3A TEMPORADA - CAPÍTULO VIII

  


 

    Voltando pro Brasil noiva, eu me sentia nas nuvens e praticamente uma celebridade, repetindo a história do pedido pra todo mundo que me abordava. Agora que não era mais segredo, a gente abusava do assunto e já até colocava meus sobrinhos pequenos pra ficar ensaiando a entrada com as alianças. Por mais que Naruto e Julie sempre respondessem “não” quando eu perguntava se eles iam entrar com as alianças no nosso casamento. E logo na mesma semana em que voltei, fui jantar com os Rocasogros para contar todos os detalhes da viagem. De repente, o Rocasogro:

    - Rá, chegou a hora. - declarou

Quem se lembra do Capítulo X1 da 2a Temporada? Quando eu trouxe de souvenir um mini Jack Daniels pro Rocasogro, e ele decidiu guardar para abrir somente quando o filho dele me pedisse em casamento? enfim tinha chegado o tão esperado dia em que ele abriu e brindou aquela pequena dose com meu cunhado, Topã. Com muito orgulho e alegria. E eu partilhava daquele sentimento. Porque além de ter tido a sorte de casar com o meu melhor amigo e grande amor da minhda vida, eu tinha o privilégio de entrar para uma família que me amava como filha, não como nora. Como irmã, e não cunhada. Minha lista de motivos para agradecer era tão imensa que até assustava.

Enfim, voltamos para a rotina de organizar um casamento, manter planilha de excel atualizada, pagar muitos boletos, noivado à distância e, como se tivesse tempo sobrando, aulas de alemão. Eu tinha começado a estudar antes de viajar. Me sentia mais confortável em ter contato pelo menos com o básico antes de me mudar pra lá. Como só o básico já era bem difícil, encarei duas aulas noturnas por semana no primeiro semestre. Minha rotina era insana. Exaustiva. Quem já trabalhou em agência de publicidade, sabe que o ritmo ragatanga é frenético. Quem já organizou um casamento sem assessoria, sabe que é loucura. Quem tem pais separados sabe o que é ficar se dividindo o tempo todo. Quem já namorou à distância sabe que são muitos pratinhos pra equilibrar ao mesmo tempo em que todos estão quase caindo. Junta tudo isso numa pessoa só e acrescenta aulas de um idioma que inventou a palavra “fünfhundertfünfundfünfzig”. Eu estava no ponto pra pirar. Pra trazer a cereja do bolo, minha imunidade sempre foi baixa. E com muita frequência eu ficava doente. E nesses momentos eu deixava de enxergar o sentido em todo aquele furacão. Toda aquela trabalheira. Eu só queria chegar em casa, mergulhar nas cobertas e no abraço do meu noivo (chique! kkk). Ser cuidada ao invés de ter que resolver tudo. Um misto de “bora jogar tudo pro ar” com “força, você já chegou até aqui.” o tempo todo. 

- Nossa, queria uma sopa quando chegasse em casa hoje- eu disse pra ele num domingo à tarde enquanto tomava remédio pra febre.

- Seu irmão não ta em casa? - ele sugeriu sabendo como eu amava a sopa que o Minoine fazia.

- Não… E imprestável não sei fazer também kkk Vamos de miojo mesmo.

- Descansa um pouco primeiro, depois você faz isso.

40 minutos depois, tocaram a campainha de casa. Sem entender eu disse ao Motoboy do iFood que não tinha pedido delivery.

    - Aqui tá pra Rayssa Olivão, é você? - ele perguntou, e eu entendi tudo.

Nesses momentos, com um gesto tão simples, ele me lembrava (mesmo sem saber que eu precisava ser lembrada) qual era o propósito de tudo aquilo. Mesmo a um oceano de distância, ele cuidava de mim. Com uma pequena amostra de como seria a nossa vida juntos dali pra frente.

- Você merece - ele dizia.

Seguindo a mesma lógica, ele começou a me convencer de que eu não precisava esperar o casamento em Maio de 2019 para me mudar pra lá. Que eu poderia sair da agência no fim do ano, e ir embora com ele em Janeiro. Ele alegava que a gente não precisaria dos meus salários de Janeiro a Abril de 2019 e, assim, eu poderia terminar de cuidar do casamento à distância, mais tranquila e focada. E apesar de não me sentir 100% confortável com aquela ideia, ela me era muito tentadora. Minha condição era que a gente fizesse um alinhamento de contas a pagar e a projeção daquele controle financeiro. Se, ao ver no papel que a conta fechava, a gente adiantaria minha ida pra Janeiro. E assim fizemos. Todas as contas do que faltava pagar. Do dinheiro que tinha em caixa e o que ia entrar. E a conta fechou. 

- Mas tem outra conta que eu queria fazer com você…- ele começou.

- Ih lá vem…

- Olha, não é pra ficar brava, tá?

- Não posso garantir não. Que que foi.-Eu apressei já estressada.

- Lembra que a gente conversou sobre a Copa, e que não tinha como juntar o dinheiro, pagando todo o resto, etc?

- Sim, aquele assunto que eu achei que já tava resolvido.

- Bom, e se eu consegui juntar o dinheiro que eu preciso pra ir, sem mexer em todo esse controle financeiro que a gente acertou agora?

- Uai mas tirou dinheiro da onde, lindo? - Não tentando ser carinhosa.

- Como Otávio e Lulu vão, eu gastaria muito menos com estadia e, de resto, você sabe, eu sobrevivo de cerveja e barrinha de ceral. Além disso, com a conversão do euro pra moeda Russa, é super possível!


Pra ser sincera, eu queria xingar ele, Otávio e Lulu junto. Mas, como eu disse, estava exausta.

- Guilherme, faz o que você achar melhor. Se não vai tirar do orçamento do casamento, por mim ok. - concluí sem querer me estressar, já estressada. Também não queria privar ele de realizar o grande sonho de acompanhar uma copa do mundo, ainda mais na companhia de dois dos nossos melhores amigos, futuros padrinhos de casamento. “Não é só futebol” eles disseram. Eu não sentia o mesmo, mas respeitava e queria vê-lo feliz.  Mas eu também não falei essa parte pra ele, pois estressada demais. 


Bom, com as recentes mudanças de planos, eu tinha duas tarefas importantíssimas pela frente: primeiro, comunicar no meu trabalho a minha saída.Segundo, marcar o casamento no civil para antes do esperado, por conta da burocracia do visto de residência na Alemanha. Não sei qual das duas me congelava mais o estômago.

Primeiro contei pra Boss. Que já esperava o desenrolar do meu discurso trêmulo segurando o nó na garganta. Nos últimos dois anos a gente tinha construído juntas algo muito especial e histórico dentro da Agência. Quebramos a cabeça, a cara, estudamos, erramos e aprendemos muito. Nossa sinergia e parceria era tanta, que naturalmente construímos também uma amizade especial, que permitiu que ela me respondesse com toda a sinceridade:

    - Apesar de saber que você vai fazer muita falta, você tem que ir mesmo. Rá, eu desejo pra você o que eu desejo pra minha filha. Vai e eu estarei torcendo sempre por você.


Foi a primeira vez que eu chorei no trabalho. Pelo menos fora do banheiro e na frente da minha chefe.


Depois chamei o Salada para conversar. Que era o chefe dos chefes. Pra quem pedi as contas na primeira temporada. E quem me chamou de volta na segunda. E, com a relação que também criamos naqueles anos trabalhando juntos, não posso dizer que a reação dele me surpreendeu.

- Fico triste, porque você vai fazer falta. Mas se fosse eu no seu lugar, também iria. Vai, e quando você voltar é só entrar, sua cadeira estará aqui.

Foi a segunda vez que eu chorei no trabalho. Eu tinha praticamente mais 6 meses trabalhando com eles, e eu tinha a certeza da sinceridade de ambos os discursos. Nada diferente do que uma família faria. Eu tinha muita sorte mesmo.

Depois dessa enxurrada de emoções, lidar com a burocracia do cartório virou fichinha. Rocasogro não conseguia se conter de alegria e emoção por ser o representante Legal do Príncipe no momento de AGENDAR a data do casamento no civil. Não conseguiu se conter mesmo. Chorou quando assinou o papel. Do agendamento. E lá tínhamos a data: 06.09.2018. Em pouco menos de 3 meses, estaríamos casados no papel. E, segundo o Daddy, quando se marca uma data, o tempo trata logo de passar feito furacão pra ela chegar logo. E foi o que aconteceu mesmo. Entre correria do casamento, trabalho, alemão, preparativos pra festa de 60 anos da arco-Íris, Copa do mundo chegando e a Runi que inventou de sair da Agência antes que eu, o dia dos namorados chegou. E àquela altura, a saudade já estava engasgada na garganta de novo. Entendam: não dá pra “acostumar” com a distância quando você vive um relacionamento à distância. Ele não te sufoca 24/7. Mas a saudade latente e constante vira um parasita que não se desgarra nunca de você. Você só aprende a conviver com ela porque tem um plano de aniquilar a bichinha eventualmente.

Quando cheguei na agência naquele 12 de Junho, formei o bicão antes das 9h da manhã. Na minha mesa estava a sacola da minha loja preferida, uma rosa de chocolate e uma cartinha. Nesse momento desafoguei sem nem ter forças pra evitar. Com a eterna cumplicidade da Queen B e Runi, ali estava o meu Príncipe encantado me dando de presente o vestido que eu usaria no nosso casamento civil. Um modelinho que eu tinha amado na loja da Queen, e ele fez questão de me dar. Aquele gesto, não tão simples, significava um milhão de coisas pra mim. Dentre elas estava a promessa de que o tempo passaria rápido até nosso reencontro, mas também que, não importava quantas vezes os planos mudassem, nem quantas Copas do Mundo existissem, a prioridade seria sempre o nós. E aquilo me acalmava a alma naquele turbilhão de ansiedade em que eu vivia, com a maior mudança da minha vida se aproximando. E os dias seguiram tranquilos tanto quanto era possível dentro da correria daquela rotina.

Dia 24 de Junho ele embarcou pra Russia pra encontrar com Otávio e Lulu. Que me prometeram cuidar do cidadão que eu sabia que estaria num êxtase fora da curva nessa viagem. Sem lembrar que Otávio e Lulu estariam igual, ou pior. Dia 25 de junho, estava saindo da agência, dirigindo para a penúltima aula de alemão do semestre, quando meu celular tocou. Atendi e era meu irmão.-Oi Minoine

- Oi, onde você tá?

- Na norte sul, indo pro alemão, pq?

- Hummm, acho melhor você vir pra casa. Cheguei em casa e seu pai estava no chão porque tinha desmaiado.

Virei o carro quase que no mesmo instante sentido sousas.

- 5 minutos to aí.

Enquanto o Príncipe me mandava mensagens e fotos mostrando as primeiras imagens da Rússia, eu contei o que tinha acontecido. Numa voz mórbida e trêmula que ele já sabia o que significava.

Cheguei em casa e meu pai ainda estava muito fraco, sem saber explicar o que tinha acontecido. Foi a primeira vez que andei de ambulância na minha vida. Não recomendo. Ele segurou na minha mão o trajeto inteiro e só soltamos quando ele foi para a internação. Os primeiros exames não mostravam nada concreto e eu me sentia dura, com todos os músculos do corpo contraídos, séria e calada, esperando alguma resposta. Daddy estava aparentemente tranquilo. Mas eu enxergava naqueles olhinhos castanhos iguais aos meus o medo que ele sentia. Porque era o mesmo medo que pulsava em mim.

Naquela noite ele foi internado na UTI e o mundo ao meu redor tinha desaparecido. Meus irmãos foram me encontrar no hospital, e eu desabei só quando a Runi chegou sem eu saber que ela iria. Mais uma vez, tudo parecia desmoronar e o Guilherme não só estava do outro lado do oceano, como estava em uma das maiores festas do mundo. O clima não era favorável. E eu me sentia completamente abandonada.

    - Não vou sair do Brasil. 

    - Calma…- Runi tentou amansar os ânimos.

   - Ele que volte - interrompi. - Se ainda quiser casar comigo, ele que volte.

E pela frente se erguia uma das semanas mais obscuras e geladas da nossa história.


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