2A TEMPORADA - Capítulo X

           

O ano é 2016.

Seguimos à todo vapor. Meu trabalho estava uma loucura que eu amava e até curso com Boss eu estava fazendo. Ah! Ashley e família foram pro Brasil finalmente! E eu fui encontrá-los em São Paulo. Foi uma noite rápida mas perfeita. Quando Mickey me viu, o sorriso não negou que ele também sentia minha falta. E o Gui contando os dias pra acabar o último semestre da faculdade. A rotina era meio maluca, meio lá meio cá, sempre largando um sapato pra trás. Mas uma coisa ainda incomodava muito. Como ele não era oficialmente efetivo, o salário dele não era dos melhores. Principalmente pra quem gostava de mimar a namorada e pagar o jantar dos pais como ele. Eu sentia a agonia dele toda vez que eu pagava o jantar todo, ou quando ele não ajudava na gasolina do John Snow. E eu não sabia exatamente como ajudar. Porque sabia exatamente como a sensação de depender financeiramente incomodava. Enfim, uma vitória pra comemorar: a faculdade acabou. Como ele trancou uma parte, não se formou com os amigos com quem estudou os primeiros anos. Mas preciso dizer que só a colação foi uma emoção e tanto. A alegria dele e o orgulho dos pais transbordavam. Calopsitinha formou. Organizei uma festa na casa do Daddy com direito a bolo e lembrancinha, porque ele sim, merecia. E dali pra frente, eu tinha certeza que as coisas tendiam a melhorar na carreira dele. Eu só não sabia COMO. E ele não sabia como me contar.






Quando ele disse que tinha recebido uma proposta de emprego efetiva na empresa, eu urrei de felicidade.

- A vaga é na Alemanha - ele completou. Eu travei. O mundo girou e foi embaçando lentamente todo aquele futuro que eu enxergava pra gente.

- Mas é só um ano -ele continuou.

- Eu fico um ano lá pra continuar no projeto e quando voltar tenho uma vaga aqui - ele prometeu. Mas minha sensação era de tontura e a voz dele soava abafada pra mim. Como se eu tivesse sido sugada para uma segunda dimensão e não era capaz mais de interagir ou reagir no mesmo plano que ele. O choro descompensado me ajudou a voltar. Ele escorria quente no meu rosto e fui recuperando a fala.


- É isso então. É assim que a gente acaba- consegui balbuciar - Depois de tudo, eu achei que a gente ia ser pra sempre -concluí me rendendo as lágrimas aceleradas.

Ele se juntou a mim.

Que futuro eu poderia enxergar? Um ano inteirinho longe?

E ir junto não era uma opção. Eu não ia largar minha carreira no auge, por causa da dele. Também me recusava a me casar só pra ter o visto, se nem de casamento a gente falava direito. Meus pais recém separados, ambos precisando de mim mais do que nunca, e eu deles. Ir definitivamente não era uma opção. Além do mais, se aventurar no Inglês é uma coisa, no alemão são umas três outras diferentes, né?!?!


- Mas eu vou poder voltar pro Brasil mais vezes, você vai poder ir, a gente encurta a distância!-ele tentava amenizar.


Ai gente, preciso ser sincera: na prática é tudo lindo e tudo é possível. Mas eu já tinha experiência nesse mercado e aquilo não me convencia. Precisei de um tempo pra pensar. E pensando eu entendi que a decisão não era se eu queria enfrentar aquele inferno por mais um ano. E sim se valia a pena. E acho que ninguém tem coragem de discordar da minha conclusão. Porque se tinha algo na minha vida que eu sabia que VALIA CADA SACRIFÍCIO, era o nosso amor. Naquela noite eu orei pedindo força. E posso jurar que adormeci ouvindo “ela já existe dentro de você”. Acordei leve. Sem medo. Confiante de que daríamos conta. E a recompensa começava imediatamente, na alegria que transbordava dos olhinhos azuis-dinamarqueses-de-amarelo-ouro-degradê. A felicidade dele valia tudo. E eu me sentia tão feliz quanto ele em poder apoiá-lo em mais essa. Mesmo que parte de mim já sentia o peso do vazio que ele deixaria. 


Mas lá fomos nós.


Com a contagem regressiva disparada no nosso cangote. Ele ficou nervoso quando a renovação do passaporte dele atrasou quase 3 meses. Eu achei ótimo o tempo extra que tivemos juntos. Fiz 24 aninhos completamente desanimada de comemorar. Mas ele e Runi garantiram uma festa surpresa temática da minha princesa preferida, perfeita pra reunir pessoas queridas e me sentir amada. Às vezes a gente esquece o quanto essa troca nos renova na alma, né? Pra coroar ganhei os primeiros pingentes para a pulseirinha Life que ele tinha me dado de dia dos namorados naquele ano: o vestido da Bela, e um Principezinho. Pudemos ainda testemunhar juntos a união oficial de Otávio e Lulu, uma festa tão incrível que se a gente pudesse, estaria lá até hoje. Pudemos fazer trabalho voluntário juntos de novo, assoprar as velhinhas com nosso sobrinho Naruto que já completava 4 aninhos, e também compartilhar da alegria do meu irmão mais velho completar 40 anos em grande estilo, onde unimos todas as famílias numa pista de dança só pra comemorar do jeitinho que ele merece. No fim da noite a única pessoa sóbria da festa tinha a missão de ir de valinhos a campinas e foi parar em Jundiaí, mas não vou contar quem foi.





E pra nossa despedida, uma mini viagem pro litoral onde fomos testemunhar mais uma união a beira do mar: Cheila e Lugano. Nem a chuva atrapalhou a vibe daquela noite onde o Príncipe dançou até com a vó da noiva. No dia seguinte, fomos curar a ressaca com banho de mar. Numa praia bem vazia. De repente sentimos o mundo gigante. E a gente bem pequenininho dentro dele. Aquele silêncio falava tanto. Era a bendita da distância se metendo entre a gente mais uma vez. Ele me abraçou, e ficamos ali um tempão, só deixando o vai e vem das ondas embalar as lágrimas da despedida iminente.



No aeroporto, a gente jurou que não ia chorar. Ele embarcava 7 de Novembro e no Natal estaria de volta. Não íamos nem sentir, né? AHAM!!!


A gente esquece do bendito portal mágico ao avistar o portão de embarque, é uma praga.

- Você merece essa oportunidade. Faça valer a pena, ok? - eu disse dentro do meu abraço favorito no mundo.

- A gente dá conta - ele respondeu.

Olhei nos olhos dele.

- Corredor da Coca, lembra? - Ele sorriu beijando a aliança prata no meu dedo.

E foi.

 


E até que o primeiro mês passou rápido. Fim de ano na Agência, eu mal tinha tempo de respirar. Ele num emprego novo, precisando resolver burocracia alemã (que alguns anos mais tarde eu vim entender do que se trata kkk) também tinha pouco tempo pra sentir. Doía quando a cabeça deitava de frente pra um travesseiro vazio. Mas a gente ia contando os segundos pra se ver de novo e se agarrava na data do reencontro. Pra dar mais uma motivação, Daddy e eu achamos uma passagem mega promocional pra Alemanha em 2017. Sem nem pensar compramos, e já tínhamos data pra visitar o príncipe na terra da batata e da cerveja quente. Um mês de cada vez, a gente seguia confiante. Quando ele finalmente voltou pra passar o Natal, Ano novo e dia de Reis com a gente, as pessoas brincavam: “assim é fácil namorar a distância”. E eu ria educadamente por fora, xingando educadamente por dentro. Eu sabia que tinha muita gente que nos achava loucos por insistir naquilo. Abrir mão de tanto, eu e ele. Segurar uma saudade dolorida. Se abster da presença, pra que ambos possam investir em seus sonhos, e ainda assim, sonhar juntos. Parece loucura demais mesmo. O que me faz pensar se não é isso que falta nas histórias de amor que acabam cedo demais.

Pra fechar o ano, o Príncipe (mancomunado com Lulu&Otávio) me deu de presente, futuro. Esperança. Promessa. Família. Mas tudo isso numa caixa média de presente. De dentro saltou uma bolinha peluda, branca e preta e de dentinhos afiados. Lambendo cada centímetro do meu rosto e do meu bico gigante de choro. No pescoço ele tinha uma plaquinha escrito “Fera”.

- Você é a Bela, ele é o Fera - ele disse.

- E você o Príncipe mais perfeito que eu podia pedir pra Deus - eu completei. 



Nos despedimos de 2016 em família. Cheios de esperança pra encarar mais uma aventura da nossa doida história de amor. Não vou dar spoiler, mas eu garanto que o final é inesquecível.



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