3A TEMPORADA - CAPÍTULO IV
Depois de tomar uma das decisões mais sérias da minha vida, voltei pra mesa de trabalho onde Runi me esperava curiosa.
“Eu vou pra Alemanha”- falei baixinho. “UUUUUUUUHUUUUU...”- quem conhece a Runi consegue ouvir direitinho o grito que ela começou a soltar. "SHHHHHHHHHHHH GAROTA NINGUÉM SABE AINDA"-eu exclamei tapando a boca dela encarando aqueles olhões esbugalhados pra mim me pedindo respostas. Depois de contextualizar tudo como se nossa caixa de emails não estivesse transbordando, ela não conseguia reagir com palavras. Apenas com ombrinhos encolhidos, um sorriso maior que o rosto e dancinha com os pés descontrolados. Mas em seguida completou: “ai bosta, como eu vou ficar sem você?”. Mas já emendou: “TÁ DEPOIS A GENTE PENSA NISSO. FOCO”. Tinha muito ainda a se pensar. Muito que ainda não tínhamos discutido sobre os próximos passos.
“Eu vou pra Alemanha”- falei baixinho. “UUUUUUUUHUUUUU...”- quem conhece a Runi consegue ouvir direitinho o grito que ela começou a soltar. "SHHHHHHHHHHHH GAROTA NINGUÉM SABE AINDA"-eu exclamei tapando a boca dela encarando aqueles olhões esbugalhados pra mim me pedindo respostas. Depois de contextualizar tudo como se nossa caixa de emails não estivesse transbordando, ela não conseguia reagir com palavras. Apenas com ombrinhos encolhidos, um sorriso maior que o rosto e dancinha com os pés descontrolados. Mas em seguida completou: “ai bosta, como eu vou ficar sem você?”. Mas já emendou: “TÁ DEPOIS A GENTE PENSA NISSO. FOCO”. Tinha muito ainda a se pensar. Muito que ainda não tínhamos discutido sobre os próximos passos.
- Vocês vão casar?- Runi retomou. Não tinha a menor chance da gente voltar a se concentrar no trabalho aquela tarde. Desculpa, Boss.
- Sim. Mas não agora. Precisamos fazer as contas de quando conseguiríamos casar, pra daí ter as datas mais concretas- eu comecei a ponderar.
Eu falava tudo aquilo fingindo naturalidade, enquanto na minha cabeça podia me ouvir contestando: "Você nem tem idade pra isso, menina". Engraçado como até hoje me sinto assim em diversos momentos da vida adulta. Bom, enquanto Runi e eu desenhávamos alguns planos, estimativas de custos de um casamento, custos de um curso de alemão, possíveis vagas de trabalho na Alemanha, uma enxurrada de questionamentos me invadia. Uma ansiedade de tentar pensar em tanta coisa que nem aconteceu, e ainda estavam longe de acontecer. Largar tudo. Emprego. Família. Amigos. Estabilidade. Rotina. Segurança. Tudo que eu sempre conheci e amei, pra me jogar num completo escuro. Eu amo rotina. E nunca tive o sonho de morar fora do País. E ali estava eu, rabiscando caminhos práticos pra ir embora do Brasil. Cultura nova. Idioma novo. Desafios novos. Eu me sentia apavorada. E, de alguma forma, imensamente feliz. E de repente de bateu. "O pedido de casamento surpresa acabou"- sussurrou a Rayssinha dentro de mim. Engoli em seco e me recusei a reproduzir em voz alta. Ignorei aquela fumacinha de decepção. Mas onda há fumaça, há fogo. Dali surgiram novos 700 questionamentos. Eu ia abrir mão daquele sonho? Ainda mais com um cara que com certeza seria capaz de montar o pedido de casamento dos meus sonhos? Daqueles que a gente assiste no youtube, onde o cara reúne a família inteira pra um flashmob no meio da Times Square, sabe? Sou dessas.
Não teria mais surpresa. E, por um momento, me senti casando por um Visto. Coisa que eu abominava. Talvez eu não me sentisse adulta pra casar porque talvez eu não quisesse casar ainda, e só concluí aquilo porque a sociedade ensina que depois de se formar na faculdade, e antes de completar 30 anos a gente tem que casar e ter o primeiro filho? Basicamente, eu me sabotava. Só porque eu, mulher adulta e independente, decidi por conta própria casar com a pessoa que amava, ao invés de esperar que ele tomasse essa decisão por nós, de não só como pedir, mas QUANDO me pedir em casamento. Desse jeito não tinha valor? Hoje eu sei o nome disso, mas há 4 anos atrás eu não estudava o patriarcado como hoje. Logo engatei a marcha e cheguei no "lá vou eu abrindo mão de tudo por ele". Eu não tinha dúvidas que queria casar com o Príncipe. E sabia que, esse seria nosso próximo passo. Mas ali, em menos de 6 horas depois de oficializar a minha decisão tudo aquilo parecia demais para assimilar. Desliguei o computador e fui embora pra casa.
Naquele fim de semana, passamos horas numa video chamada arquitetando nosso plano. Fizemos as contas de quanto precisaríamos juntar de dinheiro pra que eu fizesse um curso de alemão básico, pra pagar o casamento e todos os detalhes da mudança, de passagens a documentações. Virginiana&Capricorniano, até eu que não sei nada de signos já entendi tudo. Chegamos à conclusão de que a gente só conseguiria casar no primeiro semestre de 2019. O que, a princípio, parecia longe. Mas me dava certo conforto por saber que eu poderia fazer tudo com calma, de forma planejada. Eu teria tempo pra me acostumar com a ideia da grande mudança, tempo pra me convencer que o Daddy ficaria bem sem mim e que nadinha aconteceria com ele enquanto estivesse longe, teria tempo pra avisar na Agência com devida antecedência, e tempo pra estocar momentos com a minha família e amigos. O que, mais tarde, eu descobri que é igual o sono que as pessoas (sem noção) falam para as gestantes estocarem antes dos bebês nascerem: uma grande mentira.
O plano era perfeito no papel e tinha tudo pra funcionar na prática também. A gente enfrentava um pouco mais de um ano de distância enquanto preparava o casamento, eu estudava o primeiro módulo de alemão e, depois do casamento, eu me despediria do Brasil oficialmente. Ali, com ele, toda aquela avalanche de planos não me assustava. Eu ainda estava largando tudo e me jogando num completo escuro. Mas ele estava de mãos dadas comigo. E a gente apertava os dedinhos uns nos outros sem saber como conter aquela felicidade.
Mas ainda era preciso segurar aquele segredo. Isso porque, o primeiro passo do nosso plano era falar com as nossas famílias. O primeiro da lista era o Daddy. Afinal, para uma Rayssinha que sonhava em ser surpreendida por um pedido de casamento inesperado, era óbvio que eu também sonhava com o Príncipe pedindo a minha mão pro meu pai. E, apesar da veia conservadora e machista dessa tradição que não me agrada hoje, eu gostava do gesto de consideração com o meu pai que era das pessoas mais importantes da minha vida, ao lado da minha mãe. "Ele vai dizer que você tem que pedir pra mim se quero casar com você, não pra ele"- eu profetizei conhecendo muito bem o Daddy-à-frente-do-tempo que eu tinha. Mas esse era um momento importante pro Príncipe também. Ele sabia que nos últimos dois anos, depois da separação dos meus pais, eu e o Daddy morando juntos elevamos nosso laço a outro patamar. E aquela nova fase seria muito mais do que "sair da casa dos pais" pra gente. Pensando nisso, como ainda faltavam alguns dias até o Príncipe chegar para o casamento de Chico Bento & Rosinha, eu tentei sondar o terreno. Em uma das nossas confabulações depois do jantar entre cinema, filosofia e política, abri um papo sobre o futuro.
- O que você imagina pro nosso futuro, Daddy?
- Eu não imagino nada. Deixo o universo cuidar do que é dele - ele respondeu divagando como sempre. E o que pode parecer pra vocês uma resposta sábia e filosófica, era o tipo de resposta aberta que me irritou a vida inteira.
- Tá. Mas na prática. Você não imagina nada? Tipo eu casando?
- Mas aí é o seu futuro, é você que tem que responder - De novo, o tipo de resposta que me enlouquece.
- Nossa você não consegue responder uma pergunta. Vou meter o louco e ir embora dessa casa. Vou lá morar com o Guilherme você vai ver - bem Manuel Carlos roteirista articulada.
- Ué, e porque não? A vida é sua... - Daddy-Yoda respondeu.
- E você não ia morrer de saudades? - soltei tentando disfarçar a bola de cimento de 20kg entalando na minha garganta.
- Saudade é relativa. A gente tá sempre dentro. - e eu não tinha mais condições de dizer mais nenhuma palavra. Ele ficaria bem. Quanto a mim, já não tinha tanta certeza.
Nos dias que se seguiram eu sentia que Deus e o Universo me enviavam sinais de que estávamos fazendo a coisa certa. Na Alemanha, o Príncipe recebia uma oportunidade novinha em folha no trabalho, pra crescer e ampliar sua perspectiva de trabalho por lá.
- Porque você não vai morar com o Guilherme na Alemanha? - minha mãe soltou durante um almoço despretensioso, enquanto eu desabafava que o dia de trabalho estava difícil.
- Você não conseguiria um trabalho por lá, será? - ela incentivou.
- Da onde você tirou isso mãe? Vou largar tudo aqui do nada?
- Ah sei lá, Rayssa. Só uma ideia.
Quando, dias depois, a Rocasogra profetizou que em 1 ano eu e Príncipe casaríamos, eu ergui os olhos pro céu dizendo "já entendi já brigada bjs". E finalmente, numa quarta-feira a noite fomos buscar o Príncipe no aeroporto. E numa tentativa de tentar retribuir as surpresas que ele me fazia, eu tinha dito que não conseguiria acompanhar os Rocasogros para buscá-lo. Mas na verdade estaríamos, eu e Ferinha, do lado de fora esperando-o ansiosamente.
Mais uma vez nosso prazo era curto. Ele ficaria apenas uma semana. A agenda era: Churrasco dos migos na sexta. Casamento Chico Bento & Rosinha no sábado. Falar com o Daddy no domingo. Com Arco-Íris e Rocasogros na segunda. Falar com Topã na terça. Meus irmãos na quarta. Os avós dele na sexta. Woody no sábado. Woody era o melhor amigo de infância do Príncipe. Numa escala FRIENDS, seríamos Mônica e Chandler, e ele nosso Joey. Então ele precisava participar daquele momento com a gente.
Bom, como toda vez em que nos reencontrávamos, e como mais uma certeza pro meu coração, tudo parecia fazer sentido outra vez. A distância era como se nunca tivesse existido, e eu era a mulher mais feliz e realizada do mundo. E juntos, éramos agora um casal ansioso de olhinhos brilhando fazendo lista de padrinhos e imaginando detalhes de uma casamento perfeito. Colocar esses dois protagonistas em outra festa de um casamento lindo e inesquecível, era um prato cheio para aquele segredo explodir a qualquer momento. Foi uma cerimônia linda, e ver aquele grupo de amigos de pouco mais de 25 anos chorando iguais bebês foi mais um marco na nossa história. Afinal, o próprio Chico Bento e boa parte deles dançaram na minha festa de 15 anos, 10 anos antes. As emoções já estavam à flor da pele, resolvemos acrescentar cerveja na equação. Quando a dupla sertaneja cantou "Pra sempre com você" do Jorge e Matheus, Príncipe gravou um story comigo gritando no refrão "EU LARGO TUDO E VOU... EU VOOOU! EU VOOOOU PRA ALEMANHAAAAAAAA!!!". Terminamos a noite abordando a dupla de cantores, perguntando se eles tinham agenda aberta para 2019.
Na manhã seguinte, a ressaca nos acordou lentamente, mas pulamos da cama lembrando do Story achando que tinha sido postado. Mas Deus interviu e guardou nosso segredo por nós. Mas, já que já estávamos acordados, resolvemos dar play na peregrinação. Chamamos o Daddy pra conversar. Eu quis filmar, mas não conseguia parar de tremer. Eu comecei contando todo o contexto que ele conhecia muito bem. Sobre o combinado que eu e Príncipe tínhamos, que o plano precisou mudar, sobre como eu mudei minha percepção sobre nosso relacionamento depois de Santorini, que eu passei a ser mais mais maleável com a ideia de ele não voltar pro Brasil, como tratei disso na terapia e, por fim, a minha decisão de me mudar pra Alemanha. Nosso combinado era que eu parasse nessa hora do discurso, e o Príncipe assumiria dali. Mas nem se esse não fosse o acordo. Minha voz embargou a ponto de sumir quando eu oficializei aquilo pro Daddy que, da sua cadeira, fechava o biquinho olhando pra cima e balançando a cabeça em confirmação. Ele costuma fazer isso quando se concentra muito pra não chorar.
Dali o Guilherme engatou num discurso não combinado e muito mais elaborado. Primeiro agradecendo meu pai pela filha incrível que ele tinha criado, que mudou a vida dele e hoje era o amor da vida dele. Jurando que, eu era o mundo todinho dele e que por mim ele jamais mediria esforços pra me fazer feliz. Além do presente que era ter ele como sogro, a quem ele amava muito.
- E, com isso, sogro, eu queria ter a honra de te pedir a benção pra casar com a Rayssinha.
- Você tem que pedir isso pra ela, não pra mim.
Caímos na risada. O que foi ótimo pro Daddy limpar as lágrimas rapidinho antes de abrir a boca pra fazer a gente chorar deliberadamente. Ele costuma provocar isso nas pessoas quando fala com o coração, o meu paizinho. Entre "amo você como um filho" e "confio muito em vocês dois" ele nos deu a bênção e prometeu segurar o segredo, principalmente até o dia seguinte, onde encontraríamos Rocasogros e Arco-Íris para a fase 2. Seguimos o mesmo roteiro. Eu contextualizava até a minha decisão de ir embora do Brasil, e o Príncipe terminava contando da parte do Casamento. A diferença é que dessa vez, quando eu falei "Gente vamos falar de coisa séria?" automaticamente Arco-íris respondeu "TÁ GRÁVIDA?!", e o Rocasogro reagiu com "Nossa, você não vai fazer isso comigo" quando disse que ia mudar pra Alemanha. Rocasogra chorou mas mantinha a plenitude de quem já sabia no coração de tudo aquilo. O Daddy ria do Rocasogro.
No dia seguinte o Topã reagiu com a clássica calmaria e o abraço apertado de sempre. No seguinte, foi a vez de reunir meus dois irmãos, Rudolph e Minoine, cunhada, Hermine, irmã Tawanda e sobrinhas Merida e Julie, e outra irmã, Luna, via video-chamada. Repetimos de novo o mesmo roteiro que já estava decorado na ponta da língua. Mas, dessa vez, o Príncipe, num gesto de carinho e consideração, também pediu aos meus irmãos a benção pra se casar comigo. Mais um pouco daquela veia conservadora onde os homens da casa "permitem" que a irmã mais nova seja tomada por outro homem? Sim. Mas, de novo, eu não me atentava pra essa problematização (necessária) ainda. E diante do laço especial que tenho com meus dois irmãos, aquele era um gesto muito especial pra mim. Enquanto Merida desmontava de chorar na mesa ao saber que eu ia embora, Minoine, celebrava que eu casaria com um cara muito diferente do traste anterior, e Luna batia palma em delay da video-chamada diretamente de alguma praia em Ibiza.
Quando embarcamos pro Vaticano Brasileiro pra contar pros avós do Principe na reta final do plano, eu sentia uma paz muito grande no coração. Que privilégio a gente tinha de poder fazer tudo aquilo. Planejar tudo aquilo. Do nosso jeitinho, com paciência, resiliência, e muita parceria. Eu nem lembrava mais que faltava ainda um pedido oficial do Príncipe. Ou que um dia questionei o fator surpresa ou não. Com ele eu me sentia naquela cena do meu filme predileto, Orgulho & Preconceito, quando Elizabeth dança pela primeira vez com Mr. Darcy, e o salão lotado de pessoas ao redor dos dois simplesmente desaparece. O dois parecem flutuar numa conexão poderosa, possivelmente de outras vidas. Essa era a sensação, enquanto tudo ao nosso redor girava e acontecia rapidamente, planos e tarefas e novas etapas surgiam, inúmeros desafios e possíveis dificuldades, eu enxergava apenas ele me fitando na alma.
A gente podia planejar cada detalhe mas, na prática, não controlamos tudo, e as coisas podiam não sair exatamente como previsto (e como vocês verão nos próximos capítulos, de fato não saiu). Aquela conexão é o que me fazia permanecer em paz. Segura com a certeza de ter feito a escolha certa. Independente do que viesse. A gente se despediu pela 10° vez em Guarulhos e essa parte não mudava nunca. Eu chorava igual. O Príncipe ria. E lá estávamos nós, desenhando planos pro dia mais especial das nossas vidas acontecer, sem saber, no último ano em que teríamos uma vida no "normal" que a gente conhecia até então. Como eu sempre digo: quando é pra ser, o mundo gira até ao contrário se for preciso.







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