3A TEMPORADA - CAPITULO V


A gente queria guardar aquele segredo do resto do mundo por dois motivos: primeiro, porque o Príncipe queria fazer um pedido oficial, talvez sem o flash mob, mas algo especial com certeza. Segundo, porque não queria causar nenhum ruído no meu trabalho. Mas, a gente precisava dividir com alguns amigos, não tinha como não viver aquela felicidade compartilhada. Contamos para Woody, Lulu&Otávio e Muralha, B, Gasperina, Bride e Deli.

Woody foi sincero e disse que não ia conseguir guardar segredo não. Muralha cortou meu discurso detalhado com um “MANO CONTA LOGO” e Lulu&Otávio já me deram uma taça personalizada de “Bride” pra brindar. A B se emocionou comigo no meio do Abbraccio. Apesar de já sentir o frio na barriga pela nossa distância, ela embarcou antes que eu na batalha do namoro à distância com o Moon, então sabia exatamente a felicidade que aquilo representava e, portanto, estava feliz por mim. Naquela noite, o garçom me entregou um guardanapo com o nome e o número de outro cliente, que a B respondeu rapidamente com um “ELA ESTÁ NOIVA, MOÇO, OBRIGADA!!!”. Felicidade compartilhada, entende?

Quando chegou a vez de Gasperina eu tinha cansado de repetir o mesmo discurso pela décima vez e resolvi me divertir. Inventei uma história que o Jacão comentou por acaso sobre eu me mudar pra Alemanha e que com isso eu tinha descoberto que o Príncipe já tinha aceitado uma nova proposta de trabalho pra ficar lá pra sempre.

- Cansei. Acabou. Ele mentiu pra mim. - eu repetia bem séria, pronta pra novela das 9.

Gasperina coitada, não sabia nem o que dizer, claramente devastada.

    - Miga, calma. Ele já aceitou ou é uma coisa que ele tava pensando? - ela tentava amenizar. Tadinha.

    - Zuera miga! Eu vou casar e mudar pra lá!!!

Primeiro ela me xingou. Mas depois comemoramos muito.


Tudo começava a se tornar real demais. Era difícil controlar a ansiedade, então a gente se entregou a ela. A primeira coisa que fiz foi uma reunião com Runi e Lulu para estimar os valores do casamento. Runi tinha se casado em 2014, e a Lulu em 2016, então tínhamos bons parâmetros para começar. Mas quando fechamos as contas, entrei em pânico. 

-Impossível a gente levantar essa grana. Esquece.- eu decretei quase aos prantos, convencida de que não adiantava nem sonhar com o casamento perfeito.

-Calma. Vamos ver onde dá pra apertar. A gente corre atrás dos descontos. Vai dar certo.-Lulu tentou me animar. Algumas horas e umas taças de vinho depois, chegamos no orçamento desejado. O próximo passo, antes de definir o local do casamento, era uma coisa que não saía da minha cabeça: a foto. Compartilhei com o Príncipe que há anos eu já tinha escolhido quem faria as fotos do meu casamento. Eu a conhecia do colégio, de longe. Mas pelo Facebook conheci seu trabalho e, como disse no email que mandei pra ela, foi amor à primeira vista. Felícia não parecia uma fotógrafa convencional, porque suas fotos falavam mais alto do que as comuns. E não costumavam ter aquelas poses clichês de casamento que a gente detestava. Com medo de perder a agenda dela, a Runi mandou um email fake perguntando se ela tinha a data disponível, e pedindo o orçamento. 

- Putz. É mais do que a gente separou pra foto/vídeo - eu compartilhei com o Príncipe. -Não acredito. Era meu sonho fechar com ela.

- Então pronto.- Ele respondeu - Você merece. A gente dá um jeito.

E antes de 2017 terminar eu mandei um email com direito a textão para Felícia, consultando a disponibilidade da data e, claro, declarando todo o meu amor pelo seu trabalho. Ela tinha a data e agora era mais uma que dividia aquele segredo com a gente.


Quando o Príncipe voltou pro Brasil para o Natal, Ano novo e o seu aniversário, a gente aproveitou e marcou algumas reuniões com outros fornecedores. Como a maior parte eu faria sozinha, foi legal ele participar um pouquinho daquela agitação. Fizemos uma reunião de decoração que parecia um universo paralelo vintage cheio de gatinhos onde as flores custavam uma bagatela de 45 mil reais. Levamos um balão de um Buffet que me fez acordar cedo nas férias e chegar no endereço com o prédio quase demolido. Degustamos os drinks do Bar com o fornecedor que já estava fechado há anos, já que ele era um amigo do Príncipe da época em que ele trabalhava de bartender. Saímos de lá cambaleando de drinks perfeitos e um atendimento impecável, para uma reunião com um DJ que no dia seguinte a gente não lembrava nem o nome. E assinamos o primeiro contrato do casamento com a Felícia, com o Fera de testemunha. Fechamos 2017 com muita festa, família, amigos, sonhos, promessas e uma competição de quem conseguia colocar mais lichia dentro da boca e eu obviamente ganhei.

Para abrir 2018 com chave de ouro, o tradicional churrasco de aniversário do Príncipe na casa do Daddy, com direito a surpresa da tia Xô pro Príncipe -que eu me arrependo até hoje de ter organizado diante dos murros que ela levou dele durante o encontro. Para oficializar a temporada de noivos, fomos visitar o Floresta Park na companhia dos Rocasogros, Daddy e Arco-Íris. Era um dia chuvoso de verão, o que deixou a Rocasogra bem preocupada com o acesso dos carros ao local. Mas no momento que a gente pisou ali, sentimos que seria o cenário do nosso dia perfeito. Engraçado que o Floresta Park é um restaurante da fazenda perto da casa do Daddy, e por isso eu e meus pais frequentávamos desde que eu era pequena. E sempre tive uma lembrança bem forte de quando eles abriram o espaço para casamentos e a gente foi espiar. Eu tinha 13 anos e disse pros meus pais: “Vou casar aqui com certeza, olha que lindo!”. Essa simetria perfeita me arrepia até hoje. Naquele dia mesmo fechamos o espaço pro nosso 04 de Maio de 2019. Não restavam dúvidas e a Runi já tinha, inclusive, providenciado uma hashtag oficial: finalmente tomava forma o #rocasório.

Nos despedimos pela 11° vez e sabíamos que o próximo encontro, seria dali uns meses na tão esperada viagem que os Rocasogros e a Tia Xô fariam pra Alemanha. Mas nem eles sabiam que eu ia junto na mala, esse segredo ainda estava mais guardadinho entre o Príncipe e eu. Eu segui na missão das reuniões com fornecedores, milhares de emails de orçamentos e uma planilha de pagamento bem detalhada e colorida para atualizar. Naturalmente, o Rocasório tinha a temática de viagem. Logo o Príncipe estava comprando as lembrancinhas temáticas no Aliexpress enquanto a gente decidia a lista de padrinhos, e fingia que a lista de convidados não tinha ultrapassado 3x mais o limite que tínhamos definido. Bom, que o relacionamento à distância é difícil, a gente já sabia. Mas resolvemos colocar a meta de montar um casamento à distância, em ano de copa do mundo. Como se faltasse algo para apimentar a relação. Na maior parte do tempo a gente trocava mensagens fantasiando o grande dia, e sorria à toa pensando no tamanho da sorte que a gente tinha, é verdade. Mas na outra parte do tempo, tinha muito estresse com abstinência para administrar também.

    - Copa do Mundo na Rússia? Você não pode estar falando sério.

    - Mas amor, é uma oportunidade única!

    - Realmente, única. Ou a Copa ou o Casamento.

    - Não é assim.

    - Guilherme, eu não vou me estressar. Vamos colocar na ponta do lápis, ok? Fazemos as contas e você me diz se existe alguma possibilidade de você ir.


Fizemos as contas.

- E aí, tem alguma possibilidade de pagar o casamento e ainda ir pra Rússia, meu príncipe meu amor meu tudo nessa vida?

Silêncio.

- Não tem né. Ótimo que a gente concorda. Próxima pendência.


Ele me chama de brava. Eu prefiro “prática”. Prioridades, né?

Um mês depois da nossa despedida, a Milly passou 1 semana na Alemanha a trabalho e o Príncipe pegou carona na mala dela, para que ela trouxesse algumas coisas pra mim. Eu sabia que ele ia mandar as amostras das lembrancinhas que ele tinha comprado online. Mas quando ele disse que “talvez tenha algumas coisinhas a mais junto” eu não consegui afastar de mim o pensamento que ele pudesse aparecer na minha frente de surpresa de novo. Só me convenci mesmo quando a Milly me entregou 3 sacolas cheias de embrulhos e caixas e ele não estava dentro de nenhuma delas. Cada embrulho tinha uma cartinha. E eu abri todos assim que cheguei de volta na agência. Runi, Marilda e Pocahontas estavam comigo, sem entender direito o motivo de tudo aquilo. Mas eu já tinha me acostumado àquela altura que, com o Príncipe, a gente não precisava de um motivo especial para surpreender. Pra fazer um agrado. Pra mandar um carinho. Demonstrar amor. Só precisava da oportunidade. Algumas vezes, a gente dava um jeito de fazer a oportunidade acontecer. Mas outras vezes elas apareciam numa carona de mala e, com certeza, não eram desperdiçadas. E era nesses pequenos gestos que Deus me sussurrava “você está no caminho certo”.

Os presentes eram simples, mas pra mim eram tudo. As cartinhas me fizeram rir e chorar. Num misto de felicidade por poder transbordar um amor tão leve, com uma saudade já apertada do meu lugar nesse mundo: ao lado dele. “Apenas pra te lembrar que escolhi você pra passar todos os dias da minha vida” dizia uma das cartinhas. E amor pra mim, é isso. A cartinha. O cuidado em lembrar o outro da escolha que foi feita. Porque ela precisa ser renovada todos os dias depois do felizes para sempre. E nesse furacão de sentimentos, às vezes eu precisava me beliscar para acreditar que tudo aquilo era real. A gente ia casar mesmo? Eu ia mudar de País mesmo? Eu ia viver pra sempre com o grande amor da minha vida sem precisar sobreviver a distância nenhuma? Às vezes, nem o beliscão me convencia.

Nosso reencontro finalmente se aproximava. Em 19 de Abril eu embarcaria para a Alemanha de novo. Mas Rocasogros e Tia Xô ainda não sabiam. 

    - Poxa Rá, você tinha que ir junto.

   - Sogra, impossível tirar férias agora, praticamente voltei das últimas férias mês passado. Não dá.

    - Eu falo com a sua chefe.

E assim a gente seguia enrolando, e eles não desconfiavam de nada.

Num belo dia, o Príncipe começou a me chamar de Antonella. Eu, sem entender nada, questionei. “Você não lembra?” - ele respondia. Eu não lembrava. Me esforcei pra buscar no disco rígido, mas não tive sucesso. E isso se repetiu por alguns dias, até que eu desisti de entender, e deixei Antonella pra lá. “Bom dia, Antonella”- Runi me cumprimentou uns dias depois. Eu fiquei dividida entre xingar e desconfiar de algo. Mas a Runi não consegue mentir, em 2 segundos começou a rir e me entregou um envelope. Dentro encontrei 5 páginas dobradas. “Capítulo 1: O reencontro” li na primeira página enquanto meu bico se formava. Ali ele me lembrou que, lá em 2014, quando voltamos a nos falar, a gente inventou de abrir um blog pra falar de viagens. Mas usando codinomes, ele o “Memo” e eu, a “Antonella”.


Aquele pode ser considerado o primeiro e original manuscrito dessa história aqui. A segunda página trazia “Capítulo 2: a primeira aventura juntos” onde ele contou sobre a nossa temporada em Chicago. “Capítulo 3: o Memo não pára” e foi onde ele relatou de forma bem mais branda o retorno dele pra Alemanha e terminou com: “...mas calma, Memo tinha um plano”. “Capítulo 4: Europa, Deusão e a Princesa” foi o capítulo da virada. A vida nova em Stuttgart com um dilema: “Memo percebe que nada adianta alcançar todos seus sonhos profissionais, se quando chega em casa Antonella não está”. Relatou a magia de Santorini, a grande decisão de largar tudo no Brasil e até a data do Rocasório. “Mas até lá, o que vai acontecer?” terminei de ler  a 4a página com o rosto inundado. A última página tinha um print da minha passagem pra Alemanha e o título do Capítulo 5 era: O pedido.


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