CAPÍTULO XIV - 3A TEMPORADA - ROCASÓRIO PARTE 1



Naquele 04 de Maio, eu acordei sozinha com o Fera na casa do Daddy. Lembro de abrir os olhos e ficar um tempo na cama tentando entender qual era o meu sentimento naquele momento. Eu estava nervosa? Estressada? Ansiosa? Eu tinha muito medo de passar aquele dia aérea de tão ansiosa e acabar não aproveitando cada segundinho dele, que eu tinha certeza que passaria rápido demais. Mas eu não me sentia nervosa. Abri um sorriso. Eu me sentia feliz. Uma felicidade segura. E eu preciso dizer que nesse momento lembrei da Era Paolo. Lembrei como era o tipo de felicidade que eu costumava sentir quando estávamos juntos. Sempre tinha um fundinho de apreensão. Um pé atrás. Um medo de quanto tempo ia durar daquela vez. Então um dedinho do pé sempre me mantinha colada no chão, por precaução, não podia me permitir elevar muito as expectativas. Afinal, nunca dava pra saber qual ia ser o próximo surto, a próxima briga, ou a próxima traição. A única certeza que eu tinha, era que logo aquela felicidade acabaria. Lembrei também de quantas vezes eu chorei no banho, escondida do mundo, pedindo a Deus (na esperança de que eu me escutasse também) que me desse força para sair daquele buraco. Que me desse coragem pra me amar e não ter medo de ficar sozinha, porque algo me dizia que eu merecia mais. Era nesses momentos também que eu fantasiava encontrar um cara que me amaria de um jeito que nem os romances do Nicholas Sparks tinham descrito ainda. Que me amaria por completo, e me acharia especialmente bonita no meu look preferido de coque e moletom. Que iria rir das minhas piadas ao invés de me ridicularizar. Que iria me priorizar, ao invés de me tratar como a última opção. Que me admiraria como pessoa e profissional, que incentivaria meus sonhos e principalmente, minha liberdade. E demonstraria tudo isso, todos os dias. Eu ainda imaginava que ele me olharia com um sorriso torto e um olhar perdidamente apaixonado. No fundo, eu acreditava que eu merecia que toda aquela fantasia se tornasse realidade. Mas na época, eu estava longe de acreditar que em alguns anos, estaria acordando no dia do nosso casamento. Sentindo uma felicidade quase tangível de tão real, sem prazo de validade. E, mais do que isso, preenchida pela certeza que eu merecia estar vivendo aquele sonho. Senti o sorriso alargar no rosto. Enfim, levou o tempo necessário, mas aquele dia chegou.

Levantei e fui direto abrir a janela. A cerimônia no meio dos eucaliptos e a festa também ao ar livre exigiam que a chuva não fosse convidada. O céu não era de um azul limpo, mas parecia firme. Eu me sentia confiante de que ele permaneceria assim. Peguei o celular pra mandar um bom dia pro noivo e vi que ele tinha sido mais rápido: “Quer casar comigo hoje?” li no celular. E o 04 de Maio de 2019 tinha oficialmente começado. 

A casa do Daddy estava lotada com amigos e família que tinham chegado de longe no dia anterior. A casa dos Rocasogros também. O horário do convite era às 16h30. Na programação, a cerimônia começava às 17h. Com a casa cheia e um Daddy preocupado em cuidar de todos os convidados, eu precisei ir dirigindo pro salão. Ao invés de ver aquilo como um problema, afinal, como assim não tem quem leve a noiva no salão no dia do casamento dela? Eu sequer questionei. Peguei logo a chave e fomos eu e Luna cantando alto no caminho. Passei nos Rocasogros para deixar a lembrancinha da Vó, Tia Xô e Jaquelinda: um pequeno kit com um creminho, uma toalha de rosto com um avião e as iniciais delas bordadas, e um cartão com um agradecimento personalizado para cada uma delas. A minha fada Tamara já arrumava a Vó e a Tia Xô quando cheguei. Desde cedo foi um dia difícil de parar de sorrir. O Príncipe não estava, tinha ido fazer barba e cabelo, pois mais tarde iria pro hotel onde passaríamos aquela noite, pra se arrumar com Rocasogro, Topã e Woody (e beber um Whisky juntos, claro). Nós nos falamos apenas por telefone. Ele também não estava nervoso. Mas muito feliz. Não posso dizer o mesmo do Rocasogro. Então me despedi de uma avó que me olhava com os olhinhos ansiosos, e fomos pro salão onde a maioria das madrinhas já me aguardava. 

Poucos minutos depois que cheguei, entendi onde exatamente o Príncipe estava. Foi entregue na recepção um botão de rosa vermelho para cada uma das minhas convidadas junto com uma caixa cheia de Kinder Schoko-Bons (o chocolatinho mais esperado quando voltamos pro Brasil), com uma cartinha que dizia:

"Salve, salve minhas madrinhas! Todas maravilhosas? Espero que sim, porque eu to lindo. Acalmem a noiva, ok? Vejo vocês em algumas horas. PS: um docinho e uma rosa para agradecer todo suporte e carinho. Gui”.


Eu também ganhei, mas a minha flor era amarela e o recadinho era mais ansioso: “Oi Princess, te vejo no altar. Amo você. Gui”. Aqueles pequenos recados do universo me dizendo que eu estava no caminho certo. Aproveitei a deixa e mandei entregar a minha surpresinha no Hotel onde ele iria se arrumar. Não era rosa, nem chocolate. Mas um shot de Jagermeister e um Engov acompanhavam um cartãozinho bem parecido com o dele.

Em seguida, meu bouquet foi entregue e era a coisa mais linda que eu já tinha visto na vida. Um mix colorido que nem eu poderia apostar no quanto ficaria perfeito. Entre uns crisântemos laranja, umas hortênsias azuis, e umas flores de lótus roxas, estava o meu girassol amarelo.  A minha fada-madrinha decoradora superou qualquer expectativa e eu sabia que aquele era só um gostinho do que nos esperava no Floresta Park mais tarde. Era um clima leve que me cercava. Tinha comigo minhas melhores amigas e minha família, e um pagodinho anos 90 tocando na caixinha de música. Tinha também meu kit de Something old, something new, something borrow and something blue. Que era uma das tradições norte-americanas que eu sempre quis roubar pro meu grande dia. Meu ‘something old’ era uma presilha de pérolas que minha mãe tinha desde adolescente e me deu de surpresa, dando um significado ainda mais importante para mim. O ‘something new’ foi um pingente de coração que ganhei da Lulu com uma das cartinhas mais lindas que ela já escreveu pra mim. O ‘something borrow’ era o brinco de brilhante, emprestado da Lulu também, já que eu nunca fui de ter brincos muitos elaborados. E por fim, meu ‘something blue’ eram dois grampos azuis que a Runi achou sabe-se-lá-onde. Estava tudo perfeito demais. E eu evitava olhar no relógio pra não acelerar o tempo. Foi quando meu celular tocou.

- Rá, estamos no Floresta Park- começou a minha cerimonialista - O tempo está ameaçando fechar… - Eu permaneci em silêncio. - Precisamos tomar uma decisão agora: seguimos o plano A e montamos tudo ao ar livre, ou vamos pro Plano B e mudamos pro ambiente coberto?

    Fiquei em silêncio por alguns segundos. Respirei fundo e fechei os olhos em oração.

    - Jesus está do meu lado hoje. Não vai chover. Pode seguir o plano A. - Respondi.

E nem nesse momento, eu me senti estremecer. Nem por um segundo. Aquele era o nosso grande dia. Que já tinha sido escrito há muito tempo por Deus, as fadas e o universo. Nada sairia fora do que foi planejado -não por mim, mas por Ele. A cerimônia no meio dos eucaliptos com um varal de luzes e um céu de outono. A nossa pista de dança no cimento, debaixo de uma enorme árvore iluminada. Comida de fazenda e cerveja no copo americano. Eram sonhos muito agarrados no meu coração para não se realizarem. Se não fosse pra ser, não teriam sido plantados em mim. Respirei fundo e vi a Rocasogra concordar com a cabeça como se confirmasse tudo aquilo. 

Há algumas ruas dali, na suíte de hotel onde passaríamos a primeira noite depois do Rocasório, Topã e Rocasogro dividiam um Whisky, enquanto o Príncipe treinava com o Woody as expressões de reação que teria ao me ver entrando de noiva. Ele sabia que aquela era uma das minhas maiores expectativas da noite. Ele me viu inúmeras vezes chorando ao ver reações de noivos que eu nem conhecia na internet. Ele sabia que em todo casamento, na entrada da noiva, eu olhava pro noivo. Vou tentar explicar: É um dos dias mais felizes da vida do casal, que sabe-se lá o que passou para chegar até ali. Quando o noivo finalmente vê o amor da sua vida vestida de Deusa de branco, imagine a explosão de sentimento dentro daquele peito?! Para muitos, a concretização de um dos maiores sonhos da vida. E nem é sobre o noivo chorar. Porque cada um reage de um jeito e isso não significa ‘menos amor’. É sobre o brilho no olhar. É infalível. A troca de olhares dos noivos nesse momento diz tudo. E quando essa avalanche transborda, é impossível não compartilhar um sorriso. E, no meu caso: um sorriso, um bico e várias lágrimas. Toda vez.

Enfim, lá estava o Príncipe treinando suas expressões, sem saber que não ia poder ensaiar para as surpresas que o aguardavam. E de repente eu estava pronta pra entrar no vestido mais lindo do mundo. Com maquiagem e penteado impecáveis. Brindei com as madrinhas, dei algumas risadas e acompanhei uma Julie muito fofa fazendo maquiagem e cabelo do meu lado. Estava tudo perfeito. Um prato cheio pra borrar a maquiagem da Arco-Íris quando ela foi me ajudar a vestir o vestido o qual nos apaixonamos à primeira vista, literalmente. O bebê caçula dela, todinha de branco pra casar com um Príncipe encantado de verdade. Parece um simples clichê, mas eu sei que ela também fazia uma retrospectiva mental das coisas que eu vivi até aquele dia chegar. A felicidade dela também era finalmente segura. Ela finalmente podia respirar aliviada junto comigo. A gente foi breve na troca de olhares pra não borrar o rosto antes do casamento começar. E na hora de ir embora, eu entendi que nem tudo estava tão perfeito assim. Quando eu estava completamente pronta para ir pro Floresta, Arco-Íris explicou que quase nenhuma das madrinhas estavam prontas. O salão atrasou toda a programação e tinha quem nem tivesse começado a maquiagem ainda. Portanto, também não tinha ninguém disponível para me levar pro Floresta Park. Por 1 segundo eu gelei. Eu sabia que qualquer atraso, automaticamente prejudicaria a luz da cerimônia, e tiraria da gente tempo de festa. Pisquei. Afastei aqueles pensamentos num chacoalhar de cabeça.

- Felícia, você dirige pra me levar. - Eu respondi voltando a respirar. Felícia que já estava fazendo as minhas fotos de Making Off, prontamente assumiu a posição de chofer.


O atraso me embrulhou o estômago, não vou negar. Mas eu decidi conscientemente não deixar aquilo estragar o nosso dia especial. E pra isso, precisei assumir o risco em voz alta. “Se atrasar, atrasou.” eu declarei. E fomos. Cheguei pontualmente às 16h30, antes de boa parte das madrinhas. Com isso, Felícia me levou pra um espaço isolado para tirar algumas fotos. No fundo, acho que ela quis me distrair pois já tinha entendido que o atraso do salão ia afetar muito a cerimônia. Mais do que eu imaginava. E naquele momento eu decidi me divertir. Transbordar a felicidade que eu sentia de estar prestes a casar com o grande amor da minha vida, aquele com quem eu sonhei tantas vezes numa fase mais sombria da minha história. Colocamos uma música, e nos divertimos. Ali ela registrou o momento onde uma das flores de lótus do meu buquê se destacava das outras, mirando em minha direção. Segundo a minha Fada-madrinha, a flor de lótus busca a luz para poder desabrochar. E lá estava eu, brilhando como nunca nem eu achei que fosse capaz de brilhar. Cantei, dancei, parei pra um xixi, fiz a pose de confiança da Amelia Shepherd, cantei Bohemian Rhapsody, e encarei o céu. Sorri. Não havia sinal de chuva. E com 1h de atraso, nos chamaram pra entrar.

De longe, ouvi “Something just like This” do Coldplay tocar. Era a entrada de pais e padrinhos. Nesse momento automaticamente ficou tudo gelado dentro de mim e eu não conseguia ouvir nem minha própria voz. As batidas intensas do meu coração eram ensurdecedoras. Me esforcei pra recuperar os sentidos e me sentir presente, apesar de estar quase que fisicamente nas nuvens. De dentro do carro, ouvi o instrumental do tema da Champions League tocar, era a entrada do Príncipe com uma Rocasogra deslumbrante. Ri comigo mesma ao lembrar que ele tinha escolhido mesmo aquela música e que só por causa dela o orçamento dos músicos foi mais caro do que o programado. Vi então nossos quatro sobrinhos (e o Fera) entrando ao som de “Can you feel the love tonight” de Elton John. Me perguntei se o Príncipe desconfiaria de algo nesse momento, já que para ele, os pequenos só entrariam depois, com as nossas alianças. Ao invés disso, entraram antes de mim: uma Julie muito concentrada na missão de espalhar pétalas amarelas pelo caminho, um Naruto muito (muito mesmo) sorridente com uma plaquinha dizendo “Tio Gui, cuida bem dela e deixa ela dormir”, uma Merida mais tímida do que o esperado com o Fera preocupado em cheirar tudo pelo caminho, e um Simba muito estiloso com outra plaquinha dizendo “E prepara o coração porque ela tá linda. Ass: Daddy”. Pensei nos meus irmãos também que não sabiam que os mais velhos fariam parte da entrada. Bom, se ele desconfiasse de algo, agora já era tarde demais.


Abriram a porta do carro. Era a minha deixa. “Você só não pode se dobrar no chão fazendo bico pra chorar quando ver o noivo” repeti mentalmente pra mim mesma pela milésima vez naquele dia. Peguei o buqueê e uma plaquinha que dizia “Para sempre sua princesa” pra mostrar pro Daddy ao me ver pela primeira vez de noiva. Como o esperado, ele apenas concordou em silêncio com um sorriso e os olhinhos fechando gentilmente, sem ousar descolar o lábios para responder qualquer coisa. A marcha nupcial estava me chamando. Enquanto o Príncipe me esperava no altar. Era agora.


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