3A TEMPORADA - CAPÍTULO VI
O ano é 2018.
Rocasogros e Tia Xô fechavam as malas para finalmente ir visitar o Príncipe na Alemanha. Eu fui lá "me despedir" e buscar o dragão de komodo, o cachorrinho do meu sogro, avô biológico do Fera, que ficaria na casa do Daddy enquanto eles viajavam. Aproveitei pra levar também um guia de perguntas e respostas em inglês pra ele treinar antes de passar pela imigração na Alemanha, já que ele seria o porta voz da trupe. Rocasogro sempre foi apaixonado nos Estados Unidos. O país, a cultura e o idioma. Desde que o conheci, ele se esforça pra aprender palavras em inglês. O sonho dele era conhecer Nova Iorque e, anos atrás, ele teve essa oportunidade. Quando precisaram de alguém que falasse inglês para servir de guia/tradutor em uma viagem a trabalho, ele foi o primeiro a se candidatar. Quando o avião decolou, e ele tinha certeza de que não havia mais retorno, ele abriu o jogo com a equipe:
- Pessoal é o seguinte: não falo nada de inglês. Cada um por si. Vai ser divertido!
De lá pra cá ele se empenhou mais ainda em aprender o idioma e hoje deve completar uns 1000 dias seguidos no Duolingo. Ainda tem dificuldade para pronunciar "tomato" e "daughter", mas não deixa de arriscar, e todas as nossas ligações começam com "Hi Rayssinha, how are you?!" num volume acima da média - naquela comum ilusão de que se falar mais alto, o outro entende. Eu sabia que aquela viagem prometia novas pérolas e estava ansiosa por elas. Sabia também que aquela viagem prometia um pedido especial, mas eu estava tentando não enlouquecer de ansiedade. Eu ficaria duas semanas e o foco da primeira, era a tão aguardada viagem em família. Na segunda semana seríamos só nós dois, em Stuttgart mesmo. Afinal, pagando o casamento, eu mesma sabia que não tínhamos dinheiro pra mais uma viagem.
19 de Abril de 2018. Eu chegava no aeroporto com o Daddy 3 horas antes do embarque, certa de que surpreenderia Rocasogros e Tia Xô na fila do check-in. Nada. Despachei as malas. Liguei pra Rocasogra fingindo uma ligação pra desejar boa viagem.
- E aí já despacharam as malas, tudo certinho?
- Tudo filha, já estamos sentados na frente do portão de embarque.
TRÊS HORAS ANTES DO EMBARQUE. Depois eu que sou ansiosa. Precisei me despedir do Daddy ali mesmo e fui sozinha encontrá-los. Eu os vi de longe, sentadinhos. Mas eles demoraram a me ver.
- Rayssa!!! - minha sogra gritou enquanto Rocasogro e Tia Xô sincronizados quebravam o pescoço na minha direção até que se ouvisse o "PAN!!!" da tela azul.
- Vocês não tão esquecendo de nada não??? - eu brinquei.
Rocasogro ainda estava imóvel com a mão no rosto agora personificando o meme da Nazaré tentando calcular fórmulas impossíveis - Vocês acharam mesmo que eu ia ficar? - continuei, tentando não tremer muito a câmera do celular enquanto ria.
Tia Xô foi a primeira a conseguir sair do transe e levantar pra me abraçar, já chorando.
- Gui você não sabe quem tá aqui - Rocasogro disse mirando o celular. Como se, em alguma realidade possível, o Príncipe não estaria mancomunado comigo naquela surpresa.
- Rayssa você é louca??? - Rocasogra perguntou -Porque você não me contou?
- Porque era surpresa!
- Você mentiu tudo isso pra mim? Eu nunca vou perdoar você - completou soluçando.
- Vai sim porque a gente vai ter a melhor viagem do mundo!!!
- O Guilherme sabe? - Tia Xô indagou.
- Guilherme comprou minha passagem, gente - eu ria.
- Então é daqui pro avião? - Rocasogro preferiu confirmar. Até aquele momento ele ainda achava que eu tinha dado um jeito de viajar de Campinas a São Paulo, passar no portão de embarque e pelo raio-x só pra me despedir deles. Não me pergunte como.
Aquela foi, sem dúvidas, uma das viagens mais especiais da minha vida. Tipo a viagem com Rudolph, Hermine e Julie pra Disney, e a Eurotrip com o Daddy. Era emocionante ver naqueles três pares de olhinhos, do mel ao azul dinamarquês com amarelo ouro degradê, a felicidade e a excitação com aquela aventura. Tia Xô não acreditava que estava mesmo realizando aquele sonho até o avião decolar. Tudo ali envolvia anos de muito esforço e trabalho duro. Era a primeira vez de todos eles na Europa, e claro, para a casa do Príncipe. Que por sua vez, também contribuiu para que eu me emocionasse ao ver o carinho e o cuidado que ele dedicava ao receber a família. Ele também não se aguentava de felicidade. O valor desse laço pra ele me inundava de orgulho do homem que eu tinha escolhido para construir a nossa família. E sentir de pertinho a troca daquele amor intenso entre eles, me dava sensação de LAR.
Desembarcamos em Frankfurt, e de lá até Stuttgart parecíamos uma excursão. Primeiro porque o carro que o Príncipe tinha alugado não estava mais disponível e a única opção disponível era uma van para 10 pessoas. O que condizia um pouco com o clima do passeio. O Rocasogro perguntava a cada 3 minutos o que eram as coisas ao redor. A placa da Autobahn, as casinhas no pé da montanha, as incontáveis obras durante o caminho e a paisagem impecável da embalagem do chocolate Milka.
- Gente, a viagem já valeu pra mim - declarou o Rocasogro antes de entrarmos oficialmente em Stuttgart.
- Quê?! - eu berrei rindo - Nem chegamos, loko!!!
Mas ele estava deslumbrado. Era lindo de ver. Mas a gente ria bastante também. Ao chegar no endereço do Príncipe, lembrei dos 74 degraus até o quarto andar e doeu um pouco pensar em subir todas aquelas malas. Mesmo sabendo que, no fim, sobrava tudo pro Príncipe mesmo. Dali em diante foi um misto de risadas, lágrimas (de alegria) e muita (muuuuuita) cerveja. O Príncipe mostrou a cidade toda pra gente. Rocasogra e eu fizemos comprinhas na Primark enquanto os três foram num jogo de futebol do gigante V.F.B Stuttgart. Visitamos um campo de concentração em Dachau - e foi um dos passeios mais pesados da minha vida até hoje. Que tristeza as marcas da crueldade humana.
Visitamos Munique e, dessa vez, eu consegui beber cerveja na maior cervejaria da Europa. Príncipe conseguiu me enfiar pela segunda vez num bondinho pra subir quase 3mil metros de altura para visitar Zugspitze e apresentar a neve pela primeira vez para a família. Visitamos também meu castelinho oficial em Neuschwanstein e, dessa vez, a vista estava limpinha e deu pra ver ele perfeitamente. Pela primeira vez fizemos o trajeto da subida até o castelo de charrete, não de ônibus. O balancinho tava tão gostoso que deu até pra tirar um cochilinho. Mas, por algum motivo, o Príncipe achou um absurdo a Princesa dormir na charrete. Até hoje não entendi o porquê.
Ainda fomos colocar um pézinho na França para o deleite da Rocasogra, pra comer um crépe original, e o Príncipe fingir que sabia experimentar vinho de novo. Numa tacinha que a Rocasogra amou tanto, que fez o Príncipe dar um jeito de conseguir levar ela de souvenir. Talvez tenha sido a quantidade de vinho que ela absorveu rapidamente que a levou a pedir uma sopa no Mc Donalds depois? Talvez. Mas o importante é que o Príncipe inventou que era aniversário dela, e ganhou a taça de presente pra mãe. Depois de matar a fome no Mc, encontramos uma das famosas lojas de torrone. Uma gracinha, com apenas uma vendedora lá dentro. Enquanto a gente traduzia algumas coisas pra RocaSogra e Tia Xô, percebemos que Rocasogro estava calado demais, apenas observando do outro canto da loja. De repente ouvimos o berro:
- YOUR STORE.... BEAUTIFUL!!!! - declarou Rocasogro e em seguida saiu rapidamente da loja, deixando uma vendedora atordoada nos encarando. Pra tentar amenizar o silêncio, o Príncipe comprou um pedaço do torrone pra levar. Quando saímos, Rocasogro nos esperava com orgulho nos olhos - Você viu, Rá? Eu falei certinho. - concluiu. E deixamos por isso mesmo.
Pra fechar a semana com chave de ouro, visitamos o museu da Mercedez Benz, o que foi um sonho realizado pro Rocasogro, que é fã de fórmula 1 desde pequeno e pôde ouvir beeeem de pertinho o ronco daquele motor. Ainda compramos muitos ímãs de geladeira, visitamos a biblioteca de Stuttgart e, enfim, o evento mais esperado: a Frühlingsfest de Stuttgart. Na tradução: Festival de Primavera. Era uma mini Oktoberfest, só que em Abril e que de "mini" não tinha nada. É o maior festival de primavera da Europa. Todo mundo ia caracterizado com os vestidinhos e jardineiras alemãs, os chamados Dirndl e Lederhosen. O Príncipe inclusive comprou uma de surpresa pra mim, pra gente ir combinandinho. Eu tinha me convencido que o pedido fosse rolar apenas na segunda semana, quando fôssemos apenas eu e ele. Mas, naquele dia, considerei que pudesse acontecer a qualquer momento. Pra quem gostava de pedido com flash mob, um festival com milhares de pessoas parecia um bom cenário.
Rocasogro chorou ao entrar na tenda. Mas não julguei. A energia daquele lugar impressiona mesmo. Dessa vez a Rocasogra foi a única a voltar do passeio sóbria, mas todos voltamos cantando "Rayyyyssa, Rayyyyssa, Rayssa vai noivaaaaar!" cada um no seu ritmo. Todos na mesma sintonia feliz. O que tornava a despedida que se aproximava rápido demais, mais doída. Mas uma declaração fez tudo valer a pena.
- Filho, você está certo em não querer voltar pro Brasil. - Rocasogro confessou. Até aquele dia, ele tinha dificuldades em aceitar aquela distância, e ainda não tinha se conformado que agora eu também mudaria pra longe. Eventualmente ele pedia pro Príncipe: "Volta?". Sem saber como aquilo pesava na saudade de quem tenta fazer a vida longe de casa. Mas agora era diferente. Ele pôde ver com os próprios olhos o lugar incrível em que o filho morava. Onde tinha segurança, estrutura, qualidade de vida e perspectivas incomparáveis. Finalmente o coração de pai aquiesceu um pouco, tornando a missão da saudade menos sofrida.
No caminho até o aeroporto, passamos por Ludwigsburg. Sem nem imaginar que essa seria nossa casa em alguns anos. Visitamos o castelo e Rocasogro se esbaldou na grama do parque, tentando adiar a partida. Mas havia chegado ao fim uma das semanas mais intensas e felizes das nossas vidas. Porém, dessa vez, a despedida no aeroporto foi diferente pra mim. Não era eu me despedindo do Príncipe. Pela primeira vez, eu fiquei do lado dele depois do abraço na frente da porta de embarque. E, pela primeira vez, eu tive de ser colo ao invés de pedir colo. Eu sabia que aquela era uma viagem muito especial na vida dele. Poder receber os pais e a tia na casa dele, poder mostrar a cidade, mostrar o trem que ele pegava pra ir trabalhar, o prédio da empresa onde ele construía a carreira, dentre tudo aquilo que até então ele só podia relatar, ele teve a oportunidade de dividir oficialmente com eles. As pessoas com quem ele aprendeu a ser trabalhador, honesto e humilde. De quem ele sempre teve amor e apoio incondicional, os primeiros a acreditarem nos seus sonhos. A quem ele era muito grato, por tudo o que fizeram, que permitiu que ele chegasse onde chegou. E ali, naquela despedida, eu vi um menino se despedindo de pai, mãe e tia. Que é o tipo de saudade que abre um buraco quase que instantaneamente no peito, dando uma sensação de querer pular no colo deles de volta, mas sabendo que precisa seguir em frente, porque já aprendera a voar. E esse Calopsitinha tinha voado pra muito longe. E quem via de fora, inclusive eu, costuma ter a sensação de que ele se vira muito bem na distância, afinal, já se somavam muitos anos morando longe de casa. Mas ninguém explica a saudade de família.
Nesse dia, me senti pegando do chão caquinho por caquinho que caía com as lágrimas desse menino. Foi difícil não desmanchar junto, e dei tudo de mim pra ser a rocha que ele precisava naquele momento. O que nos mostrou um pouquinho como seria dali um ano. Eu e ele. E seria daqueles dedinhos entrelaçados que tiraríamos força e coragem pra seguir em frente. Pelo nosso sonho. Pelo nosso nós.
Nos 3 dias seguintes eu comecei a ficar preocupada se o tal do pedido não ia rolar logo. Na dúvida, refiz a unha. E acabamos fazendo programas de namorados normais que moram na mesma cidade. Saímos pra jantar depois de passar 5h decidindo o que ia comer. Eu usava as roupas dele. Fazíamos comida juntos. Passávamos mais tempo escolhendo o que assistir do que assistindo algo. E na terceira noite, ele sugeriu:
- Nunca vi seu filme preferido com você, né? Vamos ver hoje?
Orgulho e Preconceito é meu filme preferido desde que foi lançado lá em 2005. Eu tinha contado pro Príncipe que foi por causa desse filme que eu tinha me apaixonado pelos Cliffs da Irlanda e tinha tanta vontade de ir pra Dublin, de onde ele tinha roubado um pedacinho de grama pra mim em 2014. Tem uma cena onde Elizabeth pára na beirada do Cliff pra pensar no seu dilema interior sobre amar Mr. Darcy antes de entender que era amor. Na época (mais de 15 anos atrás), fui pesquisar onde tinha sido filmado e me apaixonei. Acabei entrando numa onda de fotos e curiosidades de Dublin e aquilo me marcou.
Assistindo juntos aquela noite, quando a cena emblemática chegou, ele pausou o filme.
- Esse é Cliff, Rayssa?
- Sim, porque?
- Isso não é Dublin, Rayssa.
- O google disse que é.
- A Irlanda tem mar, Rayssa.
Silêncio.
- Não to acreditando nisso, Rayssa.
Ok. Então não era o cenário do meu filme preferido. Mas, independente disso, anos atrás eu descobri Dublin e morria de vontade de conhecer. O sonho permanece válido mesmo que tenha sido uma pesquisa relacionada errada na internet discada da época. O que não impediu que o Príncipe dormisse aquela noite às gargalhadas.
No dia seguinte, ele me acordou não muito cedo, mas ainda assim, mais cedo do que eu gostaria pra irmos ao centro fazer sabe-se lá o quê. Mas quando eu precisei ficar esperando do lado de fora de uma joalheria, eu desconfiei. Na volta pro apartamento, passamos por uma praça onde as fontes já estavam ligadas, e a paisagem estava bonita e sem muito movimento. Ele me posicionou de frente pra fonte e pediu pra que eu não virasse pra trás. Na hora pensei o mesmo que você pode estar pensando agora: "Vou virar e esse menino vai estar ajoelhado olhando pra mim". Mas quando ele pediu pra eu virar, ele estava de pé e tinha apenas um sorriso empolgado no rosto. Então, me estendeu uma caixinha. Sim, uma caixinha que comportava perfeitamente um anel de noivado. Mas na frente tinha um post-it colado onde estava escrito: "Quer viajar comigo?".
Guilherme, o que você fez? Temos um casamento pra pagar!!!
- Quer saber pra onde a gente vai? - ele perguntou com os olhinhos brilhando pra mim.
Silêncio. Dava pra ouvir meu coração disparado. E talvez o zunido que eu sentia na cabeça naquele momento. Eu sabia que eu seria pedida em casamento por aquele homem, de alguma forma especial, nos próximos dias. E, ainda assim, aquela adrenalina fazia meu mundo todinho girar. As borboletas do estômago já tinham todas fugido pela boca e nem ar eu achava mais pra respirar. Ali eu sabia que eu tinha encontrado o amor que era capaz de me fazer sentir paz e segurança em plena queda livre. E era esse amor que eu queria pro resto da vida.
- Abre a caixinha - ele insistiu.
Eu estava prestes a responder "SIM!!!", mas dentro tinha outro post-it no lugar do anel. Chorei alto quando abri o papelzinho onde estava escrito: "DUBLIN".



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