NÃO BASTA ENXERGAR SEUS PRIVILÉGIOS. ELES TÊM QUE INCOMODAR O TEMPO INTEIRO.
Percebi que isso tem me incomodado muito. Diariamente.
Mais ainda no atual cenário mundial.
Qualquer “aff queria ir naquele restaurante” é rebatido aqui dentro com “5 milhões passam fome no Brasil”.
Não vim aqui pregar sobre gratidão, que devemos olhar sempre o lado bom e apenas ser grato. Pelo contrário. Eu quero romper a bolha da nossa realidade, os privilegiados. Conforme a gente lê, estuda, se envolve, se comove, o incômodo aumenta.
“Que saco fazer mudança”
“Mais de 100.800 em situação de rua”
“Queria tanto comprar uma make nova”
“12 milhões de desempregados”
“Preciso de uma festa”
“Quase 53.000 mortes por Covid-19”.
E conforme desperto para cada privilégio que me trouxe até aqui, o desconforto é generalizado. Todo texto sobre força de vontade e sonhos que começo a escrever, quase abandono na metade pela injustiça de saber que aquilo não representa a maioria. Porque pra maioria, não é “questão de escolha”.
Não se trata de demérito. Porque não dá pra falar de meritocracia no Brasil. Isso é mentira e vocês já deviam estar preparados pra essa conversa. É sobre o incômodo de enxergar a desigualdade sócio-econômica brutal em que vivemos. Os estragos de uma dívida racista histórica. Os assassinatos de uma sociedade machista e patriarcal. O retrocesso de uma burguesia LGBTfóbica.
E quando incomoda, somos forçados a encarar esse caos, e a nos movimentar. Não adianta tentar fechar a bolha de volta. Uma vez que você enxerga sua lista de privilégios, e os entende, é impossível não se incomodar que milhões de pessoas não têm a mesma chance que você. Não é difícil calçar o chinelo do próximo. Difícil é saber que nosso silêncio também mata.
“Ai agora tudo é política”. Sempre foi.
Se você acha que pode viver sem, adicione isso à sua lista. Porque é mais um privilégio. Não é que você não possa gastar seu dinheiro com futilidade, ou desejar uma vida melhor para si. É sobre não esquecer que o outro merece sim o mesmo que você, mas é privado do mínimo. E isso é muito desumano. Por isso não basta identificar seus privilégios. Eles têm que incomodar. É só assim que você grita por quem lhe fora calada a voz.


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