CAPÍTULO XIII - 3A TEMPORADA





Depois de concluir a mudança para a primeira Rocarena do Rocasal, eu tinha dois meses de Alemanha para concluir alguns detalhes do Rocasório antes de embarcar de volta pro Brasil para o último mês de preparativos finais. Enquanto eu fechava a lista de convidados confirmados, o site do casal, e detalhes da decoração, o Príncipe cuidava da lua de mel, que era surpresa pra mim. E juntos, a gente decorava o apê, na missão de transformá-lo no nosso lar, com a nossa carinha. O que não foi muito difícil, porque rapidamente a casa de se encheu de fotos, livros e Funkos. Também porque logo na segunda semana de casa nova, conhecemos os vizinhos de porta, Ariel e Xande, ela brasileira, e ele alemão-que-mais-parece-brasileiro. O Match foi tão perfeito que desde o primeiro jantar juntos, não nos desgrudamos mais. Daqueles sussurros que eu digo que Deus vai enviando pra dizer que não estamos sozinhos, que tudo vai dar certo, sabe? Mesmo quando alguns detalhes do casamento começaram a desandar e dar errado sem o menor aviso prévio, ou quando Rudolph precisou de uma cirurgia de emergência, e me tirou à vácuo do eixo, ouvimos o sussurrar do universo. Pra quem gosta de controlar e planejar cada detalhe, foram alguns testes intensos pra me lembrar que, na verdade, não temos controle absoluto das coisas. Mas, ao mesmo tempo, éramos lembrados que não estamos sozinhos e, no fim, as coisas se ajeitam como tem de ser. O que nos fazia agradecer muito. Mas, na prática, era difícil controlar a ansiedade. Ao final daqueles dois meses, eu já estava com o visto regularizado, uma lista das tarefas pendentes do casamento anotadas num papel A3 e a agenda de todos os compromissos fechada, pronta pra embarcar de volta pro Brasil. O Príncipe também estava de malas prontas, mas para uma viagem a trabalho para Chicago. E lá fomos nós, para nossa 14a despedida. Mas dessa vez, não choramos. A ansiedade do último mês antes do Rocasório era espaçosa dentro da gente, não sobrava espaço para outras euforias.


Desembarquei no Brasil 2h antes de Luna, minha irmã que mora em Ibiza e eu não via há pelo menos 4 anos. E lá estava o Daddy, esperando por nós. Naquele momento, eu soube que aquele seria um mês intenso. Não só de preparativos pro casamento, mas de encontros. Pequenos e grandes eventos cheios de afeto. De comemoração. De despedida. De aproveitar cada segundinho como se fosse uma segunda chance de eternizar os momentos juntos. Além disso, a mobilização geral me comovia. Estava todo mundo empenhado em ajudar em tudo. Em realizar aquele nosso sonho do jeitinho que a gente idealizou. Até mesmo Rudolph e Minoine, meus irmãos que, num cenário normal, costumam não deixar passar uma oportunidade sequer de reclamar dos meus pedidos, estavam o tempo todo à disposição. E, mais uma vez, o Príncipe e eu administrávamos tudo à distância. Mas o mês estava tão lotado, que logo no começo comecei a tomar floral para ansiedade e nem deu tempo de pensar em saudade. Nem eu no Brasil, nem ele em Chicago/Alemanha. E o tempo fez questão de passar voando.

Três dias depois de chegar, eu sabia que tinha algo programado com a Runi, mas não sabia o quê. No horário marcado naquela sexta-feira, ela chegou na casa do Daddy acompanhada de B. e Gasperina. Eu chorei quando vi todas elas de boné personalizado com “squad rocasório”. O destino misterioso era um fim de semana na praia com as madrinhas perfeitas para minha primeira despedida de solteira. Voltamos no domingo, segunda embarquei de novo pra praia com Daddy, Luna, Minoine, Naruto e Fera. Enquanto o Príncipe trabalhava, reencontrava amigos e a nossa Chicago querida. Voltei e passei 12h no salão para alcançar o loiro perfeito. Fiz um ensaio boudoir com a Felícia, que era surpresa pro Príncipe, e acabou sendo um dos melhores presentes pra mim mesma.


Entreguei (em nome dos dois) a caixinha de madeira pros Rocasogros, o Daddy e a Arco-Íris. A deles com uma gravata com recado personalizado. A delas com um colar de prata e pedra com a árvore da família. Em cada uma delas chocolatinhos alemães, porta-passaporte, mini Jägermeister e uma cartinha personalizada. Foi a forma que encontramos de agradecê-los por tudo. Por TANTO. Metade da cartinha eu escrevi, a outra metade, o Príncipe. Um gesto muito simples, mas que carregava toda a nossa gratidão pelo privilégio de ter pai e mãe, tão presentes, tão amigos, tão parceiros. Pelo presente que era para nós, dividir aquele dia especial com as 4 pessoas mais importantes das nossas vidas. Rocasogra chorou no primeiro parágrafo e jurou não comer nunca os chocolatinhos pra guardar de recordação. Rocasogro precisou ler 3x pra conseguir absorver tamanha emoção. Daddy terminou de ler dizendo que eu devia voltar a escrever no Blog que, na época, estava abandonado, e no dia seguinte, na mensagem de bom dia que ele manda para todos os contatos do WhatsApp, ele compartilhou a foto da carta. E a Arco-Íris, achando que não ia ganhar uma, fez bico logo quando viu a caixinha. E passamos aquele dia pela primeira vez em muito anos com todos os cinco filhos debaixo das asas da mãe de novo. E de lá fui para minha segunda despedida de solteira, dessa vez, comandada pelas Cidas. Mais uma vez eu também não sabia o destino, quando cheguei na casa da Greta, que estava com a decoração fálica completa, elas me disseram que o plano era ir pra um bar, mas com a chuva seria melhor ficar no apê mesmo. Eu não me importei, pois sabia que qualquer programa com aquele bonde seria memorável. Mas próximo das 22h, inspiradas pelo Príncipe, me vendaram e me colocaram numa van (mas tudo com consentimento, tá? rs) e fomos parar numa balada em São Paulo, elas de tiarinha de diabinho, eu com véu de noiva, todas buzinando na orelha do coitado do motorista. Que noite!


Voltei e fomos acertar o terno dos pais dos noivos, enquanto nem Rocasogra, nem Arco-Íris, nem nenhum dos demais padrinhos tinham a roupa acertada e eu tentava não surtar. Os chinelinhos chegaram, montei a caixinha do kit banheiro, fiz o primeiro teste do vestido pós ajustes e, claro, fui comer a melhor pizza da cidade com o Daddy. E quando a sexta-feira santa chegou, fui com as famílias para o tradicional almoço no City Bar pra comer o famoso bacalhau à Nazaré. E ali foi o esquenta pro meu chá de lingerie que já estava sendo montado na casa do Daddy enquanto isso. Depois da minha festa tropical do ano anterior, aquela era a decoração de festa mais linda que eu tinha ganhado da Runi. A menina leva jeito!!! Com tudo lindo e todas as mulheres (e a Greta) posicionadas, começamos a brincadeira. O roteiro não foi muito bem calculado pelas organizadoras, que começaram pela parte onde eu tinha de adivinhar o tipo, a cor e de quem eu tinha ganhado a lingerie, do contrário, tomava shot de vodca. Lembrando que a cerveja do almoço já estava no sangue. Com cerca de 20 convidadas, no 15° presente eu mal conseguia dizer meu nome, que dirá acertar as perguntas de casal que o Príncipe respondia num vídeo. Os micos variaram entre, passar trote pro Rocasogro, declamar a letra de Boladona, imitar um T-Rex, performar Veneno de Anitta e pedir perdão pra minha sogra por levar o filho dela pra longe. Tirando a vergonha que passei em todos eles, e o fato de ter pouquíssimos registros desse dia, foi um dia de muito afeto e muuuuuuuita risada. Mas em poucas horas eu precisei ser carregada até a cama, e eu entendi que era tudo uma grande vingança da Lulu que, 3 anos antes, naquele mesmo local, teve a própria porrada de shots pré casamento organizada por mim. Enquanto Arco-Íris entrava em pânico querendo me dar glicose na veia, meu irmão, Minoine, tentava acalmá-la berrando: “TA LOKA MÃE, ELA SÓ TÁ BÊBADA” e eu pedia pelo Guilherme. Insisti tanto que ligaram pra ele. Elas me contaram que eu dizia: “Eu preciso de você amor vem aqui por favor” enquanto rodava mole na cama. A resposta dele foi: “Olha pra trás amor, tô aqui”. E apaguei. 


Quando o domingo de Páscoa chegou, entreguei, enfim, as últimas caixinhas de madeira que faltavam: as dos 4 sobrinhos. Para os mais novos, Julie e Naruto, entreguei logo antes de começar a caça aos ovos de Páscoa em família. Para os mais velhos, Mérida e Simba, entreguei em segredo dos meus irmãos, que não sabiam que eles fariam parte da cerimônia. Merida levando o Fera, e Simba levando uma plaquinha. O que já explica que as surpresas do grande dia não seriam apenas pro Príncipe.

- Filha, você já acertou tudo daquela surpresa lá? - Arco-Íris me perguntava num cochicho.

- Quase, mamis. Deixei para as últimas semanas os detalhes finais mesmo pra evitar ao máximo que o Rocasogro descubra, e conte tudo antes da hora. - eu expliquei. E aquela era uma das grandes surpresas que eu estava preparando há um ano.


Arco-Íris era minha grande cúmplice desde o momento em que revelei meu plano. E estava tão ansiosa quanto eu para a grande revelação. Ela sabia que aquela era a grande oportunidade que eu tinha para “revidar” os grandes gestos românticos que o Príncipe preparava pra mim. Como eu cuidei dos detalhes do casamento mais ativamente, já que ele estava na Alemanha, era o plano perfeito. Ajudou também que ele confiou 100% em mim e nas minhas escolhas e tratativas com os fornecedores. Entre as poucas premissas que ele tinha, era que os avós precisavam estar nos bancos da frente, e que era mais seguro não tocar a música “Ave Maria” durante a cerimônia, pois era a música que representava a saudosa Vó Amália, que assistiria a cerimônia do céu, e talvez a emoção fosse demais pra ele. De resto, a gente só batia o martelo juntos, mas todos os detalhes eu toquei sozinha. O que facilitou muito para planejar toda a surpresa. E duas semanas antes do nosso 04 de Maio, eu concluí os últimos detalhes com os demais envolvidos. Cheguei a repensar se seguia em frente, ponderando que o noivo poderia infartar no altar, mas segui firme.

Ainda naquela semana, fui levada para a 3a despedida de solteira, agora com as mulheres da família, num barzinho que frequentei ativamente na época da faculdade. Nem eu aguentava mais os shots, mas eles continuavam sendo servidos. Do outro lado do oceano, o Príncipe embarcou para sua primeira despedida de solteiro com os amigos, num barzinho também, só que na Bélgica, mais conhecido como Delirium Bar. Coisa pouca. Em sintonia, os dois usavam uma faixa de “NOIVA DO ANO” e brindavam shot atrás de shot, como se não houvesse amanhã. Mesmo desejando muito que o grande dia chegasse logo e que a gente sobrevivesse até a lua de mel. Em seguida, fiz o teste de cabelo e maquiagem, e a última prova do vestido. E apesar de estar impecável, de vestido, maquiagem, cabelo, acessório e véu, a ficha não parecia cair. Tinha muita coisa acontecendo ainda. Naquele fim de semana, acordei cedo para o casamento no civil da Bride e Snoopy, que seriam nossos padrinhos no fim de semana seguinte, e do almoço fui direto para o casamento de Esmeralda, outra amiga querida. Mas fui embora cedo da festa porque no dia seguinte, finalmente, o Príncipe chegava no Brasil.

Tivemos uma semana de reencontro antes do nosso grande dia. Uma semana para ajustar o terno, comprar o sapato dele e encontrar um bendito colete que desse certo. Fechar a noite de núpcias no hotel. Conhecer o bebê recém-nascido de Chico Bento e Rosinha. Conhecer o quartinho para a chegada do novo sobrinho, filho do Topã e Jaquelinda, que estava para chegar e a gente só rezava pra ele não nascer no meio da pista de dança. E, enfim, levar todos os itens para a cerimonial e repassar com ela todos os detalhes da cerimônia (inclusive os detalhes das surpresas). No meio disso tudo, ele teve uma despedida de solteiro diferente, que tinha Rocasogro, o Daddy e meus irmãos como convidados, rs. Mas terminou a noite com o Rocasogro tentando chamar o uber pelo aplicativo do banco. E eu ainda tive a última despedida (gente, quem que aguenta?), só eu e meus 4 irmãos, num barzinho do bairro. Véuzinho de noiva na cabeça e muita risada relembrando uma vida inteira juntos.

Na sexta-feira antes do grande dia, Príncipe e eu dormiríamos separados. Fui levá-lo nos Rocasogros, onde jantaríamos com eles, Topã e Jaquelinda. 

- É amanhã hein, filha - Rocasogro comentou já com olhos marejados. - Sabe que eu vi um vídeo muito emocionante…

- Onde a noiva entra com o pai, e o pai puxa o padrastro da filha pra entrar com ela também? - eu completei. Ele riu. Ele fazia esse mesmo comentário desde que anunciamos o casamento, na esperança que o Daddy fizesse o mesmo com ele. Mas eu era boa em cortar as asinhas dele rapidinho. E a gente se divertia.

- Agora que já comemos, queríamos mostrar algo pra vocês dois - Jaquelinda começou.

- Ai, eu vou chorar? - perguntei.

- Com certeza. - todos eles responderam.

E na TV começou a rodar um vídeo com toda a nossa família mandando recados especiais para o nosso 04 de Maio. As pessoas que mais amamos no mundo, que vimos se envolverem de corpo e alma com nosso sonho, pela nossa felicidade, reunidos ali dizendo tantas coisas com carinho, amor e uma pitada da saudade que já se agarrava a todos nós. Que privilégio o nosso. Viver na prática o que Raul profetizou: Sonho que se sonha junto, é realidade.

Naquela noite nos despedimos, não com um beijo nem um abraço longo, mas com uma troca de olhar em silêncio. O brilho daqueles olhinhos azul-dinamarquês-com-amarelo-ouro-degradê refletia nos meus de jabuticaba. Em silêncio as nossas almas se entrelaçavam e as batidas dos nossos corações sincronizavam numa só frequência. Não restava nada mais a ser dito. Chegou o nosso grande dia.

- Te espero no altar.

- Eu vou ser a de branco.

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