2A TEMPORADA - Capítulo IX
O ano é 2015.
O fim do ano foi… atrapalhado. Ao mesmo tempo em que eu voltava para a minha vida, meus amigos, minha família e meu lugar no mundo, tava tudo meio que desmoronando ao meu redor. A gente fala desmoronar quando tá no meio do furacão mesmo, faz parte. Hoje eu consigo enxergar com clareza que foi apenas uma mudança de cenário. Que pro novo se estabelecer, o antigo precisava dar espaço, deixar ir, se adaptar. Então eu revezava as risadas e o conforto dos reencontros, com os apertos do meu drama familiar. E ali eu entendi o propósito de toda a confusão que me fez voltar meses antes pro Brasil: meus pais precisavam de mim. A gente precisava um do outro pra passar por essa barra. Eu precisava estar em casa.
Mas era muito difícil viver tudo aquilo sem o Gui. E eu preciso dizer, ele foi impecável nessa fase. Muitas vezes, eu explodia, irracionalmente. Completamente desequilibrada, inclusive culpando-o por uma lista de coisas as quais ele não tinha a menor responsabilidade. Além de somar com o RANÇO de uma namoro separado por um oceano e realidades completamente diferentes. Tinha dia que eu simplesmente o deixava falando sozinho, e ia dormir. Outros eu tinha zero paciência pra fingir que achava graça numa piada que era preciso estar lá pra entender.
Ô porre!!!
E ele aguentou.
Muitas vezes calado. Ciente do meu estado de vulnerabilidade. Ele sabia que eu hora ou outra eu ia explodir. E ele aguentava o que viesse. Ele sabia que precisava ser rocha naquele momento. Passei muitas noites culpando-o por ele estar tão longe, num momento tão difícil na minha vida. Joguei pragas e maldições naquela bendita empresa a quem ele dedicava a vida. E sufoquei muitas vezes. Me sentindo completamente impotente, e desamparada. Eu precisava ser rocha durante o dia. E na hora de dormir, não tinha colo pra mim. Malemá uma conversa truncada de whatsapp, da qual eu já tinha zero paciência pra sustentar. Foram dias… atrapalhados.
Mas o show tem que continuar, né? Lembro como isso me marcou na época. O resto do mundo não pára, nem quando o seu está em terremoto. Nos resta criar coragem pra sair da cama de manhã, e aprender a dançar um ritmo novo, todos os dias. À distância, terminamos o TCC dele. Depois de revisar aquelas trocentas páginas umas 20 vezes, ele enviou para a faculdade. À distância, mas brindamos. Também à distância nos viramos pra curtir o Natal. Ele de volta no frio congelante de Chicago, com o bonde da Feletti. Eu no calorzão de São Paulo, reencontramos minhas primas, grudada nos meu pitucos, com muito churrasco e Ecobier. O fim de 2015 me deixou em conflito, se eu agradecia pela experiência mais incrível (e romântica) da minha vida, ou se eu pedia pra passar logo e levar embora o gostinho amargo que ele deixou no final.
Daí ele lembrou.
- Cadê a garrafinha da Heineken?
Durante o período que moramos juntos lá em Chicago, certo dia, despretensiosamente, resolvemos fazer de uma garrafinha vazia de Heineken, um depósito de motivos para agradecer. Nem lembro direito de quem exatamente foi a ideia. Mas tenho meu palpite. Durante 7 meses, aleatoriamente, depositávamos lá um papelzinho com algum momento anotado. Eu não sabia o que ele escrevia. E vice-versa. E nesse dia ele sugeriu que fosse um bom momento para abrir e reler alguns versinhos de gratidão. Peguei um. Coincidentemente (mesmo que isso não exista), retirei o primeiro papelzinho que eu anotei e coloquei lá dentro.
Dizia: “Reencontrar aquele que nasceu pra mim, você.”
E deu pra sentir o coração quentinho, confortando a exaustão interna.
- Tira outro, vamos ver se sai um meu - ele disse.
Puxei mais um.
Quando li, travei.
Não consegui explicar, e transbordei. Ele só entendeu quando eu mandei uma foto mostrando o conteúdo do papelzinho.
“Reencontrar o verdadeiro amor da minha vida”
E transbordou do lado de lá também. Dormimos mais conectados aquela noite. E nos despedimos de 2015 em paz. Gratos. Mas ansiosos pela renovação que 2016 nos prometia.
Mas como eu sempre digo, esse é um conto de fadas real. E com a partida de 2015, minha mãe também se mudou de casa. E enfim, éramos eu e Daddy. Pituxa e Fiona (as cachorras). Foi uma fase louca de conexão entre eu e meu paizinho. E de transformação da minha relação com a minha mãezinha. Apesar da circunstância não ser das melhores, hoje eu enxergo o propósito de cada etapa que vivemos e superamos juntos. A vida é muito doida, gente. É preciso reparar nos detalhes. E com o dia de Reis se aproximando, o Príncipe se preparava para uma viagem express ` nada mais nada menos que Nova Iorque. Chique. Reservou o hostel, garantiu a passagem barateza e a folga no trabalho. Ele e Jevane foram conhecer a cidade mais cinematográfica dos filmes clássicos de Natal. Como eu já sabia que não estaria com eles nessa data, separei parte dos dólalis que juntei trabalhando como babá, e deixei com os migos para comprarem por mim um presente de niver que o Príncipe merecia. O primeiro AppleWatch dele. Quando ele me ligou direto da Times Square desacreditado do presente, minha resposta foi: “Você merece”. E duvido que alguém ouse discordar.
Aos poucos, as coisas foram se movimentando. Lembram da empresa dos meus sonhos? Aquela que eu abandonei 3 meses após finalmente ser efetivada? Me chamou de volta. SIM! Pra um projeto completamente novo. Que eu nunca tinha ouvido falar. Mas fez sentido na minha alma desde o primeiro momento que ouvi a proposta. Era nisso que eu queria fazer carreira. E junto com a Boss, construiríamos algo muito especial. O projeto mais especial da minha carreira, sem dúvidas. Eu estava animada com a perspectiva que se erguia pra mim. Junto com ela, a contagem regressiva do nosso reencontro diminuía. Antes de deixar Chicago ele ainda fez uma viagem dos migos para Las Vegas e na época eu começava a entender sobre a verdadeira diferença entre ciúmes e falta de confiança. Lembro porque as pessoas ficavam chocadas quando eu contava que o Gui estava em Las Vegas com os amigos, e eu não entendia o espanto. Lembro também de sentir aquele laço de confiança significava pra mim muito mais do que qualquer um pudesse entender. Ainda antes de voltar, ele foi se despedir do Mickey por mim. Mais uma vez. E saiu de lá com a data da viagem da Ashley pro Brasil remarcada. Nos veríamos em breve.
Na reta final, ele precisou lidar com muito medo e insegurança quanto ao emprego. Não tinha vaga efetiva pra ele no Brasil, e pra ser sincero rolou uma proposta pra ele ir pra Shangai que ele nem teve coragem de me contar na época. Ele não queria perder o vínculo com a empresa dos sonhos dele. Mas a situação econômica do País não favorecia. E o ambiente social do namoro também não né? Entre um furacão e outro, ele mal se sentia no direito de reclamar de algo perto das barras que eu enfrentava em casa. Mas enfim ele acabou conseguindo um cargo na filial do Brasil. Não era o ideal, mas pelo menos ele não saía do projeto em que trabalhava e nem perderia o vínculo com a empresa. E decidimos viver um dia de cada vez. Próximo passo: comprar a passagem de volta.
Quando esse momento chegou, o Príncipe inaugurou oficialmente a tradição de fazer reencontros surpresas. Ele chegaria em 30.02 a noite. Mas contou pra família que chegaria dia 04.03. Falsificou bilhete e tudo. No dia 01.03 Eu e Daddy tínhamos um jantar marcado nos meus sogros. Levaríamos a Pizza e a surpresa em carne e osso. No portão de desembarque eu me dei conta que foram 4 meses longe. Num cenário caótico. Tinha um misto de saudade com “será que a gente sabe namorar presencialmente de novo?”. Porque deixa eu contar outra verdade sobre o relacionamento à distância: a distância acostuma. Você se habitua com sua liberdade de fazer o que bem entender, sem ter que alinhar compromissos, dividir tempo, atenção. E eu me acostumei principalmente com meus momentos em silêncio. E o Guilherme não faz o tipo quietinho, né? Mas enfim, fiquei lá naquele saguão de embarque angustiada sem saber ler direito o que fazia meu coração errar as batidas. Passou mais de 1h30 do desembarque, nada do menino aparecer. Aí as batidas descompassadas já deviam ser de medo de que algo tinha dado errado. #traumas.
E quando ele finalmente apareceu, o barulhinho da máquina ficou uníssono. Eu não sabia responder por mim. Era como se o aeroporto todo tivesse sido esvaziado, e só restava nós dois ali. Finalmente reunidos. Num silêncio interrompido pelo meu choro alto (saco!). Parecia ímã a minha pele na dele, calor e frio ao mesmo tempo. E eu posso provar o meu estado de êxtase: ele enfiou a mão no meu cabelo sem medo, o chacoalhou com dedicação, e eu nem reclamei. No dia seguinte, fomos executar a segunda parte do plano. Estacionamos o carro na frente do prédio dos Rocasogros, como de costume. A hora que o Guilherme botou a cara rua, quem dá um berro lá da janela do 4º andar?! Isso mesmo, a Rocamãecoruja. SENTIU O CHEIRO DA CRIA. E estragou a surpresa. Ficamos passados lá embaixo, esperando ela descer igual tratou pra agarrar o menino. Não veio. Ficamos preocupados que talvez ela tivesse desmaiado, e subimos KKKK Pelo menos a surpresa do Topã, não falhou! Quando ele chegou em casa deu tela azul ao ver o irmão na sala. E Rocasogra chorou novamente ao ter finalmente os dois filhotes abraçados mais uma vez.
A rotina de volta no Brasil foi se estabelecendo aos poucos. Era estranho namorar com casas separadas de novo. Eu odiava ficar fazendo mala pra dormir uns dias na casa dele. Cada hora eu esquecia um sapato ou o carregador do celular. Logo ele voltou pra faculdade pra cumprir o último semestre presencial. E eu embalei no trabalho, completamente apaixonada pela carreira que eu estava construindo. Trabalhava 15h a mais por semana, mas dormia com um sorriso no rosto e uma sensação impagável de estar no caminho certo. Comprei meu primeiro carro, um celtinha branco semi novo, o qual o Príncipe batizou de John Snow, porque GoT era seu novo vício. Nessa época foi quando meus amigos viraram nossos amigos. E vice versa. Tivemos muitos finais de semana no Vaticano brasileiro com churrasco, cerveja e comida de vó. Muitos domingos de sofá, pipoca e as doguinhas. Vimos os avós dele completarem 50 anos de casados e pensamos “meta de relacionamento”. E àquela altura, parecia uma meta simples de atingir. Estávamos juntos depois de tanto. No trabalho dele a situação ainda era incerta. E a posição atual era, com certeza provisória. Eu só orava pra Deus trazer a melhor proposta pra ele.
“Mas que de preferência, assim sem querer abusar sabe Deus, aqui no Brasil ta? Brigada Amém”.
Mas a gente sabe da distância que existe entre o que a gente acha que é o melhor pra gente, e o que de fato foi feito pra gente, não é mesmo? E eu nem imaginava o que vinha pela frente.










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