Capítulo XI



    O ano é 2014.

A entrega do TCC estava próxima e, com ela, a minha libertação de ter que olhar pra fuça de Paolo. Mas com isso também aumentavam as madrugadas em claro, o stress de administrar aquilo com o trabalho, zero tempo livre e um romance prestes a se mudar para outro País. Quando finalmente a apresentação do TCC chegou, a família toda estava lá. A minha, e a dele. Sim, em um mês de “relacionamento”, nossas famílias já estavam unidas. Bem diferente do que eu estava acostumada. Mas meus sobrinhos mais novos já estavam inclusive  acostumados a chamá-lo de Tio Gui.

Foi uma noite digna do “10 com louvor” que recebemos pelo TCC que, mais tarde, nos rendeu o segundo lugar no Concurso Universitário de Campanhas Publicitárias da APP BRASIL, que premia o melhor TCC do ano. E pra fechar as recompensas desse fim de ano louco: recebi a efetivação na Agência. Em janeiro, deixaria o cargo de estagiária para ser oficialmente publicitária. Pra comemorar, veio uma viagem para a praia em família. A tia Xô alugou uma van pra levar todo mundo, e os avós do Calopsitinha para ver o mar pela primeira vez. O trajeto da ida, foi regado à brejinha gelada no cooler, fandangos e Legião Urbana. Cresci numa casa com 4 irmãos mais velhos que eram fãs de carteirinha, tinham os discos de vinil e tudo, então estava amando! P.s.: meses depois dessa viagem, ouvi do Rocapai que ele jurava que eu tinha cantado as músicas pra tentar impressionar a família, é mole?!?! 

A viagem toda foi uma delícia. Ter participado do momento lindo dos avós vendo o mar pela primeira vez, não tem preço. Teve Calopsitinha chapado no calçadão, tatuando com henna “Topã” na bunda, teve capote em câmera lenta da tia Xô que desaprendeu a andar de chinelo, e teve Rayssinha chapada no banana boat também.

Mas o que fez dessa viagem épica, foi quando ele me puxou pro mar, no fim de tarde antes de voltarmos. Ficamos lá dentro, praticamente com o mar todo só pra nós. Eu me agarrei no pescoço dele, com as pernas envolvendo sua cintura, enquanto ele me fitava com aqueles olhos azuis refletindo o sol já um pouco alaranjado. Ali ele se declarou pra mim. Me deixando muda. Me fez juras de amor que apagaram a distância iminente do mapa.

  • Namora comigo, Rá- ele pediu sorrindo e apertando os braços à minha volta. Permaneci sem abrir a boca.

  • Esquece Chicago. A gente dá um jeito... - Engoli aquele nó na garganta ainda sem conseguir formular qualquer resposta. 

  • ...Eu não vou te perder de novo- finalizou. 


Pisquei várias vezes pra me convencer de que aquilo não era um sonho, e o beijei. Um beijo salgado, com sede e paixão.

  • Isso é um sim?- questionou ele abrindo aquele sorrisinho torto que me derretia.

  • SIIIIIIM SIM SIM SIIIIM!!!- eu gritei para aquela imensidão azul que nos cercava enquanto o enchia de mais beijos.


E só quando o sol estava de fato se despedindo é que nós nos despedimos também do mar. Voltamos para Campinas sem aquela dúvida “será que ele vai mudar o status no facebook?”. Já estava lá, atualizadíssimo.


Nas semanas seguintes, começamos a falar do assunto assombrado. Afinal, Chicago estava logo ali. Na teoria, levaríamos o namoro à distância, e eu o visitaria assim que possível.

-E se você fosse… pra ficar?- ele soltou assim, despretensiosamente.

Travei.

Já contei que sou apegada numa rotina, numa estabilidade, né?

Em todos os meus empregos fiquei o mínimo de dois anos, quando assumia um compromisso, o honrava. Eu nunca tinha morado sozinha, nem saído do País, e tinha um inglês avançado-de-sala-de-aula. Pensei: “Tá na hora de começar a arriscar”. Quando eu respondi que não seria má ideia, ele travou.

Mas no dia seguinte, correu em todas as agências de intercâmbio recolhendo os programas de aupair/estudo em Chicago que tinha. Quando sentamos para avaliar as opções, levei as mãos à cabeça em desespero. O programa mais barato começava em R$50.000,00 de investimento. Eu não tinha esse dinheiro.

- Esquece! Onde eu tava com a cabeça?!- me frustrei.

Mas pesquisamos melhor as opções disponíveis e, a que mais me servia, era ir com visto de turista, e mudar para o visto de estudante de lá. A gente achou uma ideia brilhante na época mas… Bom, aguardem os próximos capítulos.

Mas antes de agendar a entrevista assustadora no consulado americano, precisávamos lidar com uma etapa antes: o Daddy. Minha mãe apoiou rapidamente, quanto mais longe de Paolo, melhor! Mas o Daddy precisaria ser convencido.

  • Você acabou de ser efetivada na melhor empresa da sua área aqui, e já vai pedir demissão?- repetia o Daddy empurrando o óculos caído no nariz.

  • Vocês começaram a namorar agora, me parece um tanto quanto precipitado, não sei…- ele concluía me deixando irritadíssima.

  • Nunca fiz nada do tipo, nunca arrisquei nada, sempre fiz o que deveria ser feito, não é justo- eu reclamava.


Ah, a vida da branca/classe média/privilegiada que não tem a menor noção do mundo, né? Ainda bem que a gente evolui, Amém. 

Então, Calopsitinha e eu bolamos um plano: nas próximas semanas, ele passaria mais tempos na minha casa. Se aproximaria bem mais do Daddy, pra conquistar sua confiança até topar entrar no barco com a gente. Quem tem dúvidas de que deu certo?! Ninguém resiste aos encantos desse menino, eu confesso! Daddy não só passou a me apoiar, como pagou minha passagem. Mais tarde, eu fui entender que a resistência dele era só saudade antecipada mesmo.

E demos play euforicamente nos preparativos.


A gente já circulava por aí como um casal, até pra evento da publicidade eu arrastei o calopsitinha. Mas na última quinzena do ano, eu tinha o casamento de uma das minhas melhores amigas, a Runi. Que conheci naquele ano mesmo, na agência. E quando falei do evento pro Calopsitinha, estávamos no mercado, pra comprar fandangos e Coca-cola pro nosso programinha preferido de sexta à noite. 

  • Mas eu fui convidado também?- ele perguntou.

  • Gui, entenda que daqui pra frente, não existe mais EU. Só existe NÓS- respondi.

E ali, no meio do corredor de Coca-cola do Dalben, ele me parou, e me puxou num abraço com beijinho na testa. Ele não precisou dizer “te amo”, mas eu disse: “eu também”. Dali em diante, toda vez que uma situação difícil nos encurralava, ele dizia: “Corredor da coca, lembra? Estamos juntos”.


Naquele ano, nos separamos no Natal. Ele foi pro Vaticano Brasileiro, e eu para o tradicional Natal da minha família materna. Foi quando pude atualizar minhas primas de todos os dez capítulos anteriores. O que levou a noite toda, porque elas faziam questão de saber cada detalhe, cada diálogo, e cada cena censurada! E depois de Paolo, e de uma adolescência meio doida entre Rock e RBD que vivemos juntas, foi uma delícia comemorar aquela fase com elas.

Para as comemorações de Ano-novo Calopsitinha e eu nos juntamos de novo. Passamos a virada com os Rocasogros, depois passamos umas horinhas com meus pais na festinha 50+ deles, e depois fomos comemorar com os amigos numa chácara cheia de cerveja, churrasco e gargalhada: era a nossa turma de 15 anos.

Lá a gente brindou ao sonho que estava nascendo com 2015. A nossa primeira despedida se aproximava, mas a promessa de uma aventura incrível também.


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Por Rayssa Olivão













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