3A TEMPORADA - CAPÍTULO IX


 No meio da Copa do Mundo e da busca pelo Hexa, entramos mais uma vez em uma semana intensa e difícil pro nosso relacionamento. O Daddy ficou na UTI por 3 dias. Sem acesso ao celular, e com um horário de visita burocrático e corrido. Eu precisava largar o trabalho 2 vezes durante o expediente para ir até o hospital, e trabalhava do jeito que dava do celular mesmo. Tentava me contentar com as respostas evasivas dos médicos que simplesmente não conseguiam diagnosticar o desmaio do Daddy. Eu que àquela altura já era formada em 12 ou 13 temporadas de Grey’s Anatomy, ficava pensando que se fosse a Miranda Bailey, já tinha encontrado o problema, resolvido e dado alta. À noite, depois do trabalho, dirigia pro Hospital para a última visita do dia. Quando chegava em casa, trabalhava ao invés de dormir. Porque mesmo que tentasse, o sono não vinha. Abandonei por completo os preparativos pro Rocasório. Não queria nem ouvir a palavra “fornecedor”. Também faltei nas aulas de Alemão daquela semana. Enquanto isso, o Príncipe na Rússia. 

    Eu não o culpava por estar viajando enquanto eu enfrentava um tsunami. Mesmo porque, eu tinha o apoio e ajuda de toda a minha família, da família dele, das minhas amigas e do meu trabalho. Mas eu não conseguia evitar sentir um fundo de raiva de, mais uma vez eu vivia uma fase muito difícil, e ele estava do outro lado do oceano. Eu não suportava mais aquela distância lazarenta. Eu sabia que não estava sozinha, mas custava eu poder chegar em casa e desabar de chorar no colo do meu noivo? Saco. Talvez hoje eu entenda que aquele era um deserto que eu precisava atravessar sozinha mesmo. Mas lá, no meio de tanto caos e medo, eu só conseguia ficar revoltada com a situação. E eu sabia que ele se sentia muito mal por tudo aquilo também. E que, se pudesse, pegaria um voo pro Brasil na hora seguinte. Mas de que adiantaria? Em nada mudaria a situação do meu pai. Gastaria um dinheiro que não tinha de onde tirar. E ele ainda ia largar a oportunidade de realizar um grande sonho da vida dele que era viver uma Copa do Mundo.

    - Fica em paz. Aproveita aí.- eu dizia.

E eu queria mesmo que aquela viagem dele não fosse perdida. Mas também não fazia questão de ficar de papo o dia inteiro. Nem vendo fotos e vídeo o tempo todo. Ele entendia. E se disponibilizava pra mim da forma como podia. Entre muita cerveja, hinos, entrevistas, fotos com turistas e uma atmosfera sem pandemia era permitido transitar sem medo de uma aglomeração para outra e até a lamber estátua pública, ele tentava me fazer sorrir de alguma forma, mas também aproveitar aquela experiência única que ia direto pro diário pros futuros filhos. 


No 3° dia o Daddy foi liberado pra ir pro quarto. Mas ainda nada de diagnóstico médico. Aparentemente não tinha sinal nenhum de alerta vermelho. No coração, na cabeça, no pulmão, no rim… Ele passou mais 2 dias em observação e fazendo incontáveis exames enquanto o mundo lá fora parecia girar mais devagar, mais embaçado, como se não tivesse qualquer importância. Eu me sentia aérea o tempo todo fora do hospital. Na última noite de internação era também o aniversário da Runi&Muralha e eu quase não consegui sair do lado do Daddy pra ir pro restaurante. Enfim, no dia seguinte ele recebeu alta. Mas, ainda, sem diagnóstico preciso. A orientação era recomeçar um check-up geral com o médico dele e acompanhá-lo de perto. O Daddy repetia que estava bem, que eu não tinha com o que me preocupar. Mas eu sabia ler na sua fala uma leve apreensão também. Do tipo de quem se vê de cara com a efemeridade da vida, sabe? Eu podia sentir isso quando ele me permitia cuidar dele. Acompanhá-lo em todas as consultas e exames que se seguiram. Dirigir pra ele pra qualquer lugar porque ele não se sentia seguro ainda. Fazer todo tipo de programa juntos, passar a maior parte do tempo juntos. Dormi no quarto dele durante quase um mês até que nós dois voltamos a nos sentir seguros com a separação.

Quando Lulu & Otávio voltaram de viagem, trouxeram uma caixinha muito especial que o Príncipe tinha mandado pra mim. Era um colar de brilhante completamente inesperado. “Something New pro nosso casamento no Civil. Não vejo a hora. Te amo.” dizia a cartinha. Naquele momento me emocionei com a certeza de, apesar de todo o caos, e até aquele fundinho de raiva, eu tinha escolhido a pessoa certa pra dividir a vida inteira. Mas ao mesmo tempo senti um nó me sufocar a garganta enquanto tentava ignorar a minha vontade louca de cancelar tudo e morar com meu pai pra sempre.

- Pai, acho que não faz mais sentido eu ir morar em outro País.

- Como assim?

- Veja o que aconteceu. Imagina se isso acontece quando não estou aqui?

- Minha filha, você não pode pensar assim. Eu e sua mãe te criamos pra que você viva a sua vida e construa o seu caminho. Você não deve fazer suas escolhas pensando em mim.

- Tá bem, mas pensando em mim então: não sei se consigo ficar longe de você. Acho que esse foi o teste, e não passei.

- Como não? Já passou, superamos! E eu já te disse que a distância não existe.

- Existe sim.

- Bobagem Além do mais, as coisas acontecem quando têm que acontecer. E a gente lida com elas da forma que dá, com o melhor que temos.

- Hum.

- Nós estaremos sempre juntos. Você sabe disso.

- Hum.


Sei que esse momento Daddy Yoda devia bastar para que eu colocasse a cabeça no lugar. Mas eu não atingi ainda o mesmo patamar do Daddy e precisei levar aquela discussão para terapia. E quando compartilhei com o Príncipe que todas as pendências do casamento estavam pausadas por hora, porque eu não sabia mais se aquela era a decisão certa a ser tomada, ele tentou disfarçar o pânico para não me fazer pensar que ele não me apoiava, ou apoiava o meu cuidado com meu pai. Respeitou meu tempo. Mas também levantou inúmeras hipóteses de como levar o Daddy junto para a Alemanha. Ainda sem tentar transparecer o desespero. Eu me sentia exausta. Nenhum resultado de exame do Daddy demonstrou nada de anormal, com exceção de uma arritmia mínima que a gente já sabia que ele tinha e já tratava há anos. Eu tinha a maior decisão da minha vida à minha frente. Um batalhão de fornecedores esperando retorno. Contas já sendo pagas e contratos com multas monstruosas a serem pagas em caso de quebra de contrato. Um noivado à distância e um casamento no civil com data definida e se aproximando. Exausta. A vontade era de me esconder na cama e simplesmente não ter que escolher nada, nem resolver nada.

Mas a gente percebe que cresceu quando não precisa que ninguém lhe diga que a vida não te dá esse tempo, e que você precisa se mexer por você. Porque lá fora, a vida segue. Freneticamente. E foi olhando pra fora, pra esse ritmo que seguia seu curso independente do drama que eu vivia dentro de mim, que eu consegui visualizar a longo prazo. Daqui uns anos, eu ainda me sentiria segura de ter abandonado o plano de casar e mudar para Alemanha? Ou eu teria como inquilino um eterno “e se?” dentro de mim?

  • Não importa o que você decidir. Estaremos juntos. - ele disse.

E ali eu entendi. Eu não estava indo por ele. Para agradá-lo ou para seguir o sonho dele. Eu estava buscando o NOSSO sonho. Eu estava construindo o NÓS. E, dali uns anos, tudo o que eu queria era aquele NÓS. Aquela era apenas uma faísca dentro de mim. Mas que me dizia que se ela foi capaz de nascer, eu era capaz de fortalecê-la. No meu tempo. Respeitando meu processo. Mas eu daria conta. Me agarrei a ela, e retomei todos os preparativos do Rocasório. Naquele ano, o Hexa não rolou, mas meu pai voltou pra casa com saúde, e o nosso plano inicial estava de volta nos trilhos e já tinha até identidade visual enquanto a lista de convidados dava o que falar.

Dali pra frente veio uma sequência muito intensa e corrida de muitos acontecimentos. Mas principalmente cheio de eventos importantes que eu queria aproveitar ao máximo por saber que no ano seguinte não estaria ali. Eu aceitava qualquer convite pra encontrar qualquer amiga, por exemplo. E assim foi quando a Bride me ligou dizendo que queria jantar comigo, porque o namoro dela não ia muito bem. Ela estava prestes a embarcar num relacionamento à distância, e eu que tinha um pouco de experiência na área me prontifiquei a ajudá-la. Nem passou pela minha cabeça que ela teria se juntado com Runi, Lulu, Queen B e  Gasperina pra nos fazer uma surpresa especial pro nosso casamento no civil. Há algumas semanas, eu tinha delegado para a Runi a tarefa de contatar algumas pousadinhas na região pra ver a possibilidade de fechar uma noite para que eu e o Príncipe pudéssemos ter uma “mini lua de mel” após o civil. Só pra não passar em branco. Mas como a grana estava curta, precisava achar alguma boa oportunidade. Mas ela me enrolou por duas semanas quase, com todo tipo de desculpa, e eu engolida pelo caos, fui deixando. Mas estava pronta pra ficar nervosa com a ineficiência que não combinava com ela. Dito e feito. Aquelas amigas que eu nem precisava convidar pra saberem que seriam minhas madrinhas de casamento se juntaram, e reservaram pra gente uma pousadinha numa cidade vizinha. E enfim, nosso 06 de Setembro se aproximava e dava pinta de que não seria só um dia simples de formalização de papéis.

Nossas famílias e amigos ansiavam por aquele dia tanto quanto a gente. E cada um contribuía de alguma forma para tornar aquele dia especial. Mas tudo de forma muito natural, movido pelo carinho e amor que recebíamos de todos os lados. Sabe aquilo que eu digo sobre “quando é pra ser, vai ser, o mundo vira do avesso se preciso”? É isso. Depois da tempestade tudo parecia se encaixar melhor que antes em seu devido lugar. 

Quando o Príncipe finalmente comprou a passagem pro Brasil, me mandou mensagem desapontado:

- Só consegui comprar passagem pra chegar dois dias depois do seu niver.

- Ah… Jura?

- Sim. Pra chegar pro seu niver eu teria que viajar na sexta ou sábado e tava o triplo do valor.

- Ai amor, sem neura. O foco é você estar aqui pro casamento.


E eu acreditei mesmo. A gente ia completar 4 meses separados. A princípio, não era grande coisa. Mas tudo o que a gente viveu nesse período, pesava em dobro aquela saudade. Ainda assim, aquilo não me afligiu. Eu estava obviamente ansiosa pra encontrá-lo, pra matar a saudade do beijo, do cheiro, do abraço, e viver aquela semana intensa e especial que se aproximava da gente. Mas a verdade é que naquele cenário, eu não me dava conta da imensidão daquela falta que ele fazia na minha vida até ser surpreendida por ele na porta da minha casa dois dias antes do meu aniversário.


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