2A TEMPORADA - Capítulo XI

 

O ano é 2017.

Começamos o ano com o agora já clássico niver do príncipe na casa do Daddy. Um churrasco cheio de gente de todo lado. Onde o aniversariante fica maluquinho tentando dividir a atenção entre todo mundo. Quando a 5a despedida chegou, prometemos mais uma vez não chorar. Isso porque dali 3 semanas ele estaria de volta ao Brasil para um evento do trabalho. Daria pra cumprir a promessa e não chorar? Dava. Mas ainda era nossa 5a despedida. A angústia de ficar longe sabendo da efemeridade da vida, era sufocante. E acabava sempre transbordando inevitavelmente na frente do portão de embarque. Mas dali 3 semanas estávamos juntos de novo, e ainda deu pra comemorar juntos o aniversário de 15 anos da nossa sobrinha mais velha, Merida.



Nos despedimos pela 6a vez. Àquela altura, nosso relacionamento já tinha um nível diferente de enlace, a gente fazia muitos planos juntos e também sabia exatamente como gostava de aproveitar cada minutinho que tínhamos juntos (na mesma cidade).A vida foi seguindo seu curso natural nos arredores do nosso conto de fadas. Nossas famílias estavam cada dia mais entrelaçadas. O Fera já tinha tomado todas as vacinas e o primeiro banho. Gasperina estava grávida de 9 meses quase. Daddy aposentou. Pituxa, minha poodle de 16 anos estava cada vez mais debilitada com a cegueira. E a Fiona, minha vira-alma de 6 anos também ia escapando das minhas mãos e todos os recursos que busquei pra salvá-la. Tomar a decisão de fazer ela descansar foi, de longe, das mais difíceis na minha vida. Fazer isso longe do Príncipe, triplicou.

Inevitavelmente se reergueu entre nós aquela neblina de “você devia estar aqui” de um lado, e “daria tudo pra estar aí” do outro. Uma semana depois que me despedi da Fiona, a Pituxa não permitiu que eu precisasse fazer o mesmo por ela. Desceu da minha cama no meio da noite (mesmo cega) e foi descansar longe de mim pra que eu não acordasse em pânico.


- Hoje vai ser um dia difícil, avisa o Guilherme - ouvi meu pai dizendo ao meu irmão quando acordei.


Quando não encontrei minha cachorrinha nos meus pés na cama, desmanchei afundando no travesseiro novamente. Logo meu telefone tocou com o Príncipe tentando consolar o inconsolável. Só quem vive esse amor, e sofre essa perda, entende. Ele passou muito tempo mudo no telefone. E, apesar de culpá-lo, eu sabia que o coração dele pesava do outro lado da linha isso ser o máximo que ele podia fazer por mim naquele momento. Enquanto isso, a gente riscava na parede a contagem regressiva pra se reencontrar. Dessa vez, na terra da cerveja quente e umas linguiça estranha que eu não curto. Essa inclusive foi uma das ferramentas que nos sustentou durante os anos de relacionamento à distância: ter sempre uma contagem regressiva. Tinha dia, que a única força que restava era pra se agarrar naquela data. Sério: a única. 


E finalmente ela chegou.


Daddy e eu embarcamos naquele vôo promocional com 3 escalas malucas, mas chegamos. E é óbvio que eu chorei no reencontro. Onde eu sempre tenho a mesma sensação paradoxal: me sinto engolida por uma avalanche, mas que me traz paz, segurança e reforça todos os meus sonhos. Como se me dissesse numa enxurrada só: valeu à pena suportar a distância. Esse amor-vale-à-pena. E essa certeza recarregava todas as minhas energias no segundo em que eu mergulhava naquele abraço, naquele cheirinho, naquele lar. Lembro de lembrar instantaneamente de Chicago quando entrei na casinha dele em Stuttgart. Eram casas completamente diferentes, a fase era outra e os cenários muito distantes. Mas, de alguma forma, eu tive essa real sensação de estarmos morando juntos de novo.


Essa viagem me marcou por alguns motivos.

1. O Príncipe foi o primeiro namorado com quem o Daddy se relacionou, ok. Mas foi nessa viagem que eu vi a amizade deles crescer. Que eu vi como o Daddy admirava e confiava no Príncipe. E ver nascer aquela relação valia mais que ouro pra mim. Depois de lá foi um pulinho pros dois começarem a se juntar pra me enlouquecer e se divertirem com isso. O que é um inferno pra mim, mas ok seguimos.

2. Foi a primeira viagem que fiz com o Príncipe para conhecer cidades, pontos turísticos, com roteiro e programações especiais. Era como se fosse o mochilão que nunca fizemos em 2014. E era bizarro ver como ele se preparava para cada passeio! Ele virava o próprio guia turístico e quem já viajou com ele sabe. Ele faz a linha de ficar contando curiosidades do lugar, sabe? Hahahaha não aguento!!! Fiquei impressionada com o talento dele e amei ter tudo aquilo à disposição, porque eu tenho zero talento pra isso. Eu pago a passagem e só vou.


Em 8 dias, visitamos 8 cidades, 2 países, andamos cerca de 96km a pé e rodamos quase 2000km de carro. Em meio a muitas paisagens cinematográficas, ele me levou pra ver a neve pela primeira vez na vida. Mas fez isso com estilo. Me levou a 2962m de altura (mesmo eu inteeeeeeira cagada de medo de entrar naquele bondinho), no ponto mais alto de toda a Alemanha, para encarar uma imensidão branca e gelada estarrecedora. Enquanto o Daddy se encolhia dentro do capuz, eu tentava fingir não sentir meus ossos congelando só pra ficar um tiquinho mais ali, admirando. E dentre alguns castelos, ele também me levou pra conhecer o mais especial da vizinhança. Aquele que inspirou o castelo da Cinderella lá no Magic Kingdom, o famoso Neuschwanstein. Esse também foi de tirar o fôlego. Era como entrar num conto de fadas real mesmo. Na minha cabeça ecoava as sinfonias de época e eu podia visualizar perfeitamente a movimentação em volta do castelo entre plebeus, nobreza e realeza.




Afff, eu não gosto eu amo!

E mesmo que a neblina tentou atrapalhar a nossa vista perfeita da ponte, o Príncipe não decepcionou: me presenteou com mais um pingentinho pra minha pulseira Life. Dessa vez, um castelinho. Não dá ponto sem nó, né? Eu acho ótimo!!! A viagem rendeu muitos Bretzels e Schnitzels, checklist em muitos pontos turísticos,  muuuuuuuuuuuito litrão de cerveja morna que me fez pedir um café na maior cervejaria da europa (mas era isso ou coma), ímãs de geladeira, e muitos vídeos meus dormindo durante as viagens de carro, ou dentro do elevador mesmo, do térreo à cobertura. Eu avisei pra vocês irem se acostumando. Mas, como vocês podem imaginar, 8 dias passaram rápido demais e, logo estávamos dirigindo para nossa 7a despedida. E aquela ia ser penosa.



A próxima contagem regressiva era para dali 6 meses, no meu aniversário em Setembro onde estávamos programando mais uma viagem de férias.


SEIS MESES.

Fico inteirinha gelada só de lembrar.


Eu sei que eu disse que quando a gente se reencontrava, a certeza e a segurança toda voltava e blablablá. Mas esse momento de soltar o abraço sabendo que teremos meses pela frente onde não dá pra acabar uma briga com um beijo, ou pegar o carro pra ir pedir colo pro outro num momento de desespero, é assustador. A gente tinha certeza que estávamos lutando pelo motivo certo. Mas tinha medo também. Ali, na hora de ir embora, eu entendi o motivo de ter me lembrado vividamente de Chicago quando cheguei. Não foi porque cheguei arrumando e mudando tudo de lugar. Ou porque não me importei em soltar o furacão das compras pela sala mesmo. Mas porque ele era meu LAR. E onde quer que ele fosse, onde quer que ele se aventurasse, mas instalasse a Netflix e colasse nossas fotos na parede, eu me sentiria em casa. E era por isso que eu insistia em contornar as lágrimas pra seguir firme. Pelo esforço dele de sempre manter um sorriso aberto no meu rosto, à qualquer custo. Pelo amor genuíno que a gente construiu até ali. E o medo que nos cercava, só reforçava a preciosidade do que tínhamos, e não queríamos perder.

De volta pro Brasil, entre os souvenirs da viagem, trouxe despretensiosamente para o Rocasogro um mini Jack Daniels porque ele era amante de Whisky, mas eu não tinha dinheiro pra trazer a garrafa tamanho real rs. Ele, ao invés de abrir, DO NADA, fez uma promessa.


- Só vou abrir quando você ficar noiva.

Intenso, né? Eu ri.

E me peguei pensando se eu e o Príncipe estávamos perto daquele momento. Já que no fim do ano ele estaria de volta, talvez começássemos a tocar no assunto em breve. Mas passou. E sem neura. Eu estava foco total no meu trabalho que, inclusive, seguia num ritmo intenso. Tão intenso que eu precisei tomar uma das decisões mais importantes da minha vida: fazer terapia. Eu tinha uma carreira exigindo muito de mim, um relacionamento à distância exigindo muito de mim e um drama familiar exigindo muito de mim. Hora ou outra uma corda ia estourar, inevitavelmente. Aproveito pra reforçar: FAÇAM TERAPIA! O mundo agradece. No começo foi bem avassalador, né? Como eu costumo dizer: a jornada do autoconhecimento não é um passeio pela primavera. Esse negócio te vira do avesso, até você aprender a remontar suas pecinhas de volta. Mas foi Deus mesmo (foi o Daddy, mas eles tão sempre muito alinhados) que me fez começar essa jornada naquele momento. Só Ele sabia o que me aguardava ali na esquina.

Lá pra junho, a gente ainda não tocava muito no assunto do retorno dele no fim do ano. Mas todas as vezes que fazíamos qualquer menção a algum compromisso, ou plano pro ano seguinte, eu fazia questão de tratar considerando ele já fixo e acorrentado aqui no Brasil. Ele nem desconversava e nem entrava no assunto. Um belo dia, numa conversa despretensiosa, ele se entregou. A gente falava sobre o programa de voluntário que a gente costumava participar, sobre a ação de fim de ano. E num simples “Já avisei o pessoal já que não vou estar aí pra participar”, eu peguei ele.


- O que você disse?- respondi.

Ele ficou alguns minutos sem digitar nada.

- Guilherme, pq vc não vai estar aqui no fim do ano? - eu insisti.

- Precisamos conversar- ele enfim desembuchou.


E ali meu mundo desmoronou tuuuudinho de novo. Não só pelo fato de que ele não voltaria pro Brasil em alguns meses. Mas porque ele tinha mentido pra mim. Ele não tinha ido pra Alemanha com um contrato de 1 ano. O contrato dele era indefinido e, enquanto ele quisesse ficar, ficava. Em sua defesa, ele tinha um plano na cabeça: ficar um ano e, nesse período, cavar uma boa vaga de volta no Brasil. Mas a vaga não apareceu. Ele estava se preparando pra abrir o jogo comigo, mas a perna da mentira é minúscula e ela tropeçou antes.


- Acabou- eu disse.

Sem derramar uma lágrima.

Amortecida pelo ódio.

- Você acabou com a confiança que eu tinha em você.- concluí.


Conversamos durante horas. Ele assumiu a cagada de não ter sido transparente, mas o medo de me perder, ou perder a maior oportunidade profissional da vida dele o fez apostar numa terceira saída. Nada justifica? Nada justifica. Ele era a pessoa que eu achava que jamais quebraria minha confiança. Principalmente sabendo em detalhes tudo o que vivi com Paolo. Nada aparentemente era capaz de recuperar a decepção que ele me causou. E a previsão de nos encontrarmos pra tentar contornar aquela crise? Dali 3 meses. Ou seja, eu estava convencida que nosso prazo de validade tinha expirado. E nenhum dos pedidos de desculpas, nenhuma das justificativas de boa intenção que ele teceu me convenceram do contrário.


- Eu só preciso de mais 1 ano aqui. Tenho certeza que em 1 ano a minha vaga no Brasil aparece, e eu dou minha palavra de que serei 300% honesto em cada etapa daqui pra frente -ele implorou em vão.

- Eu não consigo nem olhar pra você agora. Preciso de um tempo pra pensar- eu finalizei.


E nos dois dias seguintes, não respondi a nenhuma mensagem. Chorei no colo da Runi, da B e Lulu&Otávio. “Ele mentiu.” ecoava na minha cabeça. “Não acredito que ele mentiu” escorria pelo rosto. Ninguém sabia exatamente o que dizer pra me confortar.


- Você precisa decidir se aceita ficar mais um ano à distância, mas só se conseguir perdoar esse deslize de agora. Pra que lá na frente, você não resolva culpá-lo por essa fase, sabe?- discursou Lulu.

- Se achar que não consegue, só tem outra saída, infelizmente.-concluiu, como sempre, muito objetiva.


Como que tomava uma decisão daquela?! Já no terceiro dia sem nos falar, fui com o Daddy pra SP. Ele tinha um compromisso, e eu fui encontrar minhas primas. Na estrada contei tudo pra ele. E as lágrimas pareciam ter fonte infinita, credo!!! Daddy ouviu toda a novela pacientemente em silêncio. Quando terminei, ele esperou meu soluçar dar uma trégua, ainda em silêncio.


- Como sempre, acho que a decisão tem que ser sua, e eu te apoiarei independente de qual seja -ele disse quebrando o silêncio, enfim.

- Mas, se cabe minha opinião, entendo que se os sonhos e objetivos de vocês estiverem alinhados, o que é mais uma ano pra quem já superou o que vocês superaram juntos? - ele continuou com aquela vozinha serena dele. - As pessoas mudam, filha. Os planos mudam. O importante é que vocês renovem os acordos periodicamente, se assim fizer sentido. Se o objetivo ainda for compartilhado - ele finalizou.

Eu não respondi.

Pensei muito sobre aquele momento Mestre Yoda do Daddy.

Mas permaneci em silêncio. E completamos 5 dias inteiros sem trocar uma palavra.


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