrada, enquanto esperávamos pelo Daddy que ia nos buscar, Deli e Hilbert passaram por lá pra se despedir da gente oficialmente. Mas levaram também um convite muito especial dentro de uma caixinha de madeira. Em novembro daquele mesmo ano, seríamos padrinhos de casamento deles. 2019 seria o ano em que eu e minhas duas melhores amigas de colegial, Deli e Bride, casamos. Eu em Maio, Deli em Novembro, Bride em Dezembro. Em todos, uma estaria no altar da outra. Era muito privilégio. E consequentemente, com aquele convite, já tínhamos a nossa data de retorno ao Brasil, para dali 6 meses.

Naquele domingo, a família inteira compartilhava do nosso sentimento de não aceitar o fim da festa mais legal das nossas vidas. Resolvemos isso fazendo um churrasco na casa do Daddy. Que foi um prato cheio pro amigo alemão conhecer um verdadeiro churrasco brasileiro, e pro Rocasogro treinar seu inglês impecável. Entre traduções simultâneas, caipirinha, cerveja, carne, pão de alho, vinagrete, farofa e muitas recordações da noite anterior, Príncipe e eu acertávamos os últimos detalhes da compra de euros para viajar no dia seguinte. A gente precisou fazer isso nos 45” do segundo tempo porque todo o dinheiro que teríamos para a lua de mel, seria do dinheiro que a gente ganhasse de presente de casamento. Mas foi na prorrogação que as coisas começaram a dar errado. A moça de quem compraríamos os euros, só faria a entrega na segunda-feira depois do almoço. Nosso voo de volta para a Alemanha saía às 15h. Precisamos rapidamente elaborar um plano B. E apesar da despedida que se aproximava, assustar, porque dessa vez era pra valer, o foco era conseguir trocar o dinheiro e chegar em Guarulhos à tempo.

No dia seguinte a correria começou bem cedo. De malas já fechadas, corremos do banco para a casa de câmbio, e para a estrada rumo a São Paulo. De novo, com o comboio da família. Mas nem por um milagre, chegamos a tempo. E, pela primeira vez na história de viajante do Príncipe, perdemos um voo. E o grande problema na verdade era que na terça-feira, saía nosso voo para a lua de mel de destino ainda desconhecido por mim. Portanto, precisávamos encontrar em tempo recorde um novo voo com um valor acessível que nos levasse até Stuttgart em tempo de embarcar para a lua de mel. Não me lembro de ver o Príncipe tão nervoso. Nesse tipo de situação eu costumo ter a estranha habilidade de me manter calma. De forma bem prática, puxei o Príncipe para o guichê da LATAM pra perguntar por voos. Depois de ouvir nosso relato, o atendente muito simpático respondeu:

-Fiquem tranquilos! Acabei de achar um ótimo voo para vocês embarcarem daqui 2 horas, com um super desconto!


Ufa!!!

    -Fica em R$15.000,00 para o casal.

E naquele momento eu perdi um pouco da calmaria.

Mas além do privilégio de ter um dinheiro guardado para poder comprar outra passagem em cima da hora, tínhamos também uma família muito disposta a ajudar financeiramente e, pra completar, Deus nos mandou a Maria dos Anjos. Uma funcionária da Lufthansa que ouviu nossa história e fez mais do que podia para nos ajudar. Muito mais do que os funcionários das demais companhias aéreas, pelo menos. Ela passou os primeiros 30 minutos buscando um voo que se encaixasse no nosso horário e no nosso bolso. Além de encontrar um voo pra gente embarcar em menos de duas horas, mandou a gente transformar as 4 malas em 3 (ali mesmo no chão do aeroporto) e despachou uma de graça pra gente. Daqueles sinais que eu sempre falo, sabe? Que Deus manda pra dizer “Calma, tá tudo sob controle”. Encaramos a perda do primeiro voo como livramento, e nos preenchemos apenas de gratidão. Deixamos todos os chocolates alemães que a Rocasogra carregava na bolsa junto com um milhão de agradecimentos de toda a família para Maria dos Anjos. E, claro, formalizamos o agradecimento no site da Lufthansa depois. Espero que hoje ela já seja CEO da empresa. 

A despedida não foi menos dolorosa dessa vez. Mas era como se já estivéssemos todos nos preparando para aquele momento há um mês. Além disso, já tinha uma contagem regressiva rolando para o próximo reencontro. Então naquele ritual que se repetia de abraços e lágrimas e o silêncio do Daddy na frente do portão de embarque, tinha um misto de não querer ir embora, e querer começar logo oficialmente nossa vida de casados. Mas, como o Daddy sempre diz nesses momentos: não há separação. E os últimos momentos que vivemos juntos provaram isso ao pé da letra. Entre parentes e amigos, a gente tinha um porto-seguro de primeira pra chamar de família.


Pouco mais de 12 horas depois, estávamos na porta do nosso apartamento.

-Você precisa esperar um pouco aqui fora - O Príncipe disse enquanto abria a porta.

-Porque??? 

-Só um minuto, já te chamo. - E bateu a porta na minha cara.


Dali uns minutinhos, eu ouvi “Beauty and the Beast” tocar. Abri um sorriso. Ele estava aprontando alguma. Ele abriu a porta, com o mesmo sorriso espelhado no rosto como quem dizia “sim, estou”. Entrei e tinha pétalas de rosas no chão, formando uma trilha até a mesa de jantar. Esta, por sua vez, estava coberta por uma toalha de praia, alguns presentes que eu entendi que ele tinha me trazido da viagem a Chicago que ele fez antes de ir pro Rocasório, alguns outros itens que eu entendi que eram para a lua de mel, nosso cofrinho onde juntamos um dinheirinho extra pra viagem e um champanhe com duas taças. Tudo isso em volta de uma pasta com um impresso que dizia: HONEYMORA - MYKONOS.

A gente ia pra Grécia de novo. Não para a mesma ilha, mas para o mesmo lugar em que eu percebi que a nossa vida seria juntos, pra sempre. Uma simetria poética perfeita que combinava direitinho com todos os planos que ele fazia pra me surpreender. E ali, no meio da nossa sala de jantar recém decorada, brindamos e compartilhamos um sentimento muito louco de estar em casa. Mesmo que aquele fosse um apartamento novo para nós dois. Mesmo que aquele endereço fosse há milhas de distância do nosso País de origem. Éramos eu e ele. E o nosso lar.


A gente embarcaria para Atenas em Stuttgart mesmo, então foi tudo muito tranquilo. Num voo de 3 horas eu dormi antes de decolar. Sem novidades. Passaríamos a primeira noite num hotelzinho de frente para aquele mar com praia de pedrinhas. Chegamos com uma brisa gelada e uma atmosfera leve, como se pudesse nos fazer flutuar. Jantamos num restaurante qualquer de frente pro Egeu. Eu me sentia um pouco aérea, sem raciocinar de verdade onde estávamos. Fui absorvendo tudo muito lentamente. Os aromas, os sabores, a vista, o vento frio abraçando a gente sem pedir licença. Voltamos pro hotel: 38,5° de febre. Era só o que faltava mesmo. A princípio, eu culpei a mudança brusca de temperatura do Brasil até ali. Mas, no fundo, eu sabia que era a minha imunidade dando sinais de que não aguentava mais. Ela já é baixa de forma geral. E o último mês fora um grande teste de resistência. Antes das 21h eu estava dormindo.

No dia seguinte, eu me sentia um pouco melhor. E fomos cedo para o aeroporto. Quando chegamos em Mykonos, o Príncipe fez amizade com um grupo de senhoras que viajavam sozinhas. Trocou até telefone para um possível passeio de barco juntos. Sem novidades. Alugamos o carro e fomos para o Hotel. O primeiro cinco estrelas das nossas vidas. Eu estava receosa de me sentir muito deslocada, porque o chique não combinava muito com a gente. E eu estava certíssima.

A começar pelos manobristas que não nos deixavam fazer nada, depois o hall de entrada do hotel que já era suficiente pra gente passar os 10 dias. Daqueles ambientes cheios de esculturas conceituais, quadros que não dá pra dizer se é obra de arte ou só um monte de rabisco chique, livros que nunca foram folheados milimetricamente alinhados e exageradamente branco (não só na decoração). 

-Uma vez na vida, né? - ele brincou lendo minha mente.

-Capaz da gente nem saber usar o banheiro desse lugar - completei rindo.

A gente tinha chegado mais de 1h antes do horário de check-in, então precisamos esperar até o quarto ser liberado. Achamos um sofá na área externa e ali nos acomodamos. Batia um sol aconchegante, não muito forte, mas o suficiente pra não deixar a brisa gelada incomodar. Afundamos no sofá mais confortável que já vimos na vida, e ali mesmo apaguei por mais de uma hora. Conforme fui sentindo meu corpo relaxar sem a menor condição de brigar com o sono, eu entendi. Eu estava exausta. Depois de um mês intenso de detalhes finais do casamento, milhares de despedidas, muita comida e álcool em dobro, e muita ansiedade pra que tudo saísse perfeito, meu disjuntor caiu. Aquele momento era como se meu corpo entendesse que não havia nada mais a ser feito a não ser descansar, e desligou. Se fecho os olhos consigo lembrar perfeitamente daquela sensação de estar 100% relaxada. Quando despertei vi que o Príncipe se encontrava no mesmo transe que eu e compartilhava daquele sentimento comigo. 

Quando o recepcionista nos chamou para o check-in, ele explicou que a suíte que havíamos escolhido não estava disponível no hotel em que o Príncipe tinha feito as reservas, o “Villa”, por problemas técnicos na hidromassagem. Por isso, ele nos ofereceu o mesmo tipo de suíte, mas no “Resort” da mesma rede.  Não vimos problema. E além disso, temos dificuldade de contestar certos serviços, mesmo que estejamos no nosso direito. Ainda mais num lugar chique daqueles. Na nossa suíte a sensação de estar deslocado era menor. Com exceção da hidromassagem na varanda e uma cama deliciosa, não tinha nada de extravagante. E ali dentro, éramos ele e eu. Com as nossas piadas, cervejinha e um pagodinho. Enfim, as férias começaram. Fomos conhecer o centrinho, comemos o primeiro Gyros (de muitos) da viagem, compramos ímãs de geladeira, mergulhamos no mar de água cristalina, andamos muito na praia (dessa vez, mais preparados e com o sapatinho de água adequado para não machucar o pé nas pedrinhas), e na volta pro hotel compramos cerveja mais barata no mercado pra beber no quarto. O clima, de forma geral, era exatamente o que eu me lembrava da Grécia. Leve, alegre, hospitaleira. Mas não dava pra negar a diferença de status entre Santorini e Mykonos. Enquanto a primeira ilha era mais popular, a segunda tinha um ar de exclusividade. Muitas praias, por exemplo, eram privadas. E isso não fazia o menor sentido pra mim. Mas muitas só poderiam ser frequentadas por quem estivesse hospedado em determinado hotel. Mas, apesar do preço da água ser 3x mais do que era em Santorini, a atmosfera da Grécia é poderosa. Além disso, o propósito daquela viagem era, de fato, relaxar. Curtir um ao outro.  E recarregar as energias. Nos três primeiros dias, quase não saímos do quarto. A gente levantava pro café, mas voltava pra cama. Passeava no fim de tarde, jantava, e voltava pra cama. Ou direto para hidromassagem. A gente estava tão conectado numa sintonia tão intensa, que parecia simples. Nossos corpos se atraíam feito ímãs e se conectavam na mesma frequência num calor inflamado, do tipo que queima sem arder, e a gente sempre quer mais. Durante todo o resto do tempo a gente se divertia até a bochecha doer de tanto rir. Uma lua de mel bem ao pé da letra, eu diria.

Lá pelo terceiro dia, resolvemos explorar uma praia famosa pela animação. Se enquadrava mais no nosso estilo de viagem. Era só consumir no restaurante que podíamos usar a espreguiçadeira na beira do mar. E assim ficamos por algumas horas, entre muito sol, mar e  alguns drinks. Próximo das 4 da tarde, quando levantamos pra ir embora, a música do restaurante ficou mais alta e algumas pessoas já se reuniam para dançar. Curiosos, paramos pra observar e vimos que o DJ interagia com o pessoal dançando, colocava as pessoas pra dançar em cima das mesas, e os bartenders corriam feito loucos na distribuição dos drinks. Quando o DJ passou nos oferecendo uma rodada de shots (de sabe-se lá o quê - olha o perigo), achamos justo participar. Mais de 5 shots e algumas cervejas depois, estávamos príncipe e eu em cima da mesa cantando e rebolando como se não houvesse amanhã. E ainda bem que não havia mesmo. A festa continuou no quarto mas, no dia seguinte, nem pro café da manhã conseguimos levantar. Mas a partir desse dia, entendemos o porquê Mykonos era tão famosa por suas festas, mesmo fora de temporada. E, mesmo não sendo um casal da balada, fomos atrás de toda a agenda de festas dos próximos dias. E nos divertimos em várias pistas de dança como fizemos no Rocasório, eu e ele, ele e eu.

No quarto ou quinto dia, por curiosidade, fomos ver se havia muita diferença do hotel que estávamos, para o que tínhamos pago. Para nossa surpresa, a diária era quase o dobro. Eu fiquei revoltada. Mas queria que o Príncipe fosse brigar. Passamos aquele dia todinho ensaiando o que íamos falar. Como falar. Deixando claro que não estávamos infelizes com o serviço de maneira nenhuma. Mas o que é justo é justo, né? Pagamos mais pelo quarto, ou eles devolviam o dinheiro, ou nos dariam a suíte correta. E lá foi o Príncipe com mais tato do que o necessário, reforçando 3x que não era uma reclamação, apenas exigindo nosso direito. O gerente, por sua vez, entendeu perfeitamente e explicou que, uma suíte com hidromassagem no hotel “Villa” não estava mesmo disponível, mas tinha 3 suítes para nos apresentar para que pudéssemos escolher. E foi assim que do quinto dia até o fim das férias passamos numa suíte inacreditavelmente perfeita. Tinha praticamente uma sala de estar dentro do quarto, o que pra mim já era surreal demais. No lugar da hidromassagem, tinha uma banheira do lado da cama, e uma piscina na varanda. Uma cama gigantesca, e um closet também. Surreal. O café da manhã ficou mais chique também. Todos os dias a gente ficava discutindo se pegava ou não o champanhe que ofereciam. E a gente nunca pegava. 

Aquela realmente foi uma viagem diferente das que costumamos fazer. Sem correria e passeios intensos pra mergulhar em vulcão. A gente se divertiu muito entre praias, passeios no centrinho, drinks e baladas. Mas não existia pressa, nem pressão de seguir algum roteiro e conhecer o máximo possível da ilha. Quando a gente não tava afim, não saía do hotel. Pedimos jantar no Hotel, mas também levamos lanche da rua pra comer na cama assistindo filme. Quando encontramos o melhor Gyros da cidade (com o melhor atendimento), voltamos 4 pra repetir. Quando encontramos um pôr do sol no caminho do passeio, sem lugar especial, sentamos e apreciamos. Como se o relógio nem importasse mais. Uma verdadeira bolha de calmaria só nossa. Mas como qualquer bolha, uma hora ela explode, e precisamos nos despedir do paraíso. Mas dessa vez, aceitamos o champanhe.

Na volta pra Stuttgart passamos uma noite em Atenas, pra conhecer a famosa Acrópole. O primeiro teatro do mundo. As Cariátides. O templo de Zeus. O Museu da Acrópole. Uma enxurrada potente e impressionante de história da humanidade que completou os 10% de bateria que nos faltava pra voltar pra vida real. Mais um dos privilégios inesquecíveis da nossa vida. Falando em privilégio, quando chegamos de volta em casa, os vizinhos Ariel e Xande tinham preparado uma recepção surpresa na porta do nosso apartamento. Com um presentinho pro casal e uma faixa de “Just Married” eu entendi que, como o Daddy sempre me diz: você está onde deveria estar. Daquela porta pra frente, começava oficialmente nossa vida de casados. 

A fase de lua de mel se estendeu por um tempo ainda. Mas eu sabia que não duraria pra sempre. Eu tinha consciência de que em breve a rotina ia se estabelecer e as entrelinhas de uma vida a dois iam se sobrepor ao discurso de uma cenário mágico. Não é que eu estava prevendo uma fase ruim, uma dificuldade específica. Mas eu me recusava a me iludir que todos os nossos capítulos dali pra frente seriam como nos contos de fadas, que terminam em “e eles viveram felizes para sempre” mas ninguém conta o que de fato eles viveram. Eu sabia tinha algo que precisava ser melhor explicado nesse “felizes para sempre” e que eu estava prestes a descobrir. Quando completamos 1 mês de #Rocasório, ele me surpreendeu com um dos presentes mais especiais que temos na nossa casa até hoje. Um quadro com o mapa das estrelas que estavam sobre nós no dia e horário em que juramos amor um pro outro num entrelace de almas que pertencem uma à outra. E aquele foi mais um sussurro de Deus me dizendo: “Vai ficar tudo bem. Eu disse que estava caprichando, não disse?”.

Eu não fazia ideia do que nos esperava nas páginas seguintes. Na época, não imaginava que viriam capítulos que jamais poderiam ser resumidos em “viveram felizes para sempre”. Eu sabia que não seria fácil. Mas eu tinha certeza que enfrentaríamos juntos. Sob qualquer céu estrelado, o nosso amor já estava mapeado.


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