2A TEMPORADA - Capítulo V
O ano é 2015.
02 de Setembro passou. E enquanto eu tentava me convencer de que nada daquilo era apenas um sonho, começamos a contar os trocados. Quais economias iam pro visto, e quais iam pra Disney. O Príncipe pagou a passagem e o ingresso, mas ainda faltavam a estadia, transporte, alimentação e os souvenirs, né? A animação com esse planejamento já estava à mil, e a viagem agendada para Outubro. Mas como não sou eu se não rolar alguma emergência que me leve ao pronto socorro mais próximo, quatro dias depois, DO-NA-DA:
- Amor, acho que entrou alguma coisa no meu olho, acende a luz rapidinho?
Quando o Guilherme foi ver, não encontrou meu olho, mas uma abóbora crescendo no lugar. Ele prendeu a respiração tentando não transparecer o pânico. E quando diz respeito à minha saúde, ele está sempre em pânico. Li tudo na cara dele e corri pro espelho. Mas não consegui enxergar nada, afinal, não consegui abrir os olhos de tão inchados que estavam.
{PAUSA PARA: @G.rocamora divulgar essa foto é justa causa de divórcio, combi? combi.}
- Talvez seja bacana a gente dar um pulinho no hospital, rs.
- Já chamei o uber - ele respondeu.
Ele ficou tão preocupado, que até o motorista do uber percebeu, e não cobrou a corrida. Enquanto a enfermeira me atendia, cada luva, seringa e agulha que ela pegava, passava num leitor de código de barras, como num caixa de supermercado. E o Guilherme preocupado, porém filmando. Como sou alérgica a várias coisas e não era norte-americana, minutos depois, entrou na sala um robozinho com uma tela no lugar da cabeça (pra quem é fã de FRIENDS, era basicamente o robô de Mac and C.H.E.E.S.E). Por ali, uma profissional da saúde do Brasil falava comigo sobre minhas alergias, para garantir que ninguém me medicasse errado. E o Guilherme, ainda preocupado, seguia filmando já imaginando a reação do Rocasogro quando contasse a aventura. Quando eu ainda estava grogue de tanta medicação, recebemos a conta de mais de mil dólares a pagar. Moral da história: façam seguro viagem, e valorizem o SUS.
Passado o susto, veio o surto. Eu estava indo para o sexto mês trabalhando de babá, que eu adorava, mas não foi para o que estudei 5 anos. Vivia numa sensação de incerteza e insegurança do que estava fazendo com a minha vida profissional. Bateu aquela ansiedade de estar perdendo um tempo valioso de carreira, sabe? E aí numa faísca a mais numa sexta-feira à noite, explodi. Vomitei todo aquele caos interno no Gui. Que tentou de todas as maneiras me convencer do quanto eu estava progredindo. No inglês, no blog, como pessoa. Que nada daquele período deveria ser encarado como atraso.
- Eu não posso te contar muita coisa do que escrevo no diário pros nossos filhos…- ele começou - Mas há alguns meses atrás, eu tive um dia muito difícil no trabalho, mas não te contei. Quando cheguei em casa, cansado e triste, você não disse nada, apenas me abraçou- ele disse me puxando num abraço. E continuou - Depois você disse: "ei, vai ficar tudo bem. Eu confio em você e você não está sozinho”.
De bicão formado, chorei.
- Hoje eu digo pra você: vai ficar tudo bem. Eu confio em você. E você nunca estará sozinha- Ele concluiu com o beijinho no topo da minha cabeça, como de costume.
E mergulhada naquele abraço, eu me senti protegida do mundo. Lembrei do que a B. tinha me dito sobre mesmo se tudo desse errado, ainda valeria à pena. E naquele momento eu pensei “Já valeu mesmo. Por esse momento aqui”. Porque, entendam: eu nunca tinha tido um apoio como aquele de um parceiro. E quando ele me olhava nos olhos, dizendo o quanto acreditava em mim, e no mundo que eu ainda ia conquistar, eu conseguia acreditar mais em mim mesma. Esse tipo de amor era novo pra mim. Do tipo que desperta na gente, o melhor da gente. Do tipo que enxerga na gente, a nossa essência, e nos ama, em cada pedacinho dela. Do tipo que faz a gente se sentir invencível de novo, sabe?
Dias depois, e uma semana antes de enviarmos toda a documentação (e nossos dólalis) para o consulado solicitando a troca do visto para estudante, recebemos uma notícia que parecia a resposta para todos as nossas preocupações financeiras: a Ashley precisaria viajar pro Brasil à trabalho, por uma semana, em outubro. E queria que eu fosse junto com ela e Mickey. Assim, ela não precisaria ficar longe do filho, e ainda teria uma intérprete particular para circular por São Paulo. Ela pagaria minha passagem e minhas horas trabalhadas lá. Perfeito, né? Calma, faltavam alguns ajustes. Topar ir com a Ashley, significava trocar o processo de alteração do visto pela estratégia de “sair do País, e entrar de volta e, assim, renovar seu período de permanência como turista mesmo, por mais 6 meses”. O que era arriscado. Mas, na época, eu não entendia direito quãããão arriscado era. E nesse novo cenário, a gente economizaria muuuuitos dólalis pra gastar nas lojinhas da Disney e ainda sobrava pra comprar um iphone 0km.
“TÔ RICA!”- logo pensei kkkkkk
Eu conto ou vocês contam? Enfim.
A minha passagem de volta pro Brasil ainda não tinha sido remarcada e estava para 30 de setembro. “Eu poderia usar essa passagem/vou pro Brasil alguns dias antes da Ashley/mato a saudades da família/encontro a Ashley em SP/a Ashley compra a minha passagem no mesmo voo do meu irmão de Campinas para Orlando/Vamos pra Disney/Volto pra Chicago”- pensei. Plano perfeito!
E a Ashley o quê? Topou, claro.
Vocês tão suando de nervoso???
Porque na época, eu não tava não.
Plano perfeito, Deus no comando, bora!!!
Me despedi do Príncipe pela 2ª vez e lá fui eu, abraçar meus pais de novo, minhas cachorras, meus sobrinhos, Rocasogros, afffff que sensação maravilhosa. E a ideia era não contar pra ninguém que eu estava no Brasil, já que em pouco dias eu estaria de volta. Mas eu precisava ver os migos, né? E eu não ia perder a oportunidade de fazer algumas surpresas, óbvio. Tipo pedir pra Lulu e Otávio irem em casa buscar um presente que eu tinha mandado, e aparecer na sala pulando. Ou ver a Gasperina na Renner por acaso, e sair de trás da arara de roupa pra aplicar um leve ataque cardíaco e ver a tela azul na cara dela de “você ta aqui ou eu to lá?”. Teve a Runi que demorou 3 dias (literalmente) pra entender o Snapchat que eu mandei com um vídeo meu com meus pais dizendo “SURPRESAAA”. Até a surpresa mais elaborada que acabou dando ruim: mancomunada com a irmã e a mãe da B, combinei de estar na casa delas antes dela voltar do trabalho. Deixaram a chave pra eu entrar e me esconder e tudo. Mas na hora de trancar a porta do lado de dentro eu fiz o que? Quebrei a chave dentro da fechadura. Quando ela entrou pela porta dos fundos eu já estava de joelhos pedindo perdão.
Bom, os dias voaram.
E um dia antes da Ashley embarcar para o Brasil, ela me ligou, dizendo que o Mickey estava com infecção de ouvido e sua viagem seria cancelada por isso. Pediu mil desculpas, mas que eu podia ficar tranquila, curtir a família, depois a Disney, e depois estaríamos juntos de novo. Mais uma vez, parecia perfeito, não? Tive tempo até pra ir pro Vaticano brasileiro visitar os avós do Gui, eu tava no céu. Até o Negão, o labrador da Tia Xô, esbarrar em mim com tudo e lançar meu iphone 4 no chão, trincando milímetro por milímetro da tela. Pensei “f*da-se, agora que eu compro um novo mesmo” e tudo seguia seu curso perfeito. Quando chegou o dia de voltar, foi difícil me despedir de novo dos meus pais.
O Daddy completaria 60 anos dali um mês, e eu estava organizando a festa temática de boteco com a Runi, mas não estaria presente. Então mais um pedacinho de mim ficava pra trás. A viagem até Orlando foi tranquila, tirando o fato que a Duda chorou quase as 9h inteiras de voo. Ela ainda não tinha entendido que ia conhecer sua maior ídola, a Minnie. Chegamos. Fila da imigração. Foi quando eu comecei a ficar ansiosa. Mas nada demais. Quando nos chamaram, fomos todos juntos. Afinal, viajávamos juntos e eu estava com meu irmão, né? N O P E. Quando a policial viu no meu passaporte que eu tinha acabado de sair de Chicago, há duas semanas atrás, já mandou um “Nananinanão. Você espera aqui, amadah”.
Daí o suor frio começou a escorrer na nuca.
E isso aqui é um mega gatilho porque eu já estou com o estômago revirado só de lembrar. O Príncipe já nos esperava do outro lado, ansioso por notícias. Quando meu irmão e cunhada foram liberados, a policial pediu para que seguissem e me levou até-a-maldita-salinha. O purgatório nada amistoso, onde policiais com rifles maiores que o próprio corpo te intimidam até você confessar que está querendo trabalhar e viver ilegalmente na terra perfeita do Tio Sam, mesmo que esse não seja de fato seu objetivo. Naquele momento pensei: “É, talvez o plano não fosse tão perfeito assim”. Mas, uma coisa eu garanto: Deus não me abandonou nem por um segundo. Porque foi Ele que me fez não derramar uma lágrima sob pressão. E, sinceramente, acho que foi isso que convenceu o policial bonzinho a segurar a ira do policial endemoniado que tinha 3x a minha altura. Eu expliquei que meu namorado trabalhava numa multinacional, que ganhei a viagem de aniversário, era meu sonho conhecer a Disney, iríamos viajar, e depois fazer um mochilão e, em 3 meses eu voltava pro Brasil. Eu estava com a passagem comprada inclusive. Apresentei ela, passei o telefone do Gui, e eles ligaram até na empresa pra confirmar. O do mal falava português melhor do que eu. E ria de mim.
- Você quer mesmo que eu acredite em você?
- Eu não sei mais o que dizer, não estou mentindo- eu respondia, sem desmoronar. Por fora.
O bonzinho dizia:
- Você precisa me ajudar a te ajudar, calma, vamos resolver.
E eu mantive a calma de forma impressionante. Mantive o silêncio ao invés de entrar no embate, como vi outras pessoas fazendo. E todas as vezes que o brutamontes voltava pra me intimidar, eu respondia pausadamente, olhando-o nos olhos. Gente, se não era Deus me guiando ali, não sei mais o que era. Passou quase 1h30, o ogrão voltou com meu passaporte dizendo:
- Vou te dar um mês de estadia. Você entra, gasta todo seu dinheiro na Disney, e dpois volta pro Brasil.
Nessa hora eu quase gritei:
- Um mês?! Pelo amor de Deus, me dá 3 por favor!!!
- U-M-M-Ê-S- ele berrou levantando o dedo na minha cara - Passado esse período, nós vamos checar se você tem o registro de saída. E se não encontrarmos, vamos atrás de você- ele concluiu.
E eu não disse mais nada.
Vi de lado o bonzinho balançando a cabeça.
Agradeci a grosseria dele ao devolver meu passaporte, e me arrastei para a saída.
Um mês.
Antes de sair do salão de desembarque, encontrei meu irmão, cunhada e sobrinha me esperando já com todas as malas. Não tive coragem de contar a novidade. Saímos para encontrar o Gui. Aquele abraço de novo me deu a sensação de proteção máxima. Mas, dessa vez, eu sabia que não seria suficiente. Ele me olhou nos olhos e, sem eu dizer nada, disse:
- Vai ficar tudo bem. Estamos juntos.







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