2A TEMPORADA - Capítulo VIII
O ano é 2015.
De volta em Chicago, o peso de me sentir uma “fora da lei” triplicou. Eu andava na rua me sentindo perseguida. E a cada noite, um pesadelo diferente. Logo na primeira semana de volta, a Ashley tinha marcado um jantar para que eles conhecessem o Gui. Aproveitamos pra entregar a lembrancinha que havíamos comprado para o Mickey na Disney que era, nada mais, nada menos, que um figurino completo do Mickey com um uma mini pelúcia do Pluto. Tinha como não comprar? Não tinha!!! E como era de se esperar, se tratando da família incrível que eram, o jantar foi uma delícia, com muita risada e espanto com a nossa história de reencontro. Não tive coragem de contar pra eles sobre meus visto naquela noite perfeita demais.
Na semana seguinte, buscamos algumas possíveis soluções pra tentar estender o visto. Mas em todas elas, havia o enorme risco de eu precisar ficar um tempo ilegal no País. E essa não era uma opção pra mim. Liguei pros meus pais aos prantos, explicando tudo o que tinha acontecido, desde a salinha da imigração até a falta de opções que me ocorria.
- Volta pra casa, filha- eles disseram.
E é meio doido quando a gente tem uma boa relação com os pais, e eles representam o que há de mais seguro na nossa vida, né? Aquela conversa me deu uma sensação de segurança inexplicável. De ter pra onde voltar, sem me envergonhar, com muito amor e proteção pra mim.
Oh!!! Até arrepia!!!
Depois disso, expliquei tudo pra Ashley, e ela, militante que é, passou uma semana consultando advogados e ativistas pra me ajudar a reverter a situação. Além de se sentir 100% culpada por ter me feito ir pro Brasil e no fim ela mesmo não ter ido. Daquelas pessoas raras mesmo que Deus escolhe a dedo pra colocar no nosso caminho. Quando todo mundo se conformou com a mudança de planos e que eu tinha mais 3 semanas de Chicago apenas, passamos para a fase de aproveitar cada segundo enquanto tentava enfiar tudo na mala de volta pro Brasil. Aproveitei também para marcar minha passagem pra chegar um dia antes do tão esperado aniversário de 60 anos do Daddy. Eu tinha mandado produzir um Backdrop temático, com uma imagem minha em tamanho real, pra me fazer presente de alguma forma de surpresa pra ele. Mas se eu tinha a oportunidade de estar lá em carne, osso e costelinhas (como minha mãe gosta de brincar) ao invés de só demandar as tarefas pra Runi executar, porque não, né?
Dali pra frente foi um emaranhado de eventos, quarto bagunçado, nó na garganta e saudade antecipada. Curtimos um típico Halloween americano com as fantasias que sobraram por menos de 50 dólalis. Comemos quase todos os dias nos restaurantes preferidos. O Príncipe me comprou tudo o mais que era possível da Disney (na loja oficial, ou no aLIEXPRESS, tanto faz). Comprei finalmente meu primeiro iPhone 0km com o dinheirinho que juntei. E revezamos todas as noites entre quem chorava e quem consolava o outro na hora de dormir. O medo de viver a distância de novo já tinha nos alcançados. O poucos 2 meses no começo do ano não tinham sido lá muito encorajadores se é que todo mundo se recorda. Dessa vez, seriam 4 meses até o Príncipe retornar pro Brasil. No meio disso ia ter Natal e aniversário dele. A quentura ia subindo pela garganta só de imaginar.
- A gente dá conta, né? - perguntei.
- Claro que damos. Corredor da Coca-cola, lembra? -ele respondia.
No meu último dia como babá do Mickey, levei uma cartinha pra que a Ashley entregasse pra ele quando ele fosse mais velho. Nela eu contei quem eu era, e como era especial o que vivemos juntos. Na carta eu também registrei o tamanho da sorte que ele tinha por ter uma família tão especial. De todas as lições que levei dessa experiência, a mais especial delas foi quando numa conversa sobre as doideiras e crueldades do mundo, Ashley e eu discutíamos sobre os cenários que Mickey poderia encontrar se, por exemplo, fosse gay. Naquele dia ela me disse: “Só me importa que eles seja bom com as pessoas, de resto, ele pode ser e fazer o que quiser e o fizer feliz. Mas que seja bom com as pessoas”. Eu guardei isso a sete chaves no meu coração e reforcei isso na cartinha do Mickey, que ela leu aos prantos. Todos os dias, quando ela chegava do trabalho, Mickey praticava pulava do meu colo para o dela. Mas naquele último dia, ele se recusou a sair do meu. E eu me agarrei nele até o último segundo que pude. E quando o segundo final passou, ele abriu o berreiro ao ir contra sua vontade pros braços da mãe.
- Ele já sentiu que você não vai voltar - Ashley disse assustada.
Eu nem conseguia responder.
Por um momento considerei cancelar tudo e viver ilegalmente pra sempre grudadinha no meu melhor amigo. Mas dei um abraço apertado neles, e fui embora. Cheguei no bar onde seria minha despedida do Bonde da Feletti com o rosto inchado pronta pra enxugar no álcool. E ali eu também percebi que sentiria falta daqueles malucos nos meus finais de semana. Na nossa última noite juntos, talvez pra evitar que a gente dormisse abraçados entre lágrimas, o Príncipe passou horas me aporrinhando com o snapchat na minha cara até enfim, pegarmos no sono.
É isso, chegou o dia da despedida oficial. Ou assim pensamos. Ao chegar no portão de embarque ainda chorando, fui avisada que o avião tinha decolado mais cedo. Me chamaram no alto-falante e como não respondi, perdi o voo. Que? Pois é. Daí foi um caos pra achar uma alternativa, um outro voo pra me levar a tempo de fazer a escala pro voo que me levaria pro Brasil à tempo do aniversário do Daddy. Nada. Entrei num desespero tão surreal, chorava tanto, inconformada que, mesmo depois de tudo, eu ainda ia perder a festa do meu paizinho. Mas como Deus cuida da gente o tempo todo, logo ele enviou um anjo. A Mônica era brasileira e gerente da cia aérea. Praticamente me pegou no colo e me levou pra sala dela pra resolver meu problema. Infelizmente, eu só conseguiria embarcar no dia seguinte mesmo, mas ao invés de fazer escala, faria um voo direto, desembarcaria direto em Campinas, e não teria custo extra algum. A empatia e o cuidado que ela dedicou a mim ficaram pra sempre guardados na minha história, e claro, fiz questão de agradecer publica e formalmente depois. Não satisfeita, vendo que eu já esperava há horas por um taxi pra voltar pra casa, ela me colocou no carro dela e me levou de volta pro Gui. Que também a agradeceu infinitamente pelo cuidado que teve comigo. Liguei chorando pro meu pai explicando que eu não chegaria a tempo.
- Foi livramento, filha. No domingo brindamos juntos- ele dizia.
E naquela segunda última noite que tivemos, Príncipe e eu dividimos um último Five Guys, e deitamos em silêncio e agarradinhos. Era como se, de alguma forma, já estivéssemos vivendo a distância que nos alcançava, então não tinha mais clima pra brincar.
- Vai ser difícil dormir sem abraçar você aqui -ele disse.
E isso foi o que me fez deixar pra trás, de surpresa, minha pelúcia do Sully. Pra que o vazio não fosse tão grande na noite seguinte.
Na segunda tentativa deu tudo certo. Oficialmente nossa 3a despedida. Embarquei no avião a tempo e troquei as últimas mensagens com ele: “Vai dar tudo certo”. Ele respondeu com uma foto abraçado ao Sully, com os olhinhos azuis marejados. “Já deu. Estamos juntos”. Me agarrei naquilo e dormi a viagem toda. Quando desembarquei, não encontrei de cara o Daddy me esperando. Isso porque ele estava uns minutinhos atrasado e, no desespero de atravessar o estacionamento, trupicou, caiu e se ralou todo. É mole?! kkkk
Mas passou bem! Cheguei em casa com um amontoado de família remanescente da festa do dia anterior pra me receber. Apesar daquele pedaço vazio me sufocando, era bom estar em casa. A sensação de pertencimento não tem preço. Eu não tinha mais aquele medo de sair da rua e ser considerada “fora da lei”. Ali era meu lugar. E eu não via a hora de ter o amor da minha vida ali comigo, no nosso País, onde deveríamos construir nossa vida juntos. E em pouco tempo, mesmo sem emprego (ou perspectiva de), eu precisei de poucos dias pra me acostumar de volta. Só de ter minhas duas cachorras de novo, o mundo tinha outra cor. Só faltava o azul dinamarquês com amarelo ouro degradê do Príncipe pra ficar perfeito.
Pelo menos era o que eu achava. Mas na semana seguinte chegou nosso plot twist. Descobri, por acaso, que meus pais, meu casal inspiração pra quem eu olhava e admirava o quanto eram perfeitos um pro outro, estavam se separando. E ainda faltavam 3 meses e 3 semanas pro Guilherme voltar. E eu nem sei direito como finalizar esse capítulo porque foi assim mesmo que ficamos, cada um em um continente: sem chão e sem palavras. Afinal, o que vinha pela frente era um completo breu.












Comentários
Postar um comentário