3A TEMPORADA - Capítulo III



O ano é 2017.
10 de Setembro.
Desembarquei por volta das 8h no aeroporto de Guarulhos (SP) e o Daddy estava atrasado. Eu estava exausta e já morrendo de saudades do Príncipe que larguei do outro lado do oceano. Com a diferença do fuso, ele já estava no horário de almoço e falando comigo. De volta pro Whatsapp. Aquela briga eterna entre a vontade de conversar e um ranço descontrolado de ficar digitando ou mandando áudio. Quando Daddy chegou, estava todo atrapalhado. Mas eu não reparei muito.

Vamos parar no Frango Assado pra tomar café da manhã - ele disse.
Não me opus.
Apesar de estar quase desesperada pra chegar em casa e dormir.

Depois do que pareceu uma eternidade no restaurante, voltamos pra estrada. Mandei mensagem avisando o Príncipe, minha mãe e meus sogros.

“Gui mas a Rá vai chegar às 9h, ninguém vai ter chego pra festa ainda”- Foi a mensagem que Rocasogro mandou no nosso grupo.
Seguida de 897 mensagens do Guilherme:
“AAAA RAAAA QUE SAUDADEEE VOLTAAA RAAAA EUUUUUU TEEEE AMOOOO TCHUUURUUURUUU” + uma sequência infinita de fotos da viagem.

Eu AMO surpresas. Mas se Rocasogro tem um dom, é o de deixar o segredo escapar nos 45” do 2° tempo. Entendi então a enrolação do Daddy e, apesar do efeito surpresa abalado, me senti feliz que algo estava sendo preparado por mim. Isso é o que gosto nas surpresas. As pessoas que te amam se mobilizam pra preparar algo especial por você. É um gesto que aquece meu coração. Aproveitei aquele quentinho que me deu uma trégua no amargo da despedida, e tirei um cochilo no carro, já que, pelo jeito, eu não teria como dormir chegando em casa. 
Quando o portão da garagem abriu, minha família toda, a Rocafamily e a Runi já estavam me esperando junto com uma decoração impecável de uma festa tropical. Que, inclusive, eu sempre quis ter e a Runi sabia muito bem disso. Eu devo ter comentado que Runi&Rayssinha quase virou uma empresa de decoração de festas, né? O dom a gente tinha. A festa estava linda. Até bolo fake decorativo teve. A comemoração dos meus aniversário passou a durar dias depois de reencontrar o Príncipe, e eu amava. #RayssaFaz25 ainda estava vivo (e colorido)!!

Enquanto eu segurava o Fera num braço, cumprimentava as pessoas com o outro, e vi Rocasogro no cantinho com as mãos no rosto apreensivo, esperando sua vez.
Quando me abraçou, sussurrou:
- Filha, fala a verdade, você viu a mensagem? - Aqueles olhões azuis esbugalhados me fitavam quase transbordando. Como que não mente?
- Que mensagem? Dormi quase a viagem inteira de volta no carro - respondi.
- Rá, eu quase estraguei tudo. Você não viu mesmo?- ele insistiu.
- Da surpresa?? KKKKK só você né? Mas fique tranquilo que eu não sabia mesmo!- persisti, e ele respirou aliviado.
Pelo menos até ler esse capítulo.




Os convidados chegaram algumas horas depois e, foi pra fechar as férias com chave de ouro. Minha família e meus melhores amigos reunidos num churrasquinho com pagode. Eu estava em casa. Mas existia um nó que não me permitia mais me sentir completamente em casa. Algo tinha mudado. 
Nosso próximo encontro estava marcado para pouco mais de um mês, em 17 de Outubro, pois seríamos padrinhos de casamento em 21 de Outubro. Não faltava muito. Mas a urgência que eu sentia era diferente. Tudo na minha rotina me incomodava. Como na história da ervilha embaixo do colchão, sabe? Eu não sabia identificar o que era. Mas existia um incômodo insistente nos meus dias. Faltava algo. Ou várias coisas. Perdi o ânimo no trabalho. Aquele tesão de fazer o que eu amava, murchou. Assim como o ânimo pra sair com os amigos sempre sozinha, sem a companhia do Príncipe. Eu amava ter meus momentos sozinha com as amigos, óbvio. Mas TODA vez eu estava sozinha e, muitas vezes, ficava fazendo a ponte pelo whatsapp do que falávamos dele. Um porre.


Comecei a me irritar com coisas simples na casa do Daddy. Tipo o jogo de copos dele ser uma coleção de copos de plásticos promocionais que eu trouxe de festas ao longo dos anos. E, de repente, me bateu: aquela era a casa do Daddy. Por mais que eu infernizasse ele pra mudar a sala e comprar itens novos de cozinha, muita coisa ali era do jeito que era porque ELE gostava (ou não se incomodava). Eu não cabia mais naquele espaço. Daqueles momentos da vida em que a gente se percebe “adulto”. Como eu nunca precisei morar fora (nem tinha condições financeiras pra isso), eu tinha pra mim que mudaria da casa do meu pai quando casasse. Mas não era o caso daquele momento. Pelo menos eu achava que não. Ok eu era adulta suficiente pra querer ter meu cantinho. Mas já era adulta suficiente pra casar? Sim, eu sonhei com esse momento a minha vida inteira. Mas depois da Era Paolo, isso deixou de ser uma obsessão. Uma “linha de chegada”. Eu pensava em casar com o Príncipe? Claro! Mas a gente não falava muito disso e isso não me incomodava. Eu não tinha pressa. E, definitivamente, não queria “casar por casar” como vimos no capítulo I desta temporada. E como a gente vivia naquele cenário de não saber qual seria o rumo da carreira dele no próximo ano, eu nem perdia tempo focando energia nisso. Mas, depois de passar 14 dias com ele, acordando e dormindo junto, viajando pelo lugar mais lindo que já visitei na Terra, e até com programas rotineiros como ir no mercado, preparar um macarrão e jantar no sofá vendo filme na TV, aquela parecia a realidade, e o que eu vivia no Brasil de alguma forma não me vestia mais como antes. Comecei a repassar mentalmente tudo o que vivemos em Santorini. O cuidado e a dedicação que ele demonstrava em tudo o que fazia por mim.
Aquilo me marcou muito. Eu nunca tinha me sentido cuidada daquela forma. “Você sonha, eu realizo” era a dinâmica dele. Mas sem se tratar de um cenário pomposo e mimado. A intenção de cada gesto falava mais alto. Todo o esforço que ele fazia pra construir uma carreira sólida e com grandes perspectivas de crescimento, era por nós. Para construir o NOSSO futuro. Eu, que vinha de uma fase agarradíssima à minha independência financeira e não suportava a ideia de “ser sustentada” pelo parceiro, passei a considerar que num cenário a dois, onde existe respeito e parceria, isso não necessariamente seria ruim. E o que ele mostrou pra mim na nossa última viagem é que eu estava segura. Independente do que viesse, estaríamos juntos. E, no que estivesse a seu alcance, ele faria tudo pra me proporcionar a vida de princesa que eu sempre mereci. Senti nele uma confiança que nunca tinha experienciado na vida. Como se fosse uma confirmação na prática, do novo plano que fizemos em Junho. “Venha o que vier, daremos um jeito, juntos”. Por uma fração de segundos me permiti fantasiar. E se eu largasse tudo e fosse lá morar com ele? Sem emprego. Sem saber falar alemão. TÁ LOUCA?! Bom, não me incomodava mais tanto assim se eu não pudesse ajudar a pagar as contas num primeiro momento. Falar alemão parecia impossível, mas eu também achei que nunca falaria inglês. Mas e meu emprego? Eu amava o que eu fazia e a Agência em que eu trabalhava. Me sentia no auge da minha produtividade e envolvimento. Liderando mil projetos extras às minhas tarefas diárias. Numa rotina insana? Sim. Mas eu amava. Mas, uma chavinha tinha virado ali também. Quando eu voltei de férias, tive muito trabalho pra colocar de volta nos trilhos. E, por um momento, senti preguiça de mergulhar naquilo de novo. Naquele ritmo. Hum… E se eu largasse tudo… TÁ LOUCA?! Varri aquele pensamento pra debaixo do tapete e fingi que ele nunca nem existiu.
    
Naquela época, a Runi trabalhava na mesa do lado da minha. E quase todos os dias passávamos o horário de almoço juntas. Uns 20 dias antes da chegada do Príncipe pro casamento do Chico Bento & Rosinha, eu dirigia de volta pra agência depois de almoçarmos na casa do Daddy. Estávamos num daqueles dias de caos na Agência. Tudo dando errado.
Enquanto a gente desabafava, soltei:
- Vontade de largar tudo, sabe?.
Silêncio. De canto de olho eu podia ver a Runi juntando os lábios pra dentro da boca pra evitar falar o que queria falar.
- Sério, tô começando a cogitar seriamente que o melhor é ir tentar a vida com o Guilherme lá na Alemanha mesmo- continuei mas sem acreditar muito naquilo que eu mesma falava. Sem pretensão.
- Vai ficar muda, Runi?- emendei já estressada com a falta de resposta.
- Eu acho que você devia ir mesmo- ela finalmente desembuchou.
- Quê?!- Exaltei completamente chocada.
- Eu nunca falei nada porque você era completamente incisiva sobre ele ter que voltar e que você jamais, nunca, nunquinha, moraria longe da sua família. Que isso era o absurdo dos absurdos. E eu queria te apoiar. Mas agora que você está cogitando....-Ela juntou os lábios de novo.
Fiquei em silêncio por alguns segundos tentando conter o fogo descontrolado que subia pelo meu estômago. Mas o fato dela confirmar aquilo em voz alta, parecia erguer todos os tapetes ao mesmo tempo e sacudi-los ao vento tornando impossível ignorar aquela virada de jogo dentro de mim.

- Você tá louca. Vou largar tudo, Runi? Pirou, linda- Tentei fugir.
- Amiga, vocês vão construir algo juntos. Você fala inglês, pode conseguir um emprego lá mais rápido do que pensa. É uma oportunidade única poder morar fora. Não só financeiramente falando- ela teimou agora com a língua desenfreada. Minha cabeça estava prestes a explodir. Porque eu tentava conter uma confirmação que dentro de mim já tinha se instalado. Pra minha sorte, chegamos de volta no estacionamento da Agência. E o assunto acabou.
  
Dali dois dias eu tinha terapia. Decidi deixar a ideia de molho até lá. Quando a sessão chegou, eu contei tudo o que agora eu considerava na balança. Como a última viagem tinha me despertado sentimentos intensos e novas percepções sobre o meu relacionamento. Contei que eu me sentia feliz por estar pelo menos mais flexível com a possibilidade do Príncipe não voltar pro Brasil em breve. Porque, apesar de termos um acordo, toda vez que ele queria compartilhar alguma coisa do trabalho, era um assunto delicado. Ele tinha medo de falar de qualquer projeto novo, e eu já concluir que aquilo significava que ele não voltaria pro brasil em um ano. E aquilo gerava uma distância entre a gente muito mais grotesca do que o oceano Atlântico. E contei até do meu diálogo com a Runi no carro dias atrás, sobre a ideia louca de largar tudo e ir pra Alemanha. Quem faz terapia vai entender: essa foi uma daquelas sessões em que a gente fala desenfreadamente, super confiante e certa de que já sabe tudo o que tem que fazer. O terapeuta ouve atentamente e, no final do seu discurso, solta uma frase que faz sua mente explodir por completo.

Quando finalizei, ele sorriu pra mim em silêncio.
- Você sabe que já tomou sua decisão, né?

BOOM!

    Eu quis justificar que não tinha tomado decisão nenhuma, eu hein. Mas essa é a magia da Terapia. Eles plantam a semente certa. E você cresce ela dentro de si. No caminho de consultório até a Agência fiquei refletindo em silêncio profundo. “Se eu não tomei a decisão, o que preciso esperar pra isso?”. Refleti sobre as etapas para aquele plano maluco poder acontecer sem que ninguém desse o passo maior que a perna. “A gente nunca falou seriamente sobre casamento, isso é loucura”. E mesmo nos raros momentos em que eu pensava num futuro de nós dois casados, jamais considerava que isso seria longe da minha família. “Mas os planos mudam, filha”- Lembrei do DaddyYoda dizendo. Passei a manhã quieta refletindo sobre aquela certeza inesperada que se agarrava a cada veia do meu corpo. Não tinha mais o que esperar.

Já era fim de tarde para ele. A gente trocava mensagens enquanto ele fazia compras no centro de Stuttgart.
  
- Andei tendo umas ideias meio doidas- comecei.
- KKKKK que ideias?
- Tava pensando que talvez não faça mais sentido isso tudo.
- Isso tudo o quê? O que você tá falando?- ele tentou entender.
- Acho que cansei da distância- continuei.
- Hum…- ele estremeceu.
- E se eu mudasse aí pra Alemanha com você?- soltei.

BOOM!!

- Rayssa
- Rayssa
- Rayssa
- Não brinca comigo- ele tentava organizar as ideias.
- Eu disse que era uma ideia meio doida-brinquei já sem conseguir conter o sorriso no rosto.
- A gente teria que pensar em como fazer isso, com calma, acho que temos algumas etapas pra discutir…- emendei. Ele sentou num banco na Schlossplatz, a principal praça da cidade. Era outono, então o frio já castigava e o cenário ia do laranja pro cinza, com todas as fontes desligadas depois de um intenso verão.
- Rayssa você tá falando sério?- ele insistiu.
- Sim - decretei.
A seguir veio um dos momentos inesquecíveis que ele registrou nos diários pros futuros filhos: Ele baixou a cabeça em oração, pedindo um sinal pra Deus mostrar se aquele era o caminho certo, se estávamos fazendo a escolha certa. No segundo seguinte, a fonte à sua frente ligou.
    
- Você vem pra Alemanha.
- Eu vou pra Alemanha.



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