CAPÍTULO X
O ano é 2014.
Dormi 4 horinhas e às 10h estava chegando na casa do Calopsitinha, estreando meus atrasos na família. Minha mãe não ficou muito feliz não. “Mas o menino voltou ontem, e você já vai pra casa dos avós com ele?!”. Quem vê nem imagina que hoje ela é disparado a maior puxa saco dele. Chegando no Vaticano brasileiro, a Vó não sabia se chorava de ver o neto de volta, ou se tentava entender o que eu estava fazendo ali. Mas não demorou pra ela me abrigar no seu abraço. A tia Xô era uma velha amiga, e a gente se dava muito bem. E antes que começássemos a beber mais do que a Rocamãecoruja gostaria, e ouvir as histórias do calopsitinha pelo mundo, ele me levou pra conhecer melhor a cidade.
Me levou na Igreja Matriz, no Gusto, no Biazotto e por fim, no cemitério pra visitar o túmulo da outra avó. Ali ele me contou histórias lindas dela que ele guardava na memória.
No carro, antes de voltar, ele me entregou um cartão postal. “Trouxe pra você de Dublin”. Eram os Cliffs. E atrás, colado com durex, estava a graminha que ele roubou de lá pra mim. Do jeitinho que ele disse que faria. “Eu não tinha dinheiro pra um suvenir melhor”. Não teria souvenir melhor. “Mas quem sabe um dia não voltamos lá, juntos?”. Naquele momento, eu percebi que todo o talento que eu tivesse com as palavras pra escrever textão, ia falhar toda vez que ele falasse aquele tipo de coisa. Eu não estava acostumada com aquele romantismo, olho no olho.
A noite foi longe. Regado a muita itaipava e legião urbana, passamos horas rindo e contando histórias. Quando já passava da hora, me retirei pra dormir. E anos depois eu fiquei sabendo que, nessa deixa, tia Xô puxou a cordinha do Calopsitinha.
“Guilherme, você não brinca com essa menina, tá me ouvindo?”.
“Que isso, Xô?!”
“Escuta aqui, essa menina é coisa séria, se você brincar com ela você vai se ver comigo.”
Recado dado né, mores? Alguém mais tem dúvida que eu já tinha conquistado a família? Até o Vô que esquecia meu nome toda hora, eu sabia que já me amava.
Voltamos pra Campinas.
Eu pra realidade de trabalho, TCC e faculdade. Ele pra desarrumar as malas, rever amigos, e dar play no processo de ir para Chicago. Que inclusive a gente não tocava no assunto. Fora isso, mil maravilhas, como um começo de namoro deve ser. A gente vivia bem lá nas nuvens, sorrindo à tôa.
No fim de semana seguinte, rolou o churrasco de boas vindas surpresa. Reunindo os diferentes grupos de amigos num só lugar e, portanto, com muita gente nova que nem suspeitava quem era Rayssinha na fila do pão. Para a turma de infância, era quase que um reencontro dos meninos que dançaram na minha festa de 15 anos em 2007. E eles já sabiam exatamente o porquê eu estava lá. A gente não estava exatamente assumidos em público, mas também não estávamos nos escondendo atrás da moita.
E o comentário que meu sogro ouviu (e veio logo me contar porque ele é fechado comigo desde o capítulo I), foi:
“Não acredito que ele já está com ela! Tem duas amigas que estavam doidas pra ficar com ele agora que ficou solteiro!!” - É, o rei do Tinder tinha suas fãs eu não posso negar, nem julgar né kkkk
“Eu fiquei passado, mas respondi que sim, que vocês estão ficando sério, te defendi Rá”- eu disse que Rocapai é fechado comigo. Aquilo me deixou maluquinha de ciúmes? Óbvio! Mas depois de Paolo, eu era mais eu. Fiquei bem silenciada e plena.
Naquele primeiro mês, entramos rapidamente numa rotina de aproveitar qualquer tempo possível juntos, uma vez que logo ele embarcaria pros EUA. Ele me pegava no trabalho, me levava pra faculdade. Me buscava na faculdade, ficava acordado comigo enquanto eu escrevia TCC. Eu dormia na casa dele, ele me acordava só nos 45” do segundo tempo pra eu me trocar e sair pra trabalhar, porque já sabia como eu amo dormir. Preparava meu café da manhã para viagem, embalado num papel toalha com algum recadinho escrito. Todo dia. O guardanapo não falhava. Me buscava pra almoçar, e quando eu não tinha tempo pra sair, me levava marmita, e aproveitava pra deixar um beijo quente.
Ah! Acreditem ou não, mas como não estava trabalhando, ele topou trabalhar algumas vezes de bartender e no Buffet onde trabalhou pela primeira vez (sim, aquele do Capítulo I), sabe, pra tirar um trocadinho.
Logo chegou o primeiro churrasco da turma (sim a turma em comum com Paolo com quem mantive contato por um tempo), e eu achei uma boa ideia ir e ainda levar o Calopsitinha junto. Chegamos, e o Calopsitinha muito educado que é, cumprimentou todo mundo, inclusive, Paolo. Que por sua vez, não tão educado assim, deixou o menino no vácuo, dando as costas pra ele. Aquela cena me revoltou. Calopsitinha não ficou muito e precisou buscar o irmão em outro lugar e, mais tarde, voltaria pra me buscar. Foi ele ir embora, pro Paolo voltar e eu começar a xingar. “Você é muito ridículo mesmo, né? Nunca destratei sua namorada desde que você a traz nos churrascos e você me dá uma dessa?!”. Ele riu, debochado, bem tosco, bem Paolo. Quando o Calopsitinha me buscou de volta eu tinha muita cerveja e pouca glicose no sangue pra equilibrar, e não parava de xingar o energúmeno. No dia seguinte, descobri que fiquei contando a briga toda na mesa de jantar pros meus sogros, antes de dormir ali mesmo.
Bom, pelo menos eu tava defendendo, né?
Passou! E chegava 09 de Novembro, aniversário do Daddy (o meu). Não tinha nem um mês que o Calopsitinha estava no Brasil. Então comentei despretensiosamente que iríamos num restaurante comemorar. Mas com zero expectativas. Afinal, eu estava acostumada com oooooutra realidade rs. Mas no dia, lá estava ele, arrumadinho, cheiroso e nervoso pro niver do Sogrão. Minha família também ficou surpresa de vê-lo lá. Ainda mais sendo tão simpático com todos. Coitados, Paolo traumatizou todo mundo kkk. Saímos de lá e fomos passar o resto do domingo vendo filme com a família dele. Eu digo “NA”, vocês dizem “MORO”. Porque era basicamente isso né?! E nada da gente falar de Chicago, exceto quando ele citava a burocracia do processo. Ah! Nada de falar “te amo” também, tá?? Deuzolivre falar primeiro!!!
No fim de semana seguinte, ia rolar uma ação voluntária da equipe que ele fazia parte, quando ainda trabalhava na empresa no Brasil, lá em 2013. Inclusive, antes de ele voltar, ele me alistou pra ajudar em uma ação e eu fui. Então já estava familiarizada com as crianças do projeto. A questão é que ele era um ídolo entre elas. E quando nos viram chegando juntos, passaram a tarde toda no meu ouvido: “Vocês tão namorando?”, “Ele é lindo, namora ele”, “A outra namorada dele era linda, você conhece?”. Ainda bem que eu amo crianças, hein?
Passamos a manhã lá, cada um numa atividade. No fim da manhã, juntamos toda a equipe e crianças num só lugar. E ele quis tirar foto. Mas meu celular tinha ficado na bolsa. Ele me deu o dele. Bloqueado. E falou a senha pra desbloquear. Foi lá, fez a pose no meio dos meninos. Eu desbloqueei o celular, que abriu direto numa conversa de whatsapp com algum amigo.
“Pior que to quase namorando, mano”
Não consegui desler.
Nem fechar a conversa.
“Logo agora que tá chovendo mulher pra mim”. (ps:esse é o tipo de frase machista que hoje ele entendeu a necessidade de desconstruir)
A pressão foi lá em Plutão. Fechei a conversa. Tirei a foto. Bati o celular no peito dele na hora de devolver. E saí de perto. Quando ele pegou o celular, entendeu qual era o problema.
Por mim, eu dava meia volta, berrava meia dúzia de abobrinha e fim daquela novela. Mas Rocamãecoruja estava nos esperando pro almoço, para o qual ele já tinha convidado alguns amigos. Eu precisava sobreviver mais algumas horas, pra evitar a cena. Mas AI dele se me dirigisse a palavra. Eu tava só a namorada do burro do Shrek, prontinha pra soltar fogo.
Durante o almoço, passei a maior parte do tempo em silêncio, e notava a agonia dele querendo conversar, mas precisando fazer sala. Quando finalmente a tortura acabou, pedi que me levasse em casa. No caminho, ele pediu sei lá quantas desculpas, que tinha sido imaturo, falou por falar. “Coisa de homem idiota”. E bota idiota nisso!!! Mas eu estava bem corrompida depois de 5 anos com Paolo, né? Virei a Elza do Frozen todinha:
“Não fala mais comigo até você decidir o que você quer da sua vida. Chicago tá chegando, e talvez faça mais sentido você não se envolver com ninguém. E se é o que você quer, seja feliz com a sua chuva de mulher. Mas seja verdadeiro comigo, porque eu não aceito mais esse tipo de patifaria”.
Eu me achava empoderada, mas era tudo trauma mesmo. Mas pelo menos me ajudou a dar o recado, que ele entendeu rapidinho: comigo não mais.
E dali passamos para casal assumidérrimo. Afinal, não tinha outro jeito de ele me convencer que ele tinha certeza da escolha que fizera. “É você”. E quem conhecia a nossa história de 2007, ficou surpreso ao ver nossa foto juntinhos, mas adorou ver as voltas que esse mundo dá. Então, a rotina seguiu sem resistência. A gente precisava aproveitar todo o tempo que tinha, mesmo que ainda não falássemos abertamente sobre Chicago.
E num dia qualquer, ele me deixou na Agência pra trabalhar, como de costume, me deu um beijinho e se despediu:
“Bom trabalho, até o almoço, te amo”.
Silêncio.
[PAUSA PARA SURTO INTERNO]
Eu travei com bolsa, casaco, notebook e marmita de café da manhã na mão.
Ele travou olhando pra frente.
Eu ri querendo desmaiar.
“O que você disse?”
“Bom trabalho. Eu disse bom trabalho”- Ele riu. Ainda sem olhar pra mim. Eu baixei minhas tralhas, esqueci que já estava atrasada, levantei o óculos de sol dele e o encarei nos olhos.
“Eu também te amo”
E nos beijamos sorrindo. E trabalhei sorrindo. E me dei conta que nos últimos tempos era difícil não me pegar sorrindo a tôa. Mal sabia eu o que o tempo ia passar voando agora. E chicago estava logo ali.









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