Capítulo XII
O ano é 2015.
Começamos o ano com estreia do aniversário do Calopsitinha na casa do Daddy, no dia de Reis. Um churrasco com muita Ecobier e pagode que virou um clássico nos anos seguintes (quem já foi, sabe). E logo veio o primeiro desafio do ano: avisar na Agência que eu ia desertar. A minha sorte é que fiz daquele lugar meu lar, e só recebi apoio, apesar de lamentarem a despedida. O mesmo foi com a B, Gasperina, Runi e até Lulu, a namorada do melhor amigo que eu tinha, o Otávio (fazíamos faculdade e trabalhávamos juntos). De quem eu tinha me aproximado bastante na época, apesar de ter rolado um estranhamento mútuo no início, ela também trabalhava na Agência e tinha mais em comum comigo do que queria admitir. Tive também o apoio integral das minhas amigas de colegial, Deli, Bride, Marilourdes e Xulha, que vibravam a minha mudança de vida pós-Paolo. Amém?!?!
Eu costumo identificar bem esse período da minha vida como reforço de laços. Ao mesmo passo que eu me preparava pra me despedir de tudo e todos que eu conhecia, eu sentia aquelas ligações sendo reforçadas, abraços mais apertados, risadas mais aproveitadas. Foi bem intenso. Só não tão intenso quanto a entrevista pro visto no consulado americano. Rocasogro e Calopsitinha me levaram, e viveram comigo a adrenalina de quase perder o horário por conta de um acidente catastrófico na Bandeirantes. A freada que Rocasogro deu quando chegamos na porta do consulado quase me rendeu um roxo na testa, mas sobrevivemos. Enquanto eu ia pra fila com a minha pastinha cheia de provas de que eu não era uma imigrante fugitiva, vi um grupo de meninas saindo chorando descompensadas. Já entrei de perninhas travadas, né? Mas saí de sorriso no rosto. Porque esse plano, minha gente, era de Deus pra mim, já estava tudo preparado pra dar certo. Ou pelo menos, era assim que eu pensava. Depois que eu peguei meu diploma de publicitária e o Calopsitinha resolveu a última pendência burocrática, de acertar com a faculdade que ele fizesse o TCC à distância, chegou a hora da primeira despedida. Minha e do Calopsitinha. Foi a primeira vez que eu usei a frase “Não achei que ia chorar tanto no aeroporto”. Porque afinal, em dois meses, estaríamos juntos, né? Mas de lá pra cá eu descobri que o aeroporto tem um portal mágico e invisível, há uns 100 metros antes do portão de embarque. A hora que você avista ele, você passa por esse portal, o assunto acabada, o bicão se forma, o nó trava na garganta e a humilhação pública começa. Eu lembro exatamente desse momento: Rocasogros, eu e Calopsitinha estávamos todos rindo de alguma besteira enquanto nos dirigíamos para o portão de embarque. Foi só olhar pra ele que ficamos todos mudos. Rocasogra já estava com o rímel todo escorrido no rosto. Rocapai andava olhando pro teto. E eu pro chão, enquanto me agarrava no braço do Calopsitinha. O momento que ele passa pela cancela, e vira pra mandar um último beijo, é o momento que parte da gente vai junto com ele. Como a gente sobrevive, eu não sei. Somente quando ele desaparece das nossas vistas, é que o Rocasogro se permite soluçar, enquanto eu tento salvar a Rocasogra de um afogamento em lágrimas. E a viagem de volta, de São Paulo a Campinas é de um silêncio ensurdecedor.
Calopsitinha chegou bem em Chicago, e no auge do inverno, que é a estação mais famosa por lá. Conhecida como a “cidade do vento” por suas potentes correntes de ar vindas do imenso lago Michigan, a sensação térmica é sempre pior de suportar e, acreditem: logo na primeira semana, Calopsitinha precisou sobreviver a -33ºC. Enquanto isso, eu derretia de calor e arrumava tudo pra poder viajar. Check-ups médicos, comprar o estoque de anticoncepcional, tylenol e bombinha de asma. E eu ocupava todo tempo livre pra grudar nos amigos e família enquanto era possível. Bom, tudo às mil maravilhas, né? Nem um pouco. Afinal, era um namoro à distância. Era meu primeiro namoro depois de 5 anos num relacionamento abusivo. Era o segundo namoro à distância dele, sendo que o 1º não foi tão tranquilo. Estava dando tudo errado.
Primeiro vocês precisam entender qual é a dinâmica de um relacionamento à distância, quando o casal é separado não somente pelas milhares de kms, mas também por algum fuso horário. Quem vai, tem tudo novo. Cenário novo, colegas novos, trabalho novo, comida nova, eventos novos, tudo é novidade! E é tudo muito legal, muitas descobertas e muita coisa diferente pra fazer. Quem fica, tem tudo igual, cenário, colegas, comida, rotina, tudo igual. Quem foi, sabe como é tudo de quem ficou. Quem fica, não sabe absolutamente nada do novo mundo de quem foi. E, para ajudar a apimentar as coisas, o fuso horário faz questão de quebrar conversas nomeio porque deu a hora de um dos dois dormir. Ou porque um está reunião, enquanto o outro está na hora de almoço e queria conversar. Vou resumir: EU ODIEI. Foi nesse momento que eu peguei ranço de Whatsapp. Porque se eu não ficasse lá mandando mensagem, eu basicamente não namorava mais. E toda a vez que ele começava a contar uma história, falando da Milly, Felleti, Jevani, Ordato, Rampos e Marea, e eu não conseguia ligar nome à pessoa, e confundia todos eles o tempo todo, perdia a vontade de ouvir qualquer novidade. “Jajá estarei lá, e isso vai passar” eu pensava. Mas dois meses de namoro à distância foi mais do que suficiente pra nos colocar à prova. Pudera! Estávamos juntos há menos de 4 meses, era a cara da cagada. Mas persistimos. O problema é que os dois eram cheios de traumas dos relacionamentos anteriores. Enquanto eu tinha agarrado um apreço pela minha independência e liberdade, ele tinha bastante ciúmes, e ficava nervoso quando eu não avisava que cheguei bem em casa. Mas eu também tinha crises de ciúmes, tá? Lembram? Do trauma fantasiado de empoderamento? Se eu sentisse o cheirinho da merda, já bem dava um escândalo. E vou contar aqui mais um segredo: eu achava que escrever um TCC era difícil, mas isso até eu ter a primeira DR à distância. Se era ruim pra mim, imaginem pro Calopsitinha que a cada frase dele, eu devolvia meia monografia? Depois de 30m de “digitando…” ele me mandava: “Rá?”. E eu consegui ouvir o tom de desespero na voz dele de ter que ler 18 páginas frente e verso de pura treta. Oh, dá até um arrepio!!!
Mas também tinham os dias em que eu só respondia “vai lá com a stag crew vai, Guilherme” e ia dormir. Ou ia tomar uma brejinha com calabresinha no Apto 54 de Lulu e Otávio se fosse uma quarta-feira. Ou um vinho com pipoca com a B e Gasperina se fosse uma sexta à noite. Ou ia bater perna no shopping com a Runi se fosse um sábado à tarde. Ou um almoço com filme em família se fosse um domingo em casa. E a gente ia levando. A essa altura, eu já tinha conhecido meu ídolo da música, Ed Sheeran, e claro que a nossa música seria dele. Entre um atrito e outro, um mandava pro outro um trechinho de “Thinking Out Loud” e nos sentíamos em sintonia mais uma vez.
Mas era um período de muita mudança. Para ambos. O que era pra ser mais um ano de estágio em intercâmbio pra ele e a minha primeira aventura no mundo pra mim, virou quase um test-drive de casamento. Eu sabia que as pessoas nos julgavam por isso. Tínhamos apenas 23 e 22 anos. Talvez era mesmo loucura demais. Mas tinha hora que tudo aquilo fazia TANTO sentido. Era meu melhor amigo no mundo, com quem eu me sentia segura e por quem eu estava perdidamente apaixonada. Mas por outro lado, 4 meses antes não nos víamos há anos. E numa dessas ondas de incertezas, numa briga colossal ao vivo por skype, eu percebi a cagada que eu estava fazendo com a minha vida. Abrindo mão do emprego dos meus sonhos. Largando tudo pra trás. Carreira, família, cachorras, amigos. Pra morar com alguém, do outro lado do mundo, que tinha outros sonhos e planos pro futuro. Um alguém com quem eu mais brigava do que conversava nos últimos dois meses. E a data do meu embarque era em duas semanas. “Eu não acredito que estou com passagem comprada” eu disse. Silêncio. Eu chorava num desespero mudo. “Eu não acredito que larguei tudo” completei. Ele não respondia. Não sei se porque concordava ou porque não sabia como reverter a situação. “O que você tá dizendo?” ele conseguiu perguntar. Aquele medo me queimava inteira por dentro. De repente não existia mais chão. Eu me sentia sem ter onde pisar. Nada do que eu planejei trilhar estava mais a minha frente. “Eu estou dizendo que não sei mais o que estamos fazendo” finalizei me afogando em lágrimas. Ele se juntou a mim. “Para com isso” ele desafogou. Que sentimento insuportável era aquele. Quando não dá pra sufocar a dor num abraço, nem aliviar o peito num beijo. Medo e insegurança de um futuro tão próximo mas tão incerto. O fuso chegou. Precisamos dormir sem desamarrar aquele nó.
Outra parte ruim da DR à distância é que,por Whatsapp nunca sabemos quando a coisa tá oficialmente resolvida. Principalmente nesses casos em que a briga foi faixa preta. E eu era péssima pra virar a chavinha e dizer “ok, tudo lindo de novo”. No dia seguinte encontrei com a B e desabafei toda a minha angústia. Perguntei se ela achava que eu deveria ir mesmo, embarcar naquela aventura assim, ou se eu estava completamente louca. “Amiga, vai. E mesmo se der tudo errado, ainda vai ter valido à pena” foi o que ela me respondeu. E hoje quando eu escrevo sobre a preciosidade da amizade, é em momentos como esse que eu me inspiro. Voltei a fazer as malas sorrindo. “Faltam 3 dias”. “Vem logo. Te amo”.












Comentários
Postar um comentário