2a TEMPORADA - Capítulo II

 


O ano é 2015.

Eu não sei vocês, mas eu nunca tinha parado pra prestar atenção em Chicago. Não era daqueles lugares que eu sonhava conhecer e nem reparava muito quando via nos filmes (e tem filme que passa em chicago, hein? Reparem!). E quem conhece o Príncipe, sabe como ele é metido a guia turístico desde 2012. Do tipo que gosta de saber toda a história e as curiosidades de qualquer lugar. Logo nos primeiros passeios eu fiquei completamente encantada pela “cidade do vento”. Passeando pelo centro, fiquei admirada com a mistura de arquitetura moderna, com prédios antiquíssimos e imponentes. O Príncipe me contou que aquilo devia-se ao grande incêndio que quase deletou Chicago do mapa em 1871. O fogo se alastrou rapidamente pela cidade por conta da quantidade de construções em madeira, e durou dois dias. A reconstrução da cidade foi vista como oportunidade para arquitetos e engenheiros, que se juntaram para reerguê-la e criar feitos inéditos para a época, como os arranha-céus incríveis e brilhantes que compõem o Skyline de Chicago. Fruto da Revolução Industrial, a cidade tornou-se um ícone turístico mundial da arquitetura. E eu assino em baixo, é impressionante! Mas como sua reconstrução foi praticamente do zero, decidiram também fazer as ruas todas paralelas e na perpendicular, com poucas grandes avenidas na diagonal. Somando-se aos grandes prédios, e o fato da cidade ser cercada pelo grande lago Michigan, vieram também as avassaladoras correntes de ar e, por isso, tornou-se rapidamente conhecida como a “cidade do vento”. Por isso também é uma das cidades mais frias para enfrentar o inverno, afinal, a corrente de ar piora drasticamente a sensação térmica. Eu que saí do outono de 30º do Brasil, cheguei na primavera de 1º de Chicago, diferencinha besta. Mas, o vento bagunçava o cabelo, mas não estragava a experiência incomparável que eu vivia. Porém, também sem muita surpresa, acabei ficando doente logo na primeira semana. Passei uma semana na cama. E o Príncipe mostrando que ia cumprir a promessa de me dar tudo o que eu merecia. Cuidava de mim cheio de preocupações, e mimos. Logo me acostumei a acordar com bilhetinhos, uma rosa, um bolinho ou um pacote de bolacha. Simples. Barato. O amor está nos detalhes, anotem. Quando melhorei, senti urgência em recuperar o tempo perdido e fui explorar a cidade enquanto ele trabalhava, e finalmente colocar meu inglês avançado da Cultura Inglesa pra jogo. Perambulei pelo centro, ainda embasbacada com cada esquina. Bateu a fome. Fui no mais fácil. No Mcdonald's mais próximo. Se desse tudo errado, eu erguia o dedo indicando o número 1, e resolvido, né? E foi o que eu fiz minha gente. A hora que aquele atendente abriu a boca pra falar eu achei que estava na Grécia. Não entendi absolutamente NADA do que ele disse. TRAVEI. Ergui o dedinho. Ele riu, e me entregou o recibo. Eu não sei o que aconteceu, mas não foi aquele o inglês que eu aprendi na escola não, sorry!!! Voltei pra casa humilhada e querendo desistir do sonho americano. Contei pro Gui o desastre enquanto ele se contorcia de rir. “Relaxa, foi só sua 1a vez sozinha. Vai melhorar” - ele tentou me confortar. E dali em diante, eu entendi. Eu ia vivenciar um monte de “primeira vez”. E a primeira vez em qualquer coisa é meio torta, né? De um jeito ou de outro. E eu confesso que nunca fui muito fã disso. Mas, eu já estava na chuva, e todinha encharcada. Não dava pra recuar. Então fui e fiz a 1a cagada. Resolvi ir no cabelereiro cortar a franja. Era só pra acertar outra cagada que eu tinha feito em casa. Mas de novo eu não entendi aquele inglês-grego e só consegui gritar “STOP!” quando vi que era tarde demais. Reparem que boa parte das minhas fotos, a franja está presa. E mais uma vez, o príncipe rolou de rir. Então veio a primeira vez de conhecer a #EstagCrew, na Páscoa. Mas entrei muda e sai calada, né? Era tanta informação!! Tinha gente do Brasil, da Alemanha, da Índia, e de mais sei lá onde. Cada hora um idioma. E eu morrendo de saudade do meu almoço de Páscoa em família. Feletti era mesmo muito simpática. E Jevani muito engraçada. Marea era vibes e uma risada boa. Milly parecia uma boneca de porcelana. E Ordato, uau… Um muso com o inglês mais perfeito que já ouvi até hoje. Mas não saí de lá com muitos laços ou quase nenhum. Era difícil me encaixar. Eles tinham tantas piadas internas e comentários sobre pessoas e coisas no trabalho, que hora ou outra eu cedia pro silêncio. Eles eram bastante entrosados já, como eu me encaixaria ali no meio? E foi a 1a vez que tive medo. Mas guardei. E resolvi que eu precisava logo correr atrás da escola de inglês e um trabalho. Eu precisava da minha “Crew” também. E logo eu tive o meu 1º dia de aula na Truman City College. Mas meu amigo era um senhor mexicano de 60 anos, então talvez eu devesse dar mais uma chance pro bonde da Feletti. Fui com tudo. E tive o 1º PT. Quando fomos num encontro da turma na casa da Sara (a amiga alemã), fiquei tão ansiosa pra me enturmar de vez, que eu e o príncipe tivemos a brilhante ideia de levar junto com a cerveja, uma margarita em lata de 1 dólar que descobrimos no Wallgreens. Dica: não repitam isso em casa. Eu terminei a noite em cima do sofá cantando Backstreet Boys com Marea. E o Príncipe passou a madrugada segurando meu cabelo enquanto eu abraçava a privada. De novo, ele riu. E tivemos muitas outras “primeira vez” juntos. Talvez ele tenha se arrependido de me levar a 1a vez na Forever21? Talvez. Ele também quase se arrependeu de me apresentar a loja da Disney, mas quando percebeu que aquilo era basicamente ir pra Disney pra mim (que nem achava possível isso acontecer um dia), ele não se importou. Na verdade, ele também passou a assistir muitos filmes da Disney pela 1a vez comigo. Eu vi ele se apaixonando por aquele universo tanto quanto eu. Ele pesquisava curiosidades, quando ia no mercado e via qualquer besteirinha com a Frozen estampada, comprava pra mim, aprendia as músicas e muito mais. E me vi me apaixonando por ele mais ainda. Pelo o tanto que ele se dedicava em ser parte da minha vida, dividir gostos comigo. “Hoje queremos ver o mesmo filme, amanhã queremos sonhar o mesmo sonho” - eu pensava sorrindo à toa. Mas eu também cuidava dele tá, gente?! Passei a fazer a marmita dele todo dia com comidinha o mais brasileira possível. E ia com bilhetinho no guardanapo também, ok? Falando em comida, ele me levou pra experimentar pela 1a vez toda comida típica de Chicago. E a Deep Dish Pizza é a melhor delas. Se bem que a pipoca meio caramelo e meio queijo também é incrível. Mas o Cachorro-quente Chicago Style afffff! Enfim! Eu também o levei pra comer sushi pela 1a vez em Chicago e, pra mim, pela 1a vez na vida. Isso depois de conseguir meu 1º emprego como babá, com curso de primeiro socorros e tudo! Era em uma academia exclusiva para mães, onde eu ficava no berçário, com os bebês, enquanto as mães faziam exercícios. Não demorou para as mães começarem a me chamar eventualmente para cuidar dos bebês durante a semana e o meu dinheirinho ir se multiplicando. A meta era pagar a mudança do visto de turista para o de estudante assim que possível. No meio do caminho, experimentamos a nossa 1a BloodyMary. Um drink famoso nos EUA, que leva suco de tomate, vodca e pimenta. O resultado você vê na foto: do jeitinho que recebemos, deixamos na mesa quando saímos. Dessa vez, quem riu foi a garçonete. No fim de Abril, precisamos mudar de apartamento, porque o nosso prédio seria reconstruído. Mas mudamos para outro na mesma rua. Deu pra carregar os móveis a pé de um para o outro. Nós dividíamos o apartamento com o Bart, que era poucos anos mais velho que nós, bem simpático, mas bastante reservado. Às vezes, nem parecia que ele morava com a gente. E por isso, tivemos nossa primeira experiência morando juntos. Até recebemos a primeira visita: Charllie, amigo de infância do Gui que morava em Cancún. O coitado acabou chegando justo no dia da mudança e entrou no balaio de carregar móveis kkkk

Ao fim do segundo mês de vida no exterior, um turbilhão de novidades, uma aliança larga que não dava pra ajustar, muitas novas fotos de mim dormindo, longe da família e amigos e dos meus sobrinhos que aparentemente cresciam mais rápido na distância, comecei a sentir o peso daquela saudade, e o medo de não encontrar uma família pra ser babá integral e não conseguir juntar o dinheiro que eu precisava pra pagar pelo visto e, obviamente, as briguinhas do dia-a-dia nos alcançaram - porque as nossas bagunças não se conversavam. Ele trabalhava bastante, e sob muita pressão de não retornar pro Brasil sem emprego. Eu já sentia falta da correria do meu trabalho como publicitária. E tudo aquilo começou a borbulhar. “Já fiz 5 entrevistas e nada de alguém me chamar pra trabalhar integral”- eu soluçava. “Rá, lembra quando eu precisei muito das suas orações quando precisei passar um dia em Londres sem ser deportado ano passado?” - ele me questionou. “Hum”- funguei. “Você me lembrou que existe alguém lá em cima cuidando de cada detalhe por nós. Basta que a gente confie e tenha paciência. Sua parte você está fazendo” - ele dizia com aqueles olhinhos azuis me encarando, e era difícil não derreter. Eu sabia que ele tinha razão. Mas a gente é teimoso né? Fica na angústia. Mas o fato de ele estar comigo, 100% dedicado a mim, a nós, ao que nos dispusemos a construir juntos, significava muito mais do que eu tinha recebido em qualquer relacionamento anterior. Alguns dias depois, recebi um email da família que tinha me escolhido: “ Oi Rayssa, estamos muitos felizes que você irá cuidar do Mickey!”. Se isso não era mais um sinal divino, não sei o que mais poderia ser.

--

Por Rayssa Olivão










Comentários

Postagens mais visitadas