3A TEMPORADA - Capítulo I
O ano é 2017.
Eu não mandava nenhuma mensagem há 5 dias. Eventualmente, visualizava as que ele mandava. “Espero que esteja bem”. “Te amo mais que tudo”. Mas simplesmente não conseguia responder. Um dos grandes problemas do relacionamento à distância, é que quando as inevitáveis brigas acontecem, sabe aquele abraço onde os dois desistem de discutir e se rendem um ao outro? Então, não tem. Você precisa ficar cozinhando aquele amarguinho na boca até que, enfim, vocês se encontrem. Mas provavelmente vocês não vão tentar resolver uma briga de 3 meses atrás. O que também pode significar que ela fique ali inacabada assombrando a relação por um tempo. A previsão de nos reencontrar era em setembro, pro meu aniversário. A ideia era eu ir pra Alemanha pra encontrá-lo e de lá faríamos uma viagenzinha de comemoração.
Estávamos em Junho. 12 de Junho, pra ser mais exata. Faltavam quase 3 meses pra gente se ver cara a cara e tentar chegar a alguma conclusão. E eu já não tinha certeza se sobreviveríamos até lá. Era dia dos namorados, e eu tinha deixado uma cartinha com um presentinho escondido na casa dele da última vez que o visitei com o Daddy, em Março daquele ano. Eu queria mandar mensagem avisando. Mas ao mesmo tempo, não queria.
Bom, era uma segunda-feira, eu foquei em conseguir levantar e ir trabalhar. Passei a manhã inteira tentando sobreviver àquele dia. Meio aérea. Sem conseguir me concentrar em nada. No dia anterior, nossas famílias tinham se reunido para comer a feijoada da Hermine. Como sobrou muita comida, quando Lulu&Otávio e Runi me chamaram pra almoçar juntos, os convidei para almoçarmos em casa mesmo. Achei que seria ótimo pra espairecer. Chegando em casa, mandei mensagem. “Feliz dia dos namorados. Deixei algo pra você atrás do armário da sala”. A comida descia meio entalada enquanto eu tentava manter uma conversa leve durante o almoço.
Ele me ligou. Pensei em não atender.
- Atende, miga- Lulu incentivou. Peguei o celular e saí da mesa.
- Feliz dia dos namorados- ele disse. Eu segurei o choro.
Eu não estava tentando fazer drama. Não era proposital o meu silêncio. Foi horrível pra mim ficar 5 dias ignorando ele. Um buraco parecia ter se aberto dentro de mim, e sugava toda a minha energia. Tudo o que eu mais queria naquele momento era me afundar no colo dele e que tudo aquilo não passasse de um sonho ruim. Mas ali, por telefone, eu simplesmente não conseguia. E era isso que me amedrontava. Como seriam os 3 meses seguintes?
- Você ainda é minha namorada?- ele indagou quebrando meu silêncio
- Sim…- respondi com a voz falhando.
- Não é grande coisa, mas meu pai tá aí na frente com o seu presente de dia dos namorados. Vai lá abrir e depois a gente se fala, pode ser?
-Ok - e desligamos.
Voltei sem graça pra sala, expliquei pros amigos e fui abrir o portão. Vi o carro do Rocasogro estacionado. Limpei a cara de choro. Saí brincando “As coisas que ele faz você fazer né, sogro…” e, de repente, saiu o Calopsitinha de trás do carro.
Caí no chão com as mãos no rosto enquanto berrava.
Nem o maior esforço de compostura do mundo seria capaz de conter a enxurrada que me inundava a alma e o rosto. Era ele. Em carne, osso, olhinhos azuis e sorrisinho torto pra mim. Pulei no seu abraço como se mergulhasse no oceano a que sempre pertenci. Eu estava em casa de novo. E, naquela fração de segundos, toda a mágoa se dissipou. Entre meu choro alto, a risadinha dele, e a comemoração dos nossos amigos, o peso sumiu. E tudo fazia sentido outra vez.
Me agarrei naquele abraço como se me agarrasse à minha própria vida. Como se não fosse mais capaz de soltá-lo. Como se tentasse convencer a mim mesma que era real e eu não despertaria desapontada em alguns segundos. Senti como se toda a respiração sufocada por dias voltasse a expandir. Como se ele tirasse com a mão a pedra que me impedia de respirar normalmente. Não posso ser hipócrita e dizer que naquele segundo tudo estava resolvido. Eu sabia que uma conversa muito séria nos esperava ali na esquina. Mas, pela primeira vez depois daqueles cinco dias amargos, eu voltei a acreditar que daríamos conta.
Me agarrei naquele abraço como se me agarrasse à minha própria vida. Como se não fosse mais capaz de soltá-lo. Como se tentasse convencer a mim mesma que era real e eu não despertaria desapontada em alguns segundos. Senti como se toda a respiração sufocada por dias voltasse a expandir. Como se ele tirasse com a mão a pedra que me impedia de respirar normalmente. Não posso ser hipócrita e dizer que naquele segundo tudo estava resolvido. Eu sabia que uma conversa muito séria nos esperava ali na esquina. Mas, pela primeira vez depois daqueles cinco dias amargos, eu voltei a acreditar que daríamos conta.
Quando eu finalmente me desenrosquei do seu pescoço, nem me restava mais fome pro almoço interrompido.
- Bem que ontem minha sogra falou pra eu congelar feijoada pra você…- lembrei juntando as peças.
Lulu&Otávio e Runi, que já sabiam de toda a surpresa, nos deixaram à sós, e ele começou a me explicar sua aventura.
- Decidi vir na sexta passada. E o voo que eu pude pagar era de 35h, com escala em Fortaleza- ele começou a narrar.
Logo pensei: “ótimo, bom pra pensar bastante na cagada que fez”
Mentira kkkk. Ou não.
- Mas a mala em Fortaleza demorou tanto pra chegar, que perdi o voo pra São Paulo…- ele continuou, e aí me doeu
Coitado, essas coisas sempre acontecem com ele kkkkk. No mínimo, era mais uma história pra ele incluir no diário dos filhos, né? No fim, era pra ele ter chegado no Domingo a noite. Inclusive, meus sogros foram embora mais cedo do almoço no domingo com uma desculpa qualquer, porque iam buscá-lo no aeroporto. Mas a jornada foi mais doída do que achei que ele merecia.
- A Condor culpava a Azul, a Azul culpava o Aeroporto e o Aeroporto culpava a Condor. Eu e mais quatro brasileiros esperando uma solução e nada. Inclusive uma senhorinha, Rayssa, que dó que eu fiquei- e era óbvio que ele faria amizade com algum 60+.
Como agora a gente odiava a Condor e nada foi feito pelo prejuízo do voo perdido, ele precisou comprar uma nova passagem de Fortaleza até Guarulhos, mas que só saía na manhã do dia seguinte, então precisou dormir no aeroporto em Fortaleza e, de São Paulo a Campinas precisou pegar um ônibus, já que ninguém mais podia buscá-lo segunda de manhã. Ufa! Mas e tudo isso, pra quê? Ele também sabia que depois da euforia, a conversa séria precisava ser posta à mesa. Mas algumas poucas palavras reforçaram aquele sentimento de que tudo ficaria bem.
- Eu precisava vir. Te olhar nos olhos. Pra dizer que você é minha prioridade. E que eu te amo mais que tudo- De um jeito ou de outro, tudo ficaria bem. Dentro daqueles olhinhos azuis marejados, de alguma forma, eu me encontrei. Porque encontrei a nós, mais uma vez. E aquele sentimento inflamável preencheu cada pedacinho que, por cinco dias, pareciam vazios dentro de mim. Não é possível que alguém que me desperte esse tipo de sentimento não seja pra ficar pra sempre, pensei.
Ele ficaria por uma semana. Pouquíssimo tempo para ver todo mundo que o procurava quando ele vinha pro Brasil. E no meio dos encontros, meu trabalho, e muito beijo pra tirar o atraso, a gente não conseguia sentar e conversar. E a questão não era mais que ele tinha mentido sobre o contrato e a permanência na Alemanha. Essa mágoa se dissolveu no primeiro abraço, eu entendi a intenção sincera dele. A questão era o que faríamos dali pra frente. Qual era o novo plano?
- Eu fico mais um ano, até cavar a vaga aqui no Brasil- ele sugeriu.
Meu Deus, mais 1 ano…
- Tá, e se não sair a vaga daqui um ano como não saiu agora?- eu questionava.
Silêncio.
E essa dúvida me consumia. Eu não queria viver um relacionamento à distância sem prazo de validade. Isso é tortura! E esse diálogo se repetiu e travou na mesma etapa algumas vezes até a sexta-feira daquela semana. Dois dias antes de ele ir embora, e quando decidimos sair pra comemorar o dia dos namorados atrasado. Quando cheguei em casa pra me arrumar, não conseguia. A despedida se aproximando me dava pânico de não resolver aquele impasse. E, mais uma vez, tornei a pensar que o que não tinha remédio, remediado estava. Era nosso fim. Eu não ia largar tudo mais uma vez e ir atrás dele. Estava na melhor fase da minha carreira na agência. Amava meu trabalho e minha rotina. Além disso, pra eu ir teríamos que casar pra ter o visto e, nunca tínhamos falado de casamento até então.
- Me recuso a fazer do casamento uma mera burocracia para conseguir um visto- declarei. Ele concordava.
Ainda me incomodava bastante que, pra ele, voltar e recomeçar no Brasil nem entrava na equação. Essa ligação com a Empresa parecia ultrapassar alguns limites. Por outro lado, só eu sabia de perto como era genuína a admiração que ele tinha. O tamanho do orgulho que ele sentia por pertencer ali. Como ele amava cada novo desafio, cada conquista, cada nova perspectiva. A paixão que ele sentia pelo trabalho é o tipo de engajamento que qualquer gestor deseja despertar na sua equipe. Também não o imaginava sem aquele brilho no olhar. Então voltei à única solução que me parecia possível. E criei coragem pra dizer em voz alta o que nenhum dos dois ousara fazer até então.
- Então acabamos aqui- soltei enquanto sentia tudo girar.
- Quê?-ele engasgou.
Se ele não abria mão de voltar pra Alemanha, e ficar lá até conseguir uma vaga no Brasil, e eu incapaz de acreditar que aquilo teria fim daqui um ano, e não admitia viver aquele inferno de distância por sei lá mais quantos anos, que mais eu poderia propor?!
Ninguém disse nada por um tempo.
Choramos o mesmo choro isolados. Até que ele quebrou o silêncio.
- Eu saio da Empresa.
Parei de respirar.
- Rá, você é tudo pra mim. Eu te perdi uma vez há 10 anos atrás. Não posso te perder outra vez- Disse agarrando minhas mãos.
- O que você disse? - perguntei de novo pra confirmar enquanto a tela azul na minha cabeça piscava.
- Você é minha prioridade. Se sair da Empresa é o que preciso fazer pra ficarmos juntos, está decidido.- ele repetiu e desmontou a chorar.
Era tudo o que eu queria. Que a distância acabasse. Que ele voltasse e pudéssemos ter uma vida normal, como um casal normal. E, por um momento, pensei em dizer sim àquela proposta. Mas ao visualizar aquele futuro, eu sabia que faltaria algo no sonho realizado dele. Um pedacinho de felicidade permaneceria vazio. E eu sabia que ele menos feliz, era uma felicidade incompleta pra nós. Não era isso que eu queria pra nós e, portanto, não era o que eu queria pra ele. Mas o fato de ele abrir mão, me disse muito mais do que aquelas palavras. E, mais uma vez, naqueles olhinhos azuis eu entendi tudo. Tudo ficaria bem.
- Não. Você vai voltar pra Alemanha- retomei o fôlego.
- Quê?
- Você vai voltar pra Alemanha, e vai tentar buscar a vaga aqui ano que vem.
- E se não tiver a vaga?
- Daremos um jeito - completei.
- Eu não conseguiria viver comigo mesma sabendo que você abriu mão de grande parte da sua felicidade por mim
- Mas você entende que eu faço qualquer…
- Eu entendi.- Interrompi limpando as lágrimas.
- E eu quero muito você pertinho de novo. Mas acima de tudo, quero você feliz -finalizei.
Soa como um diálogo simples e romântico. Mas por dentro eu podia sentir as chamas me corroendo e, ainda assim, me sentia leve. Eu sabia que ia doer muito ainda. A próxima despedida em dois dias e todos os 16 meses que estavam por vir. Mas, por algum motivo, me sentia segura, leve e feliz. Eu teria que dedicar tudo o que me restava naquele novo plano. Mas algo me dizia que, dessa vez, eu apostava no lugar certo.
Comemoramos nosso dia dos namorados, fizemos o tradicional churrasco no Daddy, e fomos convidados (pela primeira vez juntos) para ser padrinhos de casamento do Chico Bento & Rosinha, o que colocava mais um reencontro na nossa lista, já que o casamento aconteceria em Outubro daquele mesmo ano. Nos despedimos no aeroporto pela 8a vez e, pra amenizar a angústia que voltava a me abraçar, compramos as passagens pro reencontro em Setembro e ligamos a nova contagem regressiva. Ele já tinha o roteiro pronto: Colmar, Strassbourg e Mallorca. Dessa vez a mala teria mais bikini do que casacos e, pra ajudar, recebi o primeiro vale presente da @gris.store patrocinado pelo Príncipe. A foto que a B me mandou continha dicas do que me esperava nessa viagem, mas eu não entendi na época.
Como pela segunda vez, eu comemoraria o dia 02 de Setembro longe de casa, minha família não deixou passar em branco e, um dia antes da minha viagem, me surpreenderam com uma festinha surpresa pocket quando cheguei do trabalho. Com direito às melhores amigas, família e meu bolo preferido de massa de chocolate com morango. Pela primeira vez embarquei sozinha num voo de 9h até Frankfurt. E a saudade já estava sufocante, eu não via a hora de amassar aquele menino. Pra ser sincera, pouco me importava o roteiro. Mal sabia eu que eu nem fazia ideia do que me aguardava do outro lado do oceano. Mas esse já é outro capítulo.







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