3A TEMPORADA - CAPÍTULO X
Naquele 1 de Setembro de 2018, a chegada adiantada dele foi surpresa pra mim, e pros Rocasogros também. Lulu&Otávio foram os cúmplices que o trouxeram de Guarulhos até Campinas. Entregaram ele primeiro pro Rocasogro, na manhã do seu aniversário (sim, o aniversário dele é um dia antes do meu) quando o encontraram por acaso fazendo a caminhada matinal com o Dragão de komodo (o cachorro). Aproveitando que a Rocasogra estava fora, o Príncipe foi esperar por ela lá na sala de casa, onde ela conseguiu berrar mais alto que eu. Apesar do leve receio que eu tenho de um dia infartar alguém com essas surpresas, eu acho cada uma delas muito necessária. Pra compensar a despedida, derrubar a dor e o vazio que ficam quando a gente se separa no aeroporto. É uma adrenalina tão intensa no reencontro surpresa, que não consigo decidir se é uma aposta mais deliciosa ou perigosa. Para nosso alívio, todo mundo sobreviveu, e passamos aquele final de semana com um parabéns pro Rocasogro em casa mesmo no sábado, e no domingo um almoço em família com parabéns pra mim na casa do Daddy seguido de um barzinho à noite com os amigos. Sem muito alvoroço. O que não combinava muito comigo. Principalmente quando se tratava do meu aniversário. Ou do Guilherme com duas semanas no Brasil.
Como eu achei que ele chegaria quase 4 dias depois, peguei férias no trabalho só a partir da quarta-feira daquela semana. E tentamos então tratar aquele período sem muito estardalhaço. Não fizemos grandes programações. Nem pro meu aniversário, nem pro casamento civil. Encaramos mais como uma etapa burocrática mesmo, e não demos atenção aos detalhes nem ao que de fato aquilo significava. Burocracia ou não, em poucos dias estaríamos oficialmente casados. No meu RG, meu nome seria oficialmente diferente do que fora nos últimos 26 anos. Mas a gente estava tão focado no 04 de Maio do ano seguinte, que o 06 de Setembro de 2018 foi subestimado, confesso. A princípio, não convidamos ninguém além das famílias. E ainda convidamos sem a pressão de comparecerem. Afinal, era uma quinta-feira às 10h da manhã, véspera de feriado. Não esperávamos que ninguém pegasse folga, por exemplo. O plano era muito, muito simples: eu e Príncipe, nossos pais, as madrinhas oficiais (Tia Xô e Tinker) e os avós do príncipe. 11 pessoas estariam para a “cerimônia” do cartório e depois almoçaríamos juntos num restaurante ali perto mesmo, que era bem a nossa cara, e brindaríamos com cervejinha e comida mineira. Os dois últimos meses tinham sido bastante exaustivos para nós dois. Depois da avalanche do Daddy, a Copa e o momento de incertezas, muitas briguinhas bestas voltaram a assombrar aquele noivado à distância. A gente estava exausto. Exaustos da distância, da saudade, da correria, das inseguranças e da sensação de estar segurando tudo por um fio. Meu maior desejo para aquela semana era assinar o papel, fugir pra nossa mini lua de mel que ganhamos das madrinhas, convidar oficialmente os padrinhos e ter um tempinho pra só ficar junto, ignorando por alguns dias o caos ao nosso redor. Fim. Essa era a minha meta daquela semana.
Mas tenho dois compromissos pra gente, tá? - ele avisou logo quando chegou.
O que você inventou agora?
Dia 05 a partir das 18h, e dia 09 a partir das 9h.
Dia 05 ok, mas dia 09 às 9h? Dia 08 temos o churrasco de niver em casa poxa...
Se vira. - Ele concluiu.
Eu sabia que ele estava preparando algo. Mas repito: meu plano para aquela semana era não ter que fazer planos como eu sempre faço. Então optei em apenas aceitar e ver onde ia dar. Hoje, olhando pra trás, fico dividida entre o desejo de ter me preparado melhor (porque na vida eu sou a pessoa que quer planejar cada segundinho com tabela no excel e tudo), e o contentamento de não ter me descabelado preparando mil coisas e ter sido surpreendida com o resultado. Pois bem, eu percebi que a coisa teria uma proporção diferente quando comecei a avisar as pessoas.
B, quinta dia 06 é o casório no civil, doido né?
MEU PAI!! Já sei até o look que vou!!
Runi,quinta dia 06 é o casório no civil, doido né?
SOCORRO! Vou pedir folga, pera!
Gasperina, quinta dia 06 é o casório no civil, doido né?
AI MEU DEUZINHO! Vou trocar minha escala no trabalho!
Bride, quinta dia 06 é o casório no civil, doido né?
AIIII NÃO VEJO A HORA!! Peguei folga já!
Minoine, quinta dia 06 é o casório no civil, doido né?
Sim, meu patrão já liberou meu dia.
Guilherme, as pessoas estão pegando folga no trabalho pra ir no casamento. E agora?
Sim, o Woody também já confirmou que vai.
Acho que precisaremos de uma reserva maior no restaurante.
E dois dias antes do casamento civil, nos encontramos finalizando as caixinhas-convite dos padrinhos, reservando mesa para 35 pessoas no restaurante, buscando a aliança, comprando champagne e montando tag oficial pros bem-casados que ganhamos de presente da Boss. Quando dia 05 às 18h chegou, eu não sabia que ficaria tão agradecida com a surpresa que o Príncipe tinha preparado: uma noite no hotel.
Achei que a gente merecia passar nossa última noite de solteiros oficiais de um jeito diferente - ele declarou quando chegamos na entrada do hotel.
Incontáveis surpresas acumuladas àquela altura e, como se fosse a primeira, ele me deixava sem palavras.
Você merece. - ele concluía pra me nocautear de vez.
Naquela noite a gente se divertiu muito, com cerveja e fandangos no quarto, mas também se arrumou pra um especial. Acabamos num lugar caro demais pro nosso gosto, daqueles que superfaturam um cardápio sem nada demais só pelo status burguês do ponto, mas nada abalou o clima de expectativa que nos preenchia naquela noite. Talvez fosse a saudade estocada por causa do relacionamento à distância, mas a gente se sentia de volta em 18 de outubro de 2014, o dia em que ele diz que eu avancei para o primeiro beijo do nosso reencontro. A adrenalina de estarmos finalmente juntos, com um futuro inteiro pela frente, preencheu aquele quarto de hotel. Uma noite inteira pra rir alto, fazer planos e se amar intensamente. Eu sei que não parece a tranquilidade que eu desejava para aquele momento, mas rendida àquele encontro, perdida naquele abraço, incendiada por aquele amor, era toda a paz que meu coração precisava pra lembrar, mais uma vez, que eu tinha feito a escolha certa. E, finalmente, a manhã em que daríamos mais um passo para a construção daquele sonho nasceu.
Tomamos café da manhã no hotel, ainda um pouco grogue, às 6h da manhã. Às 7h eu precisava estar na casa do Daddy, pronta para a Tamara (minha amiga-maquiadora oficial) me arrumar. Afinal, se agora até bem casado tinha, eu precisava da produção completa. E tive. Às 9h eu estava toda montada. De vestido e colar perfeitos que Príncipe me deu de presente. Cabelo, maquiagem e unhas feitas. O cartório era do lado da casa do Daddy então eu até podia esperar mais um tempinho, mas a ansiedade era maior pra ir oficializar no papel aquilo que já era oficial no coração.
Era emocionante e engraçado ao mesmo tempo, ver quase 40 pessoas reunidas para nos ver assinar um papel. Mas um sentimento superava todos os outros: a gratidão de ver que a gente estava cercado das pessoas certas. Família e amigos que acompanharam nossa história desde 2007, que celebraram e nos deram suporte em diversos capítulos, e que garantiram um lugar na primeira fileira pra nos ver um no olhinho do outro e dizer sim pra vida toda.
Vamos entrar, futura Sra. Rocamora?
Vamos, futuro Sr. Olivão.
Quem está com as alianças? - alguém perguntou
PUTA QUE PARIU AS ALIANÇAS.- gritei.
Runi, corre na casa do Daddy, esqueci as alianças no meu quarto.
E enquanto o Príncipe ria e pedia para a Juíza esperar alguns minutinhos já que a noiva tinha esquecido as alianças, eu guiava a Runi pelo telefone. 5 minutos e nada. Precisei pegar o carro do Daddy e voar até em casa pra encontrar a caixinha preta caída atrás da cama deixando um verdadeiro furacão no quarto ao sair.
Muitas piadas e 15 minutos depois, estávamos a postos em frente à Juíza: Eu, meu príncipe, as benditas alianças e 35 convidados. Depois daquela euforia, achei que passaria ilesa sem estragar a maquiagem. Mas a Juíza inventou de dizer: “...e conforme a lei eu vos declaro casados!”. Quem que aguenta? Mas dessa vez eu chorei contida, juro. Trocamos as alianças, lágrimas e deixamos os votos pro 04deMaio19. Além da gente não ter se preparado para ler votos enquanto achava que ia ser uma simples burocracia, eles eram dispensáveis. Uma troca de olhar dizia tudo que o outro precisava ouvir. As madrinhas e os avós assinaram como testemunhas enquanto o Vô cochichava pra mim: “Casou mesmo hein, fia?”. Saí de lá oficialmente Rayssa Olivão Rocamora mais realizada do que achei que poderia ficar. Fomos todos para o restaurante onde mais convidados chegaram e brindamos com champagne simbolicamente. A celebração mesmo foi na base do litrão com tutu de feijão, numa mesa recheada de amor. Do nosso jeitinho. E, sem planejar, foi perfeito.
De lá partimos para nossa mini lua de mel numa pousada em Monte Alegre do Sul. Um chalezinho no alto da montanha, com comidinha caseira no fogão a lenha, e uma vista de silenciar a alma. Pra coroar aquele momento, a paz de sermos apenas nós que eu tanto desejei. Na manhã seguinte, ele teve coragem pra me acordar às 6h pra assistirmos o nascer do sol. E apesar do meu mau humor matinal, lembro perfeitamente da sensação de desejar que aquele momento não terminasse nunca. A gente assistiu num silêncio gritante a perfeição de Deus e a natureza e, se essa história fosse mesmo um filme, seria a cena perfeita pra aparecer a palavra “FIM” na tela. A cena de um horizonte nascendo gigante e cheio de promessas à nossa frente, parece um final feliz perfeito pra mim. Mas como essa história não é um filme (ainda), depois de um café da manhã da fazenda delicioso, pegamos a estrada de volta pra Campinas pra viver o que vem depois da cena final dos filmes: a vida real.
No dia seguinte fizemos um tradicional churrasco na casa do Daddy pra comemorar meus 26 anos. E enfim, chegou o dia 09 de Setembro às 9h. Pra acordar de ressaca e ter que me arrumar pra algo ainda não desvendado. Durante o trajeto em que eu tentava me manter acordada, percebi que ele fazia o mesmo caminho até o Floresta Park, onde seria o Rocasório dali uns meses. “Vai me levar pra uma café da manhã na fazenda, será?” pensei.
Vamos tomar um café da manhã na fazenda com calma, pra imaginar como vai ser daqui uns meses!- Ele declarou quando passou pela portaria do Floresta.
Eu amei a ideia, juro. Mas não posso negar que fiquei pensando porque isso tinha que ser justo aquele dia, naquele horário, enquanto eu ainda tinha mais álcool do que oxigênio no sangue. Mas enfim, fome eu tinha. Quando sentamos ele mostrou o que tinha dentro da malinha que ele trouxera junto: um vestido de girassol.
Achei que a gente podia aproveitar o cenário pra fazer umas fotos bonitas pra usar no casamento - ele explicou.
A gente não tinha fechado o ensaio pré-wedding com a Felícia, porque não cabia no nosso orçamento. Mas principalmente porque eu sabia que ele ficaria muuuuuito envergonhado de fazer aquele ensaio, então abri mão sem sofrer. E aquele foi o jeitinho dele de tentar me proporcionar tudo o que eu tinha direito. Pai eterno como eu amava aqueles olhinhos azuis-dinamarqueses-com-amarelo-ouro-degradê brilhando pra mim toda vez que tentava me agradar. Mas não deu nem tempo de raciocinar, virei pra trás e vi Felícia com a mochila lotada dos equipamentos, pronta pra clicar um pré-wedding profissional. Como eu que estava cuidando do casamento na prática, pagando fornecedores e organizando todos os detalhes, estava convencida de que, nesse processo ele não ia conseguir organizar nenhuma surpresa. Mas o cara era profissional mesmo. O que me tranquilizava era que eu sabia que o meu momento de dar o troco estava chegando.
Passamos uma manhã deliciosa com o que funcionou quase como um certificado de garantia de que tínhamos escolhido a fotógrafa perfeita mesmo. Felícia conduziu o ensaio de forma leve, descontraída, sem nos pedir as poses clichês que a não faziam nosso tipo (nem o dela). De repente era só eu meu Príncipe dançando sem música no meio dos eucaliptos onde muito em breve selaríamos nosso conto de fadas, enquanto Felícia registrava cada sorriso e, acredite, cada arrepio da alma. Cada “eu te amo” que trocamos no olhar naquele dia, ela captou com a lente da câmera. Um dos trabalhos mais sensíveis e especiais que já tinha visto. Toda vez que revejo as fotos desse ensaio, me sinto transportada pra um filme, porque é quase como se eu pudesse ouvir a cena todinha de novo. Foi a amostra perfeita do que esperar do nosso 04deMaio.
Na semana seguinte convidamos a maioria dos padrinhos com uma caixinha que tinha gostinho de Alemanha e viagem, bem #rocasal: chocolates alemães, porta passaporte, abridor de garrafa em formato de avião e um mini Jagermeister. Cada uma com uma cartinha personalizada com a pergunta só pra cumprir tabela “Aceitam ser nossos padrinhos?”. Pra representar nossas famílias nesse grupo, ainda convidamos Topã e Jaquelinda do lado do Príncipe, e do meu lado, como fui abençoada com quatro irmãos, escolhemos Rudolph e Hermine para representar os demais, apostando na choradeira do Rudolph. Para nossa surpresa, dessa vez quem desabou foi Hermine. Mas de forma geral, foi uma choradeira geral. Ainda faltavam algumas caixinhas-convite a serem entregues mas, para garantir as surpresas, deixamos pra depois. E assim a 13° despedida nos alcançou.
Parece estranho agora a gente se despedir estando casado.
Ai eu to exausta dessa distância. Sei que falta pouco, mas nossa, já deu.
Já deu.
E era essa a sensação que ficava. Eu sei que defendo como um relacionamento à distância pode dar certo sim, e não mudo de opinião. Não só eu, como mais 3 das minhas melhores amigas passaram pelo mesmo, e hoje seguem felizes cada uma com o amor da sua vida. Mas eu nunca romantizei essa aventura. É exaustivo. E tenho certeza que a B., a Bride e a Deli vão confirmar o mesmo. Cansa porque parece que a gente tá sempre suportando um peso muito grande. Quando se encontra o peso some feito passe de mágica. E quando a despedida chega de novo, é como se a gente precisasse pausar a felicidade mais uma vez. Quando o sentimento é verdadeiro e mútuo, e existe um objetivo em comum, vale à pena? Muito!!! Mas repito: é exaustivo. E pra nós que víamos o fim de tudo aquilo tão perto e tão longe, sentia uma agonia lazarenta de pôr um ponto final naquilo tudo de uma vez.
- Não tem porque esperar o casamento - ele declarou - Te levo comigo em Janeiro. Chega.



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