3A TEMPORADA - Capítulo II



    Quando desembarquei em Frankfurt, não tinha limusine branca me esperando. Fizemos o trajeto até Stuttgart de trem mesmo. Mas, algo me dizia que aquelas férias seriam especiais. Pela primeira vez, seríamos só Príncipe e eu numa viagem e, pela primeira vez, tínhamos 14 dias de férias, sem um roteiro maluco a seguir pra turistar 20 países em 10 dias. Na época, ele morava em um apartamento muito bem localizado em Stuttgart, 3 min à pé da estação, 2 min do mercado e do melhor Kebab da cidade. Em compensação, era um apartamento muito antigo. No 4° (e último) andar do prédio, sem elevador e com uma escadaria em espiral. A dona do apartamento era uma senhora que rapidamente ganhou o coração do Príncipe. Cada cômodo tinha um papel de parede florido diferente. A quantidade de gatos de porcelana era um pouco assustadora. O pé direito era muito baixo, e o chão do quarto dos fundos era literalmente torto. Mas, de alguma forma, eu me sentia em casa ali, sem saber muito explicar o porquê.
    Naturalmente, poucos minutos depois de abrir a mala, a sala estava tomada pelo furacão rayssa. Eu precisava montar uma malinha menor para a primeira parte da viagem, os 3 primeiros dias em que iríamos para Strassbourg e Colmar que ficavam há poucas horas de carro de Stuttgart. E preciso confessar que uma das primeiras coisas que aprendi no nosso relacionamento é que se eu namoro um guia de viagem, que necessidade tenho eu de ficar pesquisando sobre o destino? Eu estava é ansiosa porque ia dirigir na Autoban pela primeira vez num carro com 6 marchas. Bora!!!
Por outro lado, naquela época, eu não admitia isso pra ele.

    - Você pesquisou coisas pra gente fazer na Mallorca?- ele perguntava.
    - Sim, claro- eu respondia.
    - Você viu sobre as praias de areia preta e vermelha, que legal? - ele trucou.
    - Uhum…- me limitei.
    - Massa que foi eleito o pôr so sol mais bonito do mundo, né?- Ele insistiu.
    Fui no óbvio, né?
    - Sim, achei o máximo!- respondi e tratei de mudar de assunto.

    Pé na estrada e lá fui eu acelerando pro desespero do Príncipe. Achei muito chique dirigir um carro que desliga sozinho no semáforo, e te avisa a hora de trocar a marcha. Mas quando bati 190 km/h e um desses carros mega caros e rápidos (porsche, lamborghini, ferrari, pra mim podia ser qualquer um) passou por mim VO AN DO, desacelerei na hora. Que isso gente?! Tá louco não dá pra competir não. Bora seguir de boinha nos 100 km/h que até o meu celtinha aguentava.
    Strasbourg foi a primeira parada. Uma cidadezinha no sul da França que olha, que coisinha mais linda! Sabe aquela frança romântica, fofa e adorável que a gente imagina quando ouve “La vie en Rose”? É Strasbourg. Não sei se foi a época do ano perfeita que fomos. Fim de verão. Ainda calor. Mas nada exaustivo. Com um clima ameno e uma concorrência menor de turistas. Mas foi um passeio delicioso. De lá, fomos para Colmar. Outro cenário cinematográfico. Mas, dessa vez, de verdade.
    - Reconhece esse lugar?- Ele perguntou quando paramos no meio do que parecia uma pequena vila. Olhei ao redor já ansiosa pela resposta.
    - Aqui foi filmado algumas das cenas da vila da Bela e a Fera- ele revelou.
    Foi automático. Fiquei tão encantada que saí dando piruetas e cantarolando “waking up to say… BONJOUR! BONJOUR BONJOUR BONJOUR!”. Dançamos rindo no meio da rua e como que pra dizer “obrigada, Deus”, mergulhei naquele abraço. Como era forte a sensação de estar onde eu deveria estar. Aquele sentimento energizante que dizia do lado de dentro da pele: “vale à pena”. Toda a distância que a gente suportava. Todas as noites difíceis separados. A falta do beijo, do toque. Ali, afundada naquele abraço, todo o sacrifício era recompensado. Quase como se nem tivesse existido. E contra algumas apostas, a gente seguia, mais forte, mais juntos do que nunca.

    No caminho de volta para Stuttgart, passamos pelo Lago Titisee-Neustadt, na região da Floresta Negra, já em terras alemãs. Um lugar com um lago incrível, terra do relógio cuco, de onde saiu o bolo floresta negra, e cenário de alguns dos contos dos Irmãos Grimm. Rolam também algumas lendas de bruxas e lobos que habitam a densa e escura floresta, mas esse conto de fadas aqui já tem seus próprios monstros, então vamos em frente. A última parada antes de voltar pro apartamento do Príncipe na 13 Olgaek, foi o Burg Hohenzollern. Um castelo surreal. “Comprei pra você”- ele dizia. E é assim toda vez que visitamos um castelo diferente por aí. Afinal, o que seria uma princesa sem um castelo. Pois eu tenho vários. O que acho o máximo desses passeios é que, normalmente, existe uma subida imensa para vencer até o topo, já que a maioria é construída sobre montanhas. Mas você perde o ar mesmo é com a vista, e não o esforço da subida. Das paisagens que não ficam registradas apenas nas fotos. Perduram na alma. 




À noite estávamos em Stuttgart e a missão era organizar em apenas uma mala todos os looks que a B tinha me emprestado pra arrasar na Espanha. Com muito esforço e algumas peças contrabandeadas na mala do Príncipe, consegui. No dia 30 de Agosto, bem cedo, ele já estava de pé, cronometrando cada etapa até sairmos num horário super específico tipo 10h23. Eu, obviamente atrasada, tentando me vestir, escovar o dente e não esquecer o carregador do celular enquanto ele me (irritava) avisava “saímos em 7 min”. A gente ia de metrô até o aeroporto de Stuttgart mesmo, que era mais perto que Frankfurt, mas ainda assim ficava há uns 35min dali. Embarcamos dentro do horário programado, a porta do metrô fechou.


    - Esqueci os euros em cima da mesa.

    Eu nem vou descrever aqui a cara que o Príncipe fez.

    Tentei fazer umas contas mentalmente pra saber se o que eu tinha comigo dariam pra sobreviver, considerando que eu ainda não tinha pago pra ele a minha passagem pra Mallorca. Mas na primeira estação que o metrô parou ele me acelerou.

    - Desce, desce, desce!!! - Desembarcamos com pressa.

    Me acomodei num canto com as malas e ele correu com tudo o que tinha pra pegar um metrô de volta, correr até o apartamento, subir os 72 degraus, pegar meu dinheiro e voltar a tempo de não perder o voo. Quando ele voltou, suado e puto, eu não ousei dar um pio durante todo o trajeto até o aeroporto. O importante era que os ímãs de geladeira estavam salvos.     


    Chegando no aeroporto, ele me puxou rápido para um canto afastado, sacou a gopro, e me entregou um envelope tamanho A4. Estômago eferveceu. 

    - Que isso, Guilherme?- perguntei nervosa.

    - Cuidado que tem uma ordem pra ler- ele se limitou a responder.

    Era um enorme cartão de aniversário. A primeira folha dizia: “Parabéns, meu amor! Seu aniversário já começou. Infelizmente não poderemos comemorar em Mallorca porque lá não tem o pôr do sol mais bonito do mundo…”- já chorei.

    - Mas você nem terminou de ler ainda-Ele ainda se surpreendia.

    Mas o que me emocionava ali não era a revelação da surpresa. E sim o cuidado. O detalhe. O esforço que ele tinha tido pra preparar uma surpresa, seja ela qual fosse! Eu não precisava ir até o final daquele cartão pra entender que o cara por quem eu encarava um namoro à distância era do jeitinho que eu sempre sonhara. Me dava o valor que eu merecia. E se pudesse, me daria o mundo inteiro também. Não tem revelação mais forte do que essa pra alguém que viveu eras de trevas como eu tinha vivido ao lado daquele que nem merece ser nomeado. O conto de fadas era real.

    Página 2: “Porém… Vamos para um lugar que sempre sonhei te levar… Ah, suas passagens aéreas estão pagas, ok? Faz parte do presente…”- chorei alto. Página 3: “Quer saber o destino? Tem sol… Tem praia… Tem eu… e não é Pinhal…”- Ri mas segui chorando num volume crescente. Página final: “Top 10 coisas para fazer em Santorini”.


    - A gente vai pra Grécia- ele finalizou enquanto eu berrava.

    - Para de chorar alto!- Ele deixou escapar.

    Sem sucesso, óbvio. 




Menos de 5h depois, desembarcamos no lugar que nem nos meus maiores sonhos imaginei que um dia iria teria o privilégio de conhecer. A Grécia era o tipo de destino intocável pra mim, sabe? Eu nem me iludia sonhando com essa viagem. E lá estava eu, adicionando mais esse na lista de sonhos realizados. A atmosfera dessa ilha é de outro mundo. Logo nas nossas primeiras horas eu senti que o filme MAMMA MIA! representa perfeitamente aquele cenário. Porque eu só queria andar por ali cantando e dançando “MAMMA MIA HERE WE GO AGAIN!”.

    - Bem falsa você né Rayssa. É de Santorini o pôr do sol mais bonito do mundo- Ele lembrou.

    - E as praias de areia preta?- perguntei.

    - É aqui também- Ele riu.


    Como eu disse, namorando um guia de viagens, pra quê vou eu atrás de roteiro, gente? Eu hein. Mais uma vez, o período era perfeito: baixa temporada de turistas, mas o calor ainda estralando. O que era essencial, já que a temperatura do mar de Creta varia de congelando a inabitável, então só desesperada de calor mesmo que eu conseguia me jogar nas águas cristalinas daquele lugar paradisíaco. Outra coisa essencial também, e que não tínhamos, eram aqueles sapatinhos de água, sabe? Isso porque nas praias, no lugar da areia, são pedras. Às vezes maiores, às vezes menores, e todas as vezes muito assassinas impossível andar sem sapato. Eu acabei sacrificando um teninho que eu tinha, porque precisava dele inclusive pra entrar na água que tinha muita pedra no fundo também.

    A gente tinha 7 dias pela frente.

    E o Príncipe tinha um roteiro todo planejadinho. Os três primeiros dias a gente passaria no sul da ilha, perto de Perissa. Numa pousada modesta, mas uma mini sacadinha de frente pro mar, onde o sol se punha. No dia 02 de Setembro, passaríamos uma noite mais na metade da ilha, em Fira e os últimos 3 dias passaríamos numa segunda pousadinha mais próxima de Ia, no norte da ilha. Alugamos um carrinho pra nos acompanhar durante toda essa aventura de comemorar 25 anos na Grécia. Tudo era encantador. As paisagens, o vento, as cores. As pessoas! Nossa como era contrastante sair do atendimento alemão num restaurante para qualquer lanchonete grega. Gente solícita, simpática e hospitaleira. E a comida? Nunca vou esquecer o dia que comi meu primeiro Gyros. Até hoje, tá no meu top 3 favoritos. Pensa se tem como dar errado: uma espécie de wrap com frango/carne, tomate, cebola, molho grego e batata frita. Olha!!! Salivei!!!

    

    Rapidamente fui me apaixonando por cada cantinho daquele lugar. As casinhas brancas, o azul e verde misturado no mar, e até o sal sintetizado na pele. Mas passado um tempo, eu entendi que alguns fatores contribuíram para que essa viagem me conquistasse de um jeito diferente. Primeiro era que, pela primeira vez, a gente não estava seguindo um roteiro maluco com 3 cidades pra conhecer num dia só. A gente turistava, claro! Andamos muito sob aquele sol escaldante, inclusive desci sei lá quantos mil degraus a pé porque fiquei com dó dos burrinhos que era usados pra esse transporte. Mas tivemos momentos de decidir só passar o dia numa praia, com cochilo na areia sem hora pra ir embora. Era um descanso de verdade, do tipo que te recarrega de paz. Segundo que, apesar de não ter sido uma viagem cheia de luxos, que nem faz a nossa vibe mesmo, era bem diferente dos passeios que a gente já tinha feito até ali. Pela primeira vez, ele não era mais estagiário e, dentro do que era possível, ele estava disposto a me oferecer do bom e do melhor. Como eu disse, a gente é da turma que compra comida e cerveja no mercado pra levar pro hotel, e troca facilmente um restaurante chique por uma lanchonete. Mas mesmo dentro desse cenário, era como se ele estendesse um tapete vermelho pra mim pra eu passar o tempo todo. Se eu olhasse muito tempo pra uma bolsa na vitrine, ele comprava. Se meu estômago roncava, ele já me oferecia o cardápio. Se contava o dinheiro pra ver se podia rolar mais um drink, ele já me abria outra cerveja. “Não passa vontade de nada. Eu dou um jeito”- Ele repetia. E, não me entenda mal, eu não to falando de dinheiro e bens materiais. Eu explique que onde a gente ia não envolvia os lugares e lojas caras. E isso nem é o que conta de verdade. É sobre a intenção que ele colocava em tudo. Sem saber, ele mostrava pra mim que ele não media esforços nem recursos por mim. Que se hoje ele tinha um bom emprego, era na gente que ele queria investir o fruto daquilo. Que eu não ficaria desamparada, que ali eu estava segura.

    Repito: não pelo dinheiro, mas pelo cuidado.

    

    No dia do meu aniversário, ele me levou pro hotel onde passaríamos aquela noite. A primeira pousada 4 estrelas que eu entrei na vida. Uma suíte linda com direito a banheira de hidromassagem e uma sacada enorme de frente pro mar.

    - Essa é a segunda parte do presente- Ele disse com aquele sorrisinho torto que me enlouquece.

    A dona da pousada era uma senhora inglesa muito simpática. Adivinhem quem logo fechou uma amizade? Ele começou a perguntar se ela sabia alguma forma de conseguir uma reserva no Volcano Bay para aquela noite. Um restaurante bastante famoso em Ia, pois tinha uma vista panorâmica do pôr do sol no mar. E antes de contar qual foi a resposta dela, eu quero reforçar: quando é pra ser, vai ser. Deus, o universo e as fadas se unem à favor, vai por mim.

    - O gerente do Volcano é meu amigo de longa data, vou ligar pra ele e reservar uma mesa especial pra vocês- Ela respondeu com muita simpatia.


Mais um aniversário que eu me sentia plena, realizada e como se tivesse descoberto o que era felicidade de verdade. De look @gris.store especial para aquela noite, fomos recepcionados com muito carinho pelo Gerente que nos levou à mesa reservada de frente pro show que em breve começaria. Como era uma ocasião especial, esse sim era um restaurante chique. Mas lembra que eu disse que isso não combina muito com a gente? Bom, foi nessa ocasião que o Príncipe escolheu pra incorporar o personagem. Queríamos pedir um vinho. Mas entendemos pouco de vinho. Só que ele gosta dos mais doces e eu dos mais secos. Sorteamos um (pelo preço) e pedimos, sem saber que, alguns minutos depois, o garçom viria abrir a garrafa na nossa mesa, servir uma pequena quantidade na taça do Príncipe e esperar que ele aprovasse ou não. Agora, os fãs de HIMYM vão entender: em questão de segundos tivemos uma conversa telepática.

“Guilherme não faz isso”

“Eu preciso”

“Você vai me matar  de vergonha”

“Eu preciso!!!”


Com um leve aceno de cabeça e uma expressão serena no rosto, abraçou a taça e virou no shot a amostra do vinho. Enquanto eu reunia todos os meus esforços pra não ficar roxa e gargalhar alto daquele cena, ele fez um bochecho com a bebida como se um dia soubesse distinguir Cabernet de Merlot, acenou com a cabeça em aprovação e engoliu o líquido.

   - Perfect.- Finalizou, e o garçom serviu as duas taças enquanto eu cobria a boca com as mãos. Brindamos gargalhando de forma moderada e chique. Jantamos uma comida excepcional, ganhei um petit gateau com velhinha do gerente e o primeiro colar de joia do príncipe. Com uma pedra azul do mar da Grécia. Pra nunca esquecer. Ele me emocionou com suas centenas de declarações, e Deus nos constrangeu com o espetáculo da natureza que criou pra nós: o sol se punha lentamente no mar, como se a ele pertencesse, e ao mesmo tempo já com saudade de brilhar. Inesquecível. Por fim, a conta ardida veio dentro de uma concha do mar, que ganhamos de souvenir com a data 02.09.17 gravada.

E ele odiou o vinho. 


Nos últimos 3 dias ainda tomamos muito sol, mergulhamos em águas cristalinas, pulamos de uma rocha que até hoje agradeço a Deus por ter protegido nossas vidas, visitamos um vulcão que me fez escalar sei lá quantos km que não sei como meu pulmão asmático aguentou, e até fizemos máscara facial com a lama do vulcão pra cuidar da cutis. Vulcão em atividade, tá gente? Mas esse pequeno detalhe o Príncipe só me contou quando voltamos pra Stuttgart.


Me despedir da Grécia foi difícil, de Stuttgart e até do apartamento ancião também. Mas soltar daquele abraço pela 9° vez era algo que eu não conseguia me acostumar. Não doía menos com o passar do tempo. Doía mais. Começava a não fazer sentido de novo. Ter que ir enquanto eu queria mais que tudo, ficar. “Sair de férias é bom, mas voltar pra casa também” se tornava um paradoxo na minha realidade. Voltar sozinha não dava a sensação de voltar pra casa.

Era nele meu lar.

E esse sentimento voltou pulsando em mim durante as 9h de voo de volta pro Brasil.








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