2A TEMPORADA - Capítulo VI
O ano é 2015.
Até chegarmos no hotel, fiquei anestesiada com o episódio da salinha. Mas quando finalmente entramos no quarto, desabei. Soluçava e tremia sem conseguir explicar direito pro Gui tudo o que tinha acontecido. Sei que eu não estava exatamente fazendo o processo certo do visto, mas eu não estava mentindo quando dizia que não pretendia morar ilegalmente no País, e aquela experiência fez eu me sentir como se fosse uma traficante de primeira linha querendo escravizar criancinhas e fugir com o dinheiro para as Maldivas.
Até chegarmos no hotel, fiquei anestesiada com o episódio da salinha. Mas quando finalmente entramos no quarto, desabei. Soluçava e tremia sem conseguir explicar direito pro Gui tudo o que tinha acontecido. Sei que eu não estava exatamente fazendo o processo certo do visto, mas eu não estava mentindo quando dizia que não pretendia morar ilegalmente no País, e aquela experiência fez eu me sentir como se fosse uma traficante de primeira linha querendo escravizar criancinhas e fugir com o dinheiro para as Maldivas.
- Calma, vamos dar um jeito - o Príncipe dizia.
- Me sinto uma fugitiva da polícia - eu me encolhia.
- Tenta focar agora na viagem e nos parques, depois pensamos nesses detalhes”- ele insistia enquanto me abraçava apertado.
E ali dentro do meu lugar seguro, eu sabia que não tinha nada que pudesse ser feito pra reverter o meu veredito. Mas sabia também que ele tinha razão, eu não podia deixar aquilo atrapalhar a realização daquele sonho. E, de certa forma, eu consegui. Durante os 4 dias que ficamos lá, chorei só de emoção. Mas tive pesadelo com o policial brutamontes todas as noites, sem exceção. Então vou contar aqui só a parte boa, combi?
A primeira parte marcante da viagem foi poder acompanhar meu irmão mais velho, Rudolph, e minha cunhada e sobrinha, Hermine e Duda, em sua primeira viagem fora do Brasil. Tudo era novidade e motivo de risada ou emoção. Quando comecei a estudar inglês, lá em 2007, Rudolph estudava comigo na mesma sala. Apesar das vergonhas que ele me fazia passar em sala de aula, por sempre ter sido muito palhaço, estudávamos juntos para as provas e nos apoiávamos muito. Ele é 16 anos mais velho que eu, e saiu de casa muito cedo. Então foi nessa época que começamos a nos conectar mais na nossa relação de irmãos. Eu sabia o quanto ele ralou pra chegar até ali, se virando no inglês e fazendo uma viagem dos sonhos com a família (mesmo sentindo que faltava parte de si, já que o filho mais velho, Simba, não estava junto).
E ele também é chorão como eu, então já dá pra imaginar, né? Visitamos o famoso restaurante Hooters na primeira noite, e depois o tão sonhado Wallmart -onde garantimos nossas tiarinhas da Minnie num precinho mais camarada do que seria dentro do parque. No primeiro dia, nos dividimos. Eu e o Príncipe fomos para o Epcot e Rudolph, Hermine e Duda foram passar o dia em Winter Park, uma cidadezinha ali perto. O Epcot tem uma pegada mais futurista, então foi mais tranquilo pra dar tempo pro Gui aquecer e entrar no ritmo da nossa euforia quando chegássemos nos castelos das princesas e do Harry Potter. Ele não cresceu ouvindo histórias da Disney como eu, lembram? Nem leu todos os livros do Harry Potter e assistiu todos os filmes mais de 100x, nem chorou com a morte do Dobby em cada uma delas como eu e minha família. Ele gostava muito de Toy Story e Star Wars mas num nível mais equilibrado.
Quem trouxe ele pra lavagem cerebral foi eu (de nada!!!). E já no Epcot deu pra entender que aquele mundo mágico era incrível mesmo. Qualquer atendimento era impecável. Toda atração tinha um propósito incrível por trás, fora a volta ao mundo que o Parque dá, com áreas recriando países do mundo todo, com arquitetura, música e comida típica! E pra fechar, o show de fogos no lago do fim do dia era simplesmente inexplicável. O rei leão aparecia projetado na água NO MEIO DO LAGO, GENTE! Surreal.
Se você foi, e não chorou, você foi errado, desculpa.
Foi lá também que eu conheci o Mickey e a Minnie pela primeira vez. E na fila eu já me sentia uma menina de 10 anos de novo. O frio na barriga era real. E quando ele me abraçou, e fingiu que o Gui não estava ali e que fugiria comigo, eu pensei seriamente em trocar o Príncipe, pelo rato. Mas depois o Príncipe deu o troco ao tirar uma selfie nossa de polaroid (veja o resultado na imagem). Depois, foi a vez do Gui virar criança na atração do Star Wars, e ainda se divertir na lojinha querendo levar tudo e imitando o Chewie. Por onde a gente andava, tinha algum personagem estampado. No jardim, na parede, no chão, no poste, no lago, tudo! Ali, o Gui entendeu que o ratinho não tava pra brincadeira não.
No dia seguinte, era a vez de Harry Potter. E já no caminho, Hermine contava todos os detalhes que ela sabia do parque pra nos preparar. Mas eu disse to-dos-os-de-ta-lhes-mes-mo. Eu e o Gui tínhamos só aquele dia pra ir no parque da Universal e no Island of Adventure (que são os dois parque ligados pelo Expresso Hogwarts e ambos têm atrações do HP -entre outras). O plano era chegar no da Universal, pegar o Expresso Hogwarts, fazer as atrações principais do Island, e pegar o trem de volta pra terminar o da Universal. Foi o que fizemos, porque logo na entrada do parque, demos de cara com o Nôitibus roxo, a casa do Sirius (com o Monstro aparecendo na janela) e a entrada da estação King’s Cross. Gente, nós somos #potterheads real. Ali eu já tava chorando. Mal vimos o restante o que tinha em volta só queríamos embarcar logo na plataforma 9 3/4. A viagem no trem é tão surreal de realista, que eu pude sentir minha alma ficando gelada quando os dementadores embarcaram no trem. Eu só pensava em como eu queria meus outros irmãos lá com a gente pra dividir aquela experiência inesquecível. De lá, tive outra crise de choro quando desembarcamos de frente com Hogsmeade. As casinhas cobertas de neve, as vitrines todas em movimento, vendendo animais fantásticos, livros de magia, uniformes escolares e, finalmente, a loja de varinhas do Olivaras.
Lá, eles recriam EXATAMENTE a cena quando o Harry compra sua primeira varinha, e um dos visitantes tem a sorte de fazer o papel do pequeno bruxo. Ainda bem que eu não fui escolhida, porque eu ia abrir o berreiro com plateia. Quando é a varinha escolhida, vem o vento, a luz e a música e o meu bicão de desacreditada que eu estava vivendo tudo aquilo igualzinho ao filme afffmaria! Claro que eu saí de lá com a varinha do meu personagem preferido (Severo Snape), pra fazer meus feitiços pelo parque. E foi lá também que tomamos uma cerveja amanteigada pra brindar o momento. Fizemos alguns feitiços pelo parque (eu fiz muitos, Rudolph só sacudia a varinha e nada funcionava, tenho provas), fomos na antiga montanha-russa do Hipogrifo (Bicuço, pros íntimos), no simulador 3D ajudar o trio de bruxos a pegar Aquele-que-não-deve-ser-nomeado, no simulador da fuga do banco Gringotes e na loja dos irmãos Weasley comprar um sapo de chocolate e os feijõezinhos de todos os sabores. Era tudo MUITO real. Até o calor do fogo que o dragão branco fugindo do banco e cada um dos duendes trabalhando lá dentro.
Mas uma das cenas que mais me marcou, foi quando vimos uma pequena apresentação no meio do parque, dos alunos da Durmstrang e das alunas da Beauxbatons. No momento em que elas passaram por nós, abrindo os braços delicadamente e soltando aquele suspiro uníssono de forma IDÊNTICA ao filme, eu desmanchei.
Bom, lá pelas 16h30, resolvemos voltar pra Universal. Mas quando chegamos na entrada da estação, estava fechada. Isso porque era outubro, e estava rolando o tradicional Halloween na Universal. E só quem tinha o ingresso especial para o evento poderia voltar pra lá depois das 16h. Como não tinha dinheiro pra isso, perdemos todas as demais atrações do parque e até hoje o Gui sente essa dor RSSSS. Então fomos aproveitar melhor o Island, fazer o quê, né? Quem lembra da roda gigante de Chicago? Pois bem, nem pagando eu vou em montanha russa cabulosa (meu irmão também não era assim tão fã, e eu também tenho provas). O que foi ótimo pra que eles pudessem aproveitar os brinquedos mais radicais, enquanto eu ficava com a Duda no monte de atrações para as crianças que o parque oferecia. Na época, ela me chamava de “Sa” e a gente cantava a música do Patati&Patatá o dia inteiro, sem cansar. Acreditem, eu amava. E guardo essas lembranças com ela com muito carinho no coração. Mas hora ou outra ela cansava, e dormia no carrinho.
E em uma dessas vezes, Gui e Rudolph estavam indo 300x seguidas no Splash, uma montanha-russa aparentemente tranquila e lenta, mas que tem a última queda em 90º no meio do lago. Quem assistia da ponte o carrinho descer, podia ver também a alma de cada passageiro ficando lá em cima perdida. Nunca nessa vida né?
- Agora chega né, gente?-perguntei
- Você tem que ir uma vez, sério! - ele repetia.
- Cadê meu celular? Vou mais uma vez e tentar filmar- ele inventou.
Cadê o bendito celular?
Tava no carrinho.
Sumiu.
- Tava carregando no carregador móvel aqui- eu lembrei já em desespero.
Era o primeiro iPhone 0km do menino, e perder ele significava usar o dinheiro que eu tinha guardado pra comprar o meu novo (que o antigo quebrou no Brasil, lembram?), pra comprar outro pra ele. Esvaziamos o carrinho, as mochilas, acordamos a Duda, rodamos o parque inteiro, nada. Eu já estava em prantos. O Príncipe mudo, porque nunca que ele ia fazer eu me sentir mais culpada, mas completamente desolado. Resolvemos ir no achados e perdidos por desencargo. A hora que a moça me entregou o celular, eu desabei no chão chorando, quase atravessei o balcão pra tascar um beijo nela. O carregador móvel tinha sumido, mas lá estava o iPhone, carregado e com o fio ainda plugado. O dia acabou e começou de novo naquele intervalo de 40min.
- Agora você vai ter que ir comigo na Splash!
Hermine tinha cedido e ido a última vez, e também me encorajou. Acho que foi a adrenalina de não ter que gastar os dólalis que a gente não tinha em um celular novo, que eu topei. Fomos eu, Príncipe e Hermine. Não sei se é melhor ou pior, mas durante o percurso todo o barquinho vai bem devagar, mas você percebe que está sempre subindo, e antes da última queda, tem uma descida pra aquecer. E, por mim, podia parar por ali mesmo. De repente, não dava pra ver mais nada na frente do barco além do céu. Desceu.
Splash!!!
Meu berro parou no meio, no exato momento que a minha alma ficou lá em cima, no mesmo lugar onde vi a das outras pessoas pararem antes. Quando acabou, o Príncipe ria da minha cara de destroçada. Saí em silêncio. Sem ter certeza que conseguia sentir minhas pernas de tanto que tremiam. Quando já tínhamos nos afastados das outras pessoas, não consegui mais segurar.
Bicão formado.
- O que aconteceu? - perguntou o Príncipe.
- Nunca mais faz eu ir nessas coisas -eu disse antes de abrir o berreiro.
Ele ficou num misto de gargalhada, com dó. Minha cunhada quando viu a cena correu pra não rir na minha frente. EU NÃO CONSEGUIA ANDAR DIREITO DE TÃO ABALADA GENTE!!! QUE BRINQUEDO DO CAPIROTO É AQUELE?! NUNCA MAIS!!! Até hoje quando lembro desse episódio, o Gui comenta: “Caraca você chorou real mesmo né” e depois cai na gargalhada. A noite fomos jantar no KFC. Nos empolgamos tanto no balde de frango que sobrou até pra gente comer de lanche no dia seguinte. A verba tava curta pra ficar almoçando no parque, então fazíamos lanchinhos no pão de forma com frios para levar. E o lanche do dia seguinte seria caprichado. E apesar do cansaço exaustivo de um dia todo no parque, não conseguíamos conter a ansiedade pro dia seguinte. Finalmente, Magic Kingdom. E eu tenho tanto pra falar (e pra mostrar!) da magia daquele lugar, que esse vai ficar pro próximo capítulo.











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