CAPITULO XII - 3A TEMPORADA



Naquela segunda semana de 2019, pela primeira vez, era eu que me despediria de tudo pra ir para minha nova casa. O que significa que se eu pudesse me agarrar à minha família até o momento de atravessar o bendito portal de embarque, eu o faria. E com isso, a caravana para nos levar até o aeroporto foi a maior de todos os tempos. No carro do Daddy fomos eu, Príncipe e Tinker, comendo ainda pela última vez a farofa com ovo frito e torresmo da minha mãe. No carro dos Rocasogros foram eles, Arco-íris, Tawanda e Merida. E como sempre, até ali, nada parecia muito diferente. A gente ria descontraído como se uma despedida avassaladora não estivesse na mesma pista, se aproximando rapidamente de nós. Quando chegamos em Guarulhos, ainda algumas horas antes do embarque, Rudolph me chamou no Facetime para se despedir.

- Queríamos ter ido, mas vou ter uma reunião no trabalho.- Ele disse enquanto passava o telefone pra uma Julie com cara de safada me mandar um beijo. E desligamos. 

    Aquelas 9 pessoas (+4 malas e 1 Sullivan de pelúcia) tinham se amontoado em duas mesinhas em frente a Starbucks para aproveitar os últimos momentos juntos o máximo que fosse possível. Aos poucos foi caindo a ficha. A gente papeava e ria enquanto tentava não deixar aquele nó na garganta transbordar. Foi quando ouvi ao longe uma voz fininha gritar “Tia Rayssa!!!”. E com uma visão afogada enxerguei Rudolph, Hermine e a Julie correndo na nossa direção. A essa altura, eu culpo o Guilherme, por ter implantado o DNA de surpresas na nossa família tão meticulosamente. Não há mais paz desde que essa tradição se instalou. E eu amo, claro. 

Pegos pelo embalo da choradeira que eu liberei, decidimos fazer a temida passagem pelo bendito portal. Aquele momento tenso e silencioso onde a gente precisa se separar, mas ninguém quer começar os abraços de despedida, nem sabe por onde. Rocasogro começa a se afastar lentamente em silêncio para poder ficar por último. Rocasogra puxa logo o Príncipe pro mata leão para poder abraçar duas vezes. Daddy, com os bracinhos cruzados, também se afasta em silêncio enquanto olha pra cima, numa estratégia ingênua de conter as lágrimas. A gente teve o apoio da nossa família desde o primeiro anúncio de que íamos nos casar. Apoio incondicional que só o amor do tipo incondicional pode oferecer. É por esse amor incondicional que tivemos tanta força nas etapas que vivemos no último ano. Mas também por esse mesmo amor, era muito, muito, muito difícil soltar daquele abraço. De cada um deles. Porque é o tipo de abraço que fala, uma vez que nenhuma das partes consegue elaborar frase alguma. Tudo o que precisa ser dito fica naquela conexão de almas, no alinhar dos batimentos cardíacos, no beijo no cangote, e no carinho que a mão faz nas costas como quem diz: “vai dar tudo certo, estaremos sempre juntos”. Merida me fazia pensar em possibilidades mirabolantes de enfiá-la na mala comigo. Tawanda dava tudo de si pra não chorar (tanto). Tinker realinhava meu chakras só pelo olhar e as mãozinhas de fada que, sem me deixar perceber, fazia um reiki em mim ali mesmo. Rocasogro talvez tenha se abalado mais por se despedir de mim do que do próprio filho, e talvez eu tenha saído com uma costela quebrada daquele abraço. Rocasogra mal conseguia controlar a respiração, mas o “minha filha” que ela soltava entre soluços traduzia tudo. Quando chegou a vez de me despedir da minha mãezinha, minha pequenina Arco-Íris do cabelo vermelho, ela me entregou o Sullivan de pelúcia com quem ficou abraçada o tempo todo. Eu o empurrei de volta pro peito dela. 

- Fica. Para abraça-lo como se fosse eu. - eu disse -Fica com isso também- completei entregando um envelopinho amarelo com uma carta que eu tinha escrito uns dias atrás. E ela chorou fazendo o bico que deu origem ao meu. E eu me juntei a ela em mais um abraço infinito.


E enquanto via o Príncipe esmagado pela segunda vez nos braços da Rocasogra, criei coragem pra ir em direção ao Daddy. Ele, obrigado a me olhar nos olhos, segurou minhas mãos vencido pelas lágrimas. Mas ainda num silêncio absoluto, de nem descolar os lábios um do outro. Nada do que a gente dividia naquela sintonia poderia ser traduzido em meras palavras. Então desmanchei naquele colo. Naquele mundo todo que cabia nos braços do meu pai. Meu paizinho. Meu parceiro. Meu amigo. Meu guia e protetor. O Daddy. Eu podia sentir minha alma fundida com a dele, o que me fez pensar em como seria possível me separar daquilo. E quando nos soltamos, ele ainda não disse nada, mas levou a mão direita no lado esquerdo do peito e bateu levemente enquanto sorria e fechava os olhinhos inundados. Ali eu entendi. De almas fundidas, não haveria separação. Como ele sempre me ensinou. Entreguei o envelopinho amarelo dele e consegui desenroscar os dedinhos dos dele. Enfim aceitei o convite do Príncipe pra seguir de mãos dadas, e fomos.

11 horas e um trem depois, desembarcamos na estação central de Stuttgart com uma recepção especial pra mim: neve caindo do céu. É verdade que o Príncipe já tinha me apresentado a neve em 2017, lá no topo da montanha mais alta da Alemanha. Mas eu nunca tinha visto a neve cair. O que é uma experiência completamente diferente. Porque parece que vem junto aquela musiquinha Disney embalando a comédia romântica dos filmes de Natal da sessão da tarde. Apesar de xingar o Guilherme que me fez tirar a toca e a luva da mala de mão porque “não vai precisar”, eu já desci do trem com a língua pra fora, atrapalhando todo o fluxo das pessoas que tentavam seguir sua rotina e abandonando o Príncipe com 7 malas para carregar sozinho. Era minha nova cidade dizendo “bem vinda” e eu já me sentia derretida de amores. Como se estivesse fazendo a coisa certa.

De lá fomos para o apartamento de pé direito baixo, no 4° andar do prédio na Olgaek. 72 degraus carregando 7 malas depois, chegamos. Mas aquele apartamento, definitivamente não me vestia como casa. E quando tomamos a decisão que eu me mudaria para a Alemanha 3 meses antes, adiantamos a correria de procurar um apartamento para morar. Que não é das tarefas mais simples. O aluguel costuma ser bem ardido e cada uma das opções que surgiam, tinha algo de muito estranho. Minha grande premissa era que a privada ficasse no mesmo banheiro do chuveiro, não separado, como é em grande parte das casas alemãs. Também gostaria que não fosse um apartamento muito antigo, tipo aquele em que estávamos, e como 90% das moradias na Alemanha são. Ainda, um bônus seria ter uma cozinha americana, que sempre foi um desejo meu. Claramente uma missão impossível. E depois de eu não ter gostado de nenhuma das opções que ele visitou enquanto eu ainda estava no Brasil, fomos abençoados com uma solução temporária. Ou pelo menos foi o que ele me disse. A Empresa dele tinha um prédio na cidade, com apartamentos que podiam ser alugados por funcionários que passariam um tempo na cidade a trabalho, ou até encontrarem um apartamento oficial, uma espécie de AIRBNB da Empresa, ele disse. Mas, ainda existia a possibilidade de ficar até dois anos no loca, caso a gente gostasse do apartamento. Ele me mandou as fotos, e eu achei ok para o cenário temporário, o que nos daria tempo para visitar novas opções juntos. E nós iríamos pra lá dia 01.02. Portanto, com um mês para a mudança, desde que cheguei, começamos a empacotar as coisas aos poucos e eu nem desfiz minhas malas direito. Mas, enquanto isso, eu montava o site do #rocasório, decidíamos a paleta de cores da decoração e fazíamos muitos programas de casais normais que moram juntos. Com o bônus das surpresas que ele programava pra gente.


Como ele saía pra trabalhar todo dia, e eu ainda estava tentando me encaixar naquele fuso horário, eu acordava com o café da manhã pronto, normalmente com o clássico bilhetinho no papel toalha. No dia 18 daquele mês o bilhetinho dizia: “Você tem compromisso comigo hoje às 18h. Feliz dia 18. Te amo”. A gente ainda comemorava o dia 18 como nosso dia oficial, desde nosso primeiro beijo ao nos reencontrar em 2014. Mas eu estava tão focada em terminar de escrever um site todo em português e depois traduzir pro inglês, que nem passou pela minha cabeça preparar nada especial. E acho que esse foi o equilíbrio importante que fomos encontrando. Eu focada nos detalhes do casamento, tentando me adaptar ao frio e ao novo País. Ele trabalhando, cuidando das burocracias da mudança e eventualmente, preparando uma surpresinha pra gente. Às 18h daquele dia, eu estava terminando de me arrumar porque não existe uma chavinha que me fizesse virar pontual só porque mudei para Alemanha. Mas em tempo, pegamos o metrô e desembarcamos junto com um grande número de idosos na arena Mercedes Benz. Na entrada do evento eu descobri que estávamos indo assistir a um show do André Rieu. E eu entendo se ninguém aqui reconhecer o nome. Nós devíamos ser o único casal de 26 anos naquela plateia grisalha. Mas eu amo que a gente tem muitos gostos desse tipo parecidos. E música clássica assim é uma delas. Foi um show inesquecível e muito divertido com o mago do violino. Com certeza, um dos grandes privilégios que tive na vida, foi presenciar o que esse artista consegue criar num palco.

Bom, entre outros novos programas de casais normais, fizemos comprinhas no centro, saímos pra jantar fora, tomar uns drinks, encontrar alguns amigos dele, ou só ficar em casa mesmo tomando cerveja, com comida congelada e vendo Netflix. Sem erro. O passeio mais arriscado foi me levar pela primeira vez na IKEA. Foi muito difícil não levar a loja inteira na sacola. Primeiro porque não tínhamos dinheiro. Segundo porque a gente não tinha mudado ainda, não sabíamos exatamente o que precisaríamos comprar ou não. Mas o dia 01.02 se aproximava e quase todas as caixas estavam fechadas e prontas para a mudança.

Amanheceu então, o dia 29.01. Um frio congelante e eu numa crise intensa de cólica. Ele tinha saído cedo pra trabalhar, e eu sabia que ele tinha marcado um jantar com um amigo do trabalho que ele queria muito me apresentar. Me permiti então não sair das cobertas até as 12h. Quando levantei, meu almoço estava pronto, porque ele tinha passado em casa para almoçar. E também acompanhava o bilhetinho no papel toalha que dizia: “Feliz dia 29. Te amo, baby”. Eu sabia que o “baby” era emprestado da série This Is Us que a gente tinha começado a assistir juntos. Mas dia 29? Não sabia a que se referia. Mas, se tratando do Guilherme, onde qualquer dia é um dia feliz onde ele está “living the dream”, não me apeguei a esse detalhe. Pensei que ele estava querendo deixar meu dia mais leve, sabendo da minha cólica. Que inclusive me esmagava por dentro e também não me permitia ficar perdendo tempo tentando desvendar bilhetes misteriosos. Comi e voltei pra cama. 

Às 14h ele mandou mensagem perguntando se o jantar poderia adiantar um pouco, para as 17h, pois o amigo dele não poderia ficar muito tempo. Entendi que era a hora de levantar e me trocar. 

    - Amor, vai acabar mais cedo aqui- ele mandou mensagem de novo às 15h.- Eu fiquei puta da vida.

Minha vontade já era desmarcar aquela papagaiada. Correr pra me arrumar no humor que habitava em mim, junto com uma cólica violenta, não foi uma tarefa feliz. Mas, por um milagre, quando ele chegou, eu estava pronta. Só faltava o rímel. E os acessórios. E o sapato. E pegar a bolsa. E o batom. E o perfume. Pronto! Pra amansar um pouco a fera dentro de mim, ele disse que o jantar seria no Vapiano, meu restaurante preferido no mundo, desde Chicago. Barriga até sorriu. 

- Sabe o que eu tava pensando? - ele começou enquanto esperávamos o metrô. - Dá uma preguiça pensar que depois de mudar pro “airbnb” da Empresa, a gente vai ter que mudar de novo, eventualmente, né?

- Nossa… Melhor não pensar, senão a gente desiste - respondi já exausta só de imaginar.

- Capaz da gente ficar logo os 2 anos lá, só pra não ter trabalho- ele riu.

- Não… Esse não é do jeitinho que a gente quer né?

- Você viu que é difícil achar do jeitinho que a gente quer, né? - e ele tinha razão. A dinâmica de alugar um apartamento em Stuttgart era um pouco agressiva. Além de ser sempre muito concorrido, muitas pessoas podiam visitar o local ao mesmo tempo, mas você tinha que preencher uma série de requisitos antes de conseguir fechar um contrato. Podia acontecer, inclusive, do locatário gostar de você e você não ser escolhido. Como a procura era sempre muito grande, ele podia escolher para quem oferecer o contrato. Ou às vezes você recebia um prazo de dias (ou horas) para confirmar se você fecharia o contrato ou não, do contrário, perderia a vez. Meio doido.

- Ah, não é possível que a gente não vá achar um lugar legal…- eu concluí.


Depois de descer do metrô e andar uns 500m ele pediu que a gente parasse. Tirou uma venda preta do bolso. Meu coração já começou a acelerar.

- Guilherme que isso?

- Coloca a venda e não faça perguntas.

E andamos mais alguns metros com ele guiando meus passos. Paramos de novo e ouvi ele abrir uma porta. Subi um degrau. Ouvi a porta fechando. Ele rindo. Subimos um lance de escada. Um elevador. Entramos. Deu nem tempo, o elevador parou. Abriu. Saímos. Viramos à direita. Ouvi ele abrindo outra porta. Mais alguns passos.

- Guilherme o que tá acontecendo? 

- Calma, tá quase...


Eu sentia aquela estranha sensação de só conseguir ouvir as batidas pesadas do coração, como se tivesse uma pressão no ouvido, e eu só fosse capaz de escutar o barulho de dentro do corpo. Abafado. Com uma Sibéria inteira no estômago, uma leve dificuldade de respirar e sem ter ideia do que poderia ser tudo aquilo. Ouvi um champanhe abrindo. Duas taças sendo servidas. Enquanto esperava parada em um lugar ainda desconhecido. Ed Sheeran começou a tocar. A nossa música. Ele me deu uma taça. 

- Saúde - ele disse brindando a taça dele na minha - Toma um golinho - ele complementou

- Eu não olhei no olho! - respondi meio atordoada, sem perceber a irrelevância de uma superstição naquele momento.

E com a voz embargada ele finalmente revelou o grande mistério:

- Tá preparada pra sua nova casa?

Tirei a venda.

E a surpresa foi aumentando exponencialmente conforme eu olhava ao redor. O nosso cantinho. Do jeitinho que a gente queria. Novinho e moderno. Com cozinha americana. E nossa TV já instalada no painel da sala. Bico formado. E a gente se abraçou chorando junto por aquele capítulo tão especial da nossa história.


- Não existe um “AIRBNB” da Empresa. Um colega do trabalho está voltando pro Brasil e me ofereceu o apartamento, com quase tudo dentro.Tô vendo que já temos até móveis!

- Não vamos precisar mudar de novo tão cedo...

- Não to acreditando que você fez tudo isso!

- Quando visitei pela primeira vez, eu tive certeza que você ia gostar e fiz de tudo pra conseguir. A briga foi boa.

- E como a nossa TV já está aqui??

- Eu trouxe ela hoje de manhã enquanto você dormia. Estou de folga hoje. Carreguei ela de metrô até aqui e meu colega me ajudou a instalar.

- Guilherme do céu… E eu não acordei?

- Sem novidades até aí, né?

- E todas essas caixas com as nossas coisas?

- Meu colega estava de carro, e voltou comigo lá no apartamento pra buscar algumas caixas. Foi a hora que fiz seu almoço.

- Gente… Pra quê tudo isso amor, eu podia ter ajudado…

- Não teria graça, né? - Ele brincou - Rá, quando você decidiu mudar de País por nós, começar uma vida juntos, eu me prometi que te faria a mulher mais feliz do mundo neste País. Sei que não foi fácil pra você deixar sua vida no Brasil. O mínimo que eu posso fazer é te dar o mundo que você merece. - E como em todas as vezes que ele me pega pra fazer uma declaração dessas, dizia cada palavra com os olhinhos azuis-dinamarqueses-com-amarelo-ouro-degradê me fitando intensamente nos olhos impossibilitando que eu formule qualquer resposta. - Em outras palavras… você merece.


E regados a lágrimas, que eram não só de felicidade, mas também de gratidão por ter o privilégio de desfrutar de um amor tão raro, dançamos pela primeira vez na cozinha do nosso primeiro lar.



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