3A TEMPORADA - CAPÍTULO VII

Depois de acalmar meu choro alto no meio da praça, ele lançou a bomba:

    - Agora a gente precisa voar pro apartamento, fazer as malas e nosso voo sai em 3 horas.

Se eu não estivesse prestes a realizar mais um sonho da minha vida, talvez ficasse pê da vida com aquela pressão. Mas  arrumei a mala o mais rápido que pude com um sorriso no rosto, e guardei com todo o cuidado o vestido que eu tinha comprado especialmente para o dia especial. Se eu ia acertar o dia de usá-lo? Ninguém sabia. 

Muita gente não entendia direito aquela minha vontade doida de conhecer a Irlanda. O clima era conhecido por ser muito chuvoso, frio e cinza. E talvez nem eu saiba explicar direito. Eu simplesmente amava toda aquela atmosfera irlandesa. Pra começar, eu amava a Guinness. Oh my Guinness! De longe, minha cerveja preferida. E meu lado publicitária se deliciava com a trajetória icônica da marca na publicidade. Depois, tinha os cliffs of Moher. Que ok, não era o cenário de Orgulho&Preconceito, mas foi o que me fez descobrir a Irlanda e era basicamente magnífico. Toda vez que me pegava vendo fotos, minha alma viajava para aquela imensidão, e eu quase conseguia sentir a ventania no cabelo, no rosto, chacoalhando a alma inteira. Eu nem conseguia imaginar como seria estar pessoalmente ali, na beira do infinito. Ainda, tinha o clima irlandês. Não apenas o clima do tempo. O que também não era um problema pra mim, que sempre amei frio e o cinza não influenciava meu humor. Mas a atmosfera. A energia das pessoas, dos pubs, com uma música e animação contagiante. As histórias, os castelos, as incontáveis tradições e superstições. A Trinity College e sua biblioteca histórica, que nem preciso explicar o porquê me despertava suspiros, né? Pra ajudar, Ed Sheeran lançou “Galway Girl” e “Nancy Mulligan” em 2017. Era simplesmente o cenário perfeito pro romance rayssinha dos meus sonhos. E eu sempre soube que, um dia, conheceria aquele lugar mágico. Mas realizar esse sonho com o amor da minha vida, superava qualquer expectativa antes mesmo de embarcar.

O voo não durava nem 4h e foi o primeiro que não dormi no minuto em que afivelei os cintos. Estava muito empenhada em ler tudo o que tinha pra fazer na cidade naquele período.

- Tem apenas 2 detalhes que não saíram como planejei, e prefiro te contar já pra não te frustrar. - ele confessou.

- Tá tudo bem, nada vai me abalar.

- O primeiro é que hoje passaremos a noite em um hostel, em um quarto compartilhado. Era o melhor localizado, e o que tinha vaga, e o que cabia no orçamento apertado-extra-casamento.

- Zero problemas, amor!!! - eu me iludi.

- O segundo é que não vai ser dessa vez que vamos ver os Cliffs.

Alí eu desconfiei. Até parece né?

    - Os Cliffs ficam numa cidade há 4 horas de Dublin. E não coube no nosso orçamento nem o tour de ônibus, nem alugar um carro.- Ele continuou quase chorando e eu comecei a acreditar. - Você me desculpa? - perguntou, me fitando com os olhinhos azuis-dinamarqueses-com-amarelo-ouro-degradê marejados.

    - Amor imagina! Na próxima a gente vai, óbvio! Fica em paz - eu tentei tranquilizá-lo sem transparecer (talvez sem sucesso) a imensa frustração que me invadiu por uns segundos. 


Obviamente aquilo me abalou. Mas, no fundo, eu ainda sentia que era tudo mentira, só pra eu não esperar que o pedido acontecesse lá, por exemplo. Mas ao desembarcar o êxtase voltou com tudo. E eu sentia como se todas as minhas expectativas sonhando com aquele lugar seriam rapidamente superadas. Chegamos à noite na cidade, então o plano era ir correndo deixar as malas no hostel pra conseguir visitar algum pub antes de dormir. E, de fato, o hostel era muito bem localizado. Dividia o quarteirão com nada mais, nada menos que o Temple Bar. Só um dos pontos turísticos mais famosos da capital. Eu não conseguia parar de sorrir. Ele foi o primeiro lugar que visitamos, e onde tomei minha primeira Guinness original num ambiente clássico irlandês com uma atmosfera de pouca iluminação e muita música acústica. Foi como uma enxurrada de sentimentos aquelas primeiras horas. Ao mesmo tempo que eu não conseguia acreditar que estava onde estava, e queria me beliscar o tempo todo pra garantir que era real, eu não queria acordar de jeito nenhum e aproveitar cada segundinho daquele sonho.

Daí acordei. Chegamos no Hostel para dormir depois da meia-noite. Nosso quarto tinha duas beliches. Uma era minha e do Príncipe. Na outra, dormiam dois homens. Travei. Além de nunca ter feito o tipo Dora-aventureira-mochileira-corajosa-dorme-onde-der, eu sou mulher e ia dormir num quarto com dois homens desconhecidos. Nem preciso explicar mais do que isso. Eu suava frio. E o Príncipe percebeu. Eu podia ler na testa dele o arrependimento de ter me colocado ali. 

- Você quer dormir comigo na mesma...

- Sim. - respondi angustiada.


    Eu deitei encostada na parede, e o Príncipe me abraçando. Tipo um escudo. Mas se dormi 1 hora inteira aquela noite, foi muito. Acordei durante a noite toda sentindo todos os músculos do meu corpo contraídos. Um sentimento de medo e vulnerabilidade muito cruel e real para 99% das mulheres. Mas passou. E, pra compensar, o Príncipe me tirou dali e me levou direto pra um Hotel maravilho, com tudo o que a gente tinha direito e eu tentava não ficar pensando de qual orçamento do casamento aquele dinheiro ia sair.

    Como a lenda do Hostel era real, eu me convenci de que os Cliffs não iam rolar mesmo e dei tudo de mim pra que aquela frustração não estragasse meu ânimo. E deu certo. Porque agora eu sabia que o pedido podia rolar a qualquer momento, então andava com a ansiedade a mil. Andamos muito durante o primeiro dia. Era um dia cinza mas não chovia,  e eu parecia uma criança em parque de diversão, observando em detalhes cada esquina, evitando olhar no relógio o tempo passar depressa demais. Visitamos o Green Park, almoçamos o famoso “Fish and Chips” e de sobremesa experimentamos um Scone Irlandês na Queen of Tarts. Descobrimos uma loja Disney e eu precisei sair correndo de lá antes de comprar um Mickey Irlandês que não cabia no meu orçamento. Mas precisei desembolsar para comprar um rímel à prova d'água, porque tinha deixado o meu em Stuttgart, e eu não era obrigada a ter minha primeira foto de NOIVAAAA com o olho borrado, né?! É!!! 

De lá passeamos pela Trinity College e a biblioteca é de esgotar qualquer lista de adjetivos. Passei alguns minutos parada, em silêncio, só observando a imensidão histórica daquele lugar. Me senti a Bela descobrindo pela primeira vez a biblioteca no castelo do Fera. Infelizmente, nosso tempo era curto pra toda a programação e não deu pra explorar muito mais. Tínhamos um compromisso-surpresa às 16h.

- Espera aí que vou falar pro Taxista o endereço de onde vamos- Ele pediu.


    Um cochilo no carro e 30 minutos depois, chegamos. E eu dei de cara com um portão preto enorme, com o logo da Guinness em dourado. Já chorei ali mesmo. Não dava tempo de colocar o pé no chão que o Príncipe aprontava mais uma. Logo na entrada, ele me fez esperar no canto enquanto ia até a lojinha de souvenirs. Quando voltou carregava uma sacola com uma caixa dentro. Me entregou e pediu que a abrisse. Tirei de lá de dentro um conjunto de dois copos oficiais da Guinness. Bicão formado.

    - Olha direito - ele reforçou.

    Os copos estavam personalizados com “Mr. Rocamora” em um, e “Mrs. Rocamora” em outro. 

    - Como você fez isso? - tentei dizer sem liberar o choro alto no meio do museu.

    - Você merece. 


    Nem sei como descrever o tour daquele museu. Impecável. Envolvente. Impactante. Delicioso. São algumas palavras que se aproximam de uma descrição fiel. Mas tenho certeza que vai muito além. A gente começa na base do prédio e a cada etapa da história e do processo de produção da cerveja, vamos subindo um andar. Podemos experimentar a cerveja em cada uma de seus estágios, e ainda aprendemos a servir o Pint perfeito. No último andar podemos saborear a melhor cerveja do mundo com uma vista panorâmica da capital de tirar o fôlego. Pra provar que tudo acontece no tempo certo, àquela hora do dia, o céu estava de um azul perfeito salpicado de nuvens brancas que deixavam a luz brilhar. Terminamos aquela noite comprando muitos ímãs de geladeira, plaquinha da sorte e agasalhos de Dublin iguais.

    4 de Maio de 2018. Era nosso último dia inteiro em Dublin. E exatamente um ano antes do Rocasório. Decidi que era o dia do vestidinho. O Príncipe parecia mais nervoso que o normal. “É hoje.” pensei. Acordamos antes do café da manhã e fomos pra cidade. Parados num ponto de ônibus, eu ainda não sabia qual era o destino da vez. E o Príncipe olhando para todos os lados freneticamente. De repente, um ônibus de viagem estacionou na nossa frente. Inteiro adesivado com a foto de um cenário que eu reconheci rapidamente e o título “CLIFFS OF MOHER TOUR”. Bicão. Muitos pulinhos e um abraço apertado pra abafar mais um choro alto dessa história. Na época, eu juro que acreditei na mentira dele, porque foi bem convincente. Mas sei que hoje, olhando pra trás, é difícil entender como eu consegui acreditar que ele me levaria pra Irlanda, e não iríamos pros Cliffs, né? Ok, seguimos.

    Eram realmente quase 4 horas de viagem. Nem todo êxtase do mundo ia me impedir de dormir, não tem jeito. Tivemos uma parada pra almoçar e visitar um castelinho perdido no meio do caminho. E quando desembarcamos no destino final, o coração desceu primeiro fugindo pela boca. A gente ria a toa. Só de olhar um pro outro. Os dois dividiam a mesma ansiedade. Enquanto andávamos pelo caminhozinho até o Cliff, lembrei do filme “Quer casar comigo?” com a perfeita Amy Adams, que eu também amava e tinha assistido umas 100x. A barriga gelou enquanto a ficha ia caindo do que estava prestes a acontecer. A neblina estava tão densa que não dava pra enxergar o mar. Mas ele seguiu me guiando em frente, como se tivesse um destino específico a chegar. E tinha.

    - Pára aqui - Ele disse de repente. Enquanto tirava a mochila das costas. Éramos apenas nós e uma densa imensidão cinza de testemunha.

    - Há quatro anos atrás, foi desse lugar que eu tirei algumas graminhas pra levar pra você.- ele começou. Meu bicão já estava a postos. - Hoje eu consegui cumprir minha promessa de te trazer aqui, e nem eu imaginava que seria pra mudar nossas vidas pra sempre. - ele me entregou o iPad e o fone de ouvido, pediu que eu virasse de costas, e apertou o play num pequeno vídeo onde nossa família e os amigos que já sabiam dos nossos planos diziam coisas lindas sobre aquele nosso sonho. Entre muitos “parabéns”, “amamos vocês” e alguns “finalmenteee!”, eu pude sentir como se estivessem todos ali com a gente, dividindo e, o mais importante, apoiando e comemorando aquele momento especial. Nada me dava mais certeza de que estávamos no caminho certo do que sentir o apoio e o carinho das pessoas que mais amo na vida. Porque além da sensação de segurança, a felicidade aumentava exponencialmente. Eu assisti rindo e chorando e transbordando. Quando acabou, o Príncipe me entregou mais um pedacinho de grama daquele espacinho que agora estava eternizado na nossa história. Tirou uma caixinha branca do bolso e um sorriso lhe calava todas as palavras. Ajoelhou.

    - Quer casar comigo? 

    Ele ergueu os ombrinhos quando eu fiz que sim só com a cabeça, porque a fala não se sobressaía mais ao choro. Com o anelzinho no dedo, pulinhos e muitos beijos, eu era, mais uma vez, a mulher mais feliz do mundo.

    - Eu tinha um discurso preparado, mas não consegui...- Ele confessou.

Mas aquele olhar não só bastava como dizia muito mais. E pra provar, mais uma vez, que tudo acontece no tempo certo: o céu limpou ao nosso redor e aquela vista de faltar o ar veio presentear nosso momento mágico. Não poderia ter escolhido cenário mais perfeito para esse episódio. A nossa felicidade precisava daquele horizonte infinito pra transbordar.

    Terminamos aquele dia visitando o bar mais antigo da Irlanda e enxugando todas as Guinness que ainda sobravam em Dublin sem saber como traduzir toda aquela felicidade. Nosso voo no dia seguinte era depois do almoço, então ainda passeamos pela cidade durante a manhã e experimentamos o famoso café da manhã irlandês acompanhado, sim, de uma Guinness. E no céu, pasmem, brilhava um sol maravilhoso. “Vocês deram muita sorte, há meses que não sai um dia bonito desses em Dublin”- disse o taxista. A gente sorriu um pro outro ao invés de tentar explicar pra ele que nada daquilo era sorte. Na volta pro hotel pra buscar as malas antes de ir pro aeroporto, nos separamos, porque ele precisava tirar dinheiro, e eu fui na frente fazer o check-out. Quando ele chegou, eu já o esperava com as malas e ele trazia numa sacola o Mickey Irlandês pra mim. “Você merece.” li nos lábios dele de longe.

    

    Voltamos para Stuttgart e já no dia seguinte nos despedimos pela 12a vez, no meu retorno pro Brasil. Dessa vez a gente sorria demais e não teve espaço pra chorar. A balança tinha muito mais motivo pra comemorar, aquela distância já estava com seus dias contados e a gente sabia que era a reta final, não tinha dragão nenhum mais pra enfrentar, estava tudo sob controle. Mas o próximo capítulo vem pra nos lembrar que, na verdade, a gente não tá no controle de nada. Nunca.


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