CAPÍTULO VIII
O ano é 2014.
Os papos evoluíram bastante e já rolava até flerte. Ele foi o primeiro a mandar música. “Pensando em você”- Pimentas do reino. Era a nossa música do nosso namoro de adolescentes. Sim, era um flerte bem perigoso. E eu tava é adorando. Muitas músicas vieram depois, daria uma boa playlist.
Bom, o programa de estágio do Calopstinha estava chegando ao fim. E obviamente, ele já estava em pânico por não ter um emprego garantido, e tudo o que ele queria na vida era continuar na Empresa, custe o que custar. Foi nessa época que ele descobriu a minha facilidade de falar em Deus. E eu repetia pra ele quase todo dia:
“Gui, descansa. Você perde tempo nessa angústia, enquanto Deus já cuidou de tudo”.
Por dentro eu estava angustiada rezando pra ser efetivada na Agência dos meus sonhos? Estava!!! Mas aí a mensagem acabava servindo pros dois, né? rs.
Mas Ele sofreu bastante nesse período de incertezas. A família no Brasil não aguentava mais de saudade. O Rocapai nem disfarçava a agonia que foi viver um ano longe do filho. “Nunca mais, hein?” dizia. A Rocamãecoruja, então? Não podia ver uma foto do Calopsita que soluçava de saudade. Inclusive, ela já tinha me enfiado na organização de uma festa surpresa de boas vindas pra ele. Mas calma, to atropelando os capítulos.
A questão é que a ansiedade era generalizada! Ele estava se preparando pro mochilão de despedida antes de voltar pro Brasil, cuidava do tinder com dedicação e sondava possíveis vagas de emprego no Brasil. Eu tinha acabado de completar 22 anos, mantinha o pique da vida de solteira, virava madrugada escrevendo TCC, já sentia o cheirinho da formatura, já tinha meus próprios clientes na Agência, e tentava sossegar aquelas borboletas loucas no meu estômago que gritavam: “Ele ta voltando! Ele ta voltando!”.
Um dia, deixei uma escapar.
“B, mandei pra ele a música”. Era “Melhor amigo” - Turma do Pagode. BEM CHAVEQUEIRA.
“Ai miga!!!Kkkk mas beleza já foi. Agora chega!!”.
Ele respondeu: <3.
E eu sosseguei, tentando colar de novo os pézinhos no chão.
E, de repente, literalmente DO NADA, ele mandou: “Rá, surgiu uma oportunidade de estágio em Chicago. Não sei o que fazer”.
Gente, eu lembro exatamente desse momento.
Saí correndo pro banheiro no meio do expediente de tanta dor de barriga que me deu!!!
O MENINO NEM VOLTOU E JÁ IA EMBORA DE NOVO?!?!
Precisei de um tempo pra processar, entender toda a logística. A amiga ia ser efetivada, e o indicou para a vaga dela. Ele teria que tirar o visto e embarcar em fevereiro de 2015, mas não tinha coragem de contar nada pros pais por telefone afinal, eles certamente infartariam. E eu lá, trancada no banheiro. Pensei:
“Beleza, @Deus, se não era pra ser meu, podia pelo menos não ter me feito vontade mas beleza cê que manja das coisas”.
Me recompus, me conformei que aquele não ia ser meu final feliz. E fiz o certo.
“Lembra que eu disse que Deus já estava cuidando de tudo? Era pra ser seu. É óbvio que você vai” - respondi.
Mas eu confesso que nesse dia chorei desiludida. Daí o papo esfriou um pouco. E comecei a tentar me convencer que ainda seria o máximo reencontrá-lo, depois de tantos anos. Mas talvez não fosse pra ficarmos juntos mesmo. E tudo bem. Mesmo sem estar. Vida que segue.
A entrevista foi marcada para um dia antes do mochilão. E nesse mesmo dia, foi contratado. Me mandou mensagem. Começava em 17 de Fevereiro de 2015. Comemoramos, óbvio. Mas tinha um amargo difícil de engolir.
No dia seguinte, botou a Beth (Beth-pack, a mochila) nas costas e embarcou pro primeiro destino do mochilão: Grécia. Acompanhado daquele casal de amigos que já eram meus conhecidos antes de conhecerem o Calopsitinha, Jacão e Natalonha. Dias com passeios paradisíacos, almoço e janta de barrinha de cereal. De lá, ele seguiria sozinho pra Roma. Na última noite, @Jacão passou malzão (o danone devia estar estragado), precisou de remédios, e o Calopsitinha deixou tudo o que tinha em espécie pra ajudar, e partiu solo.
No aeroporto de Roma, foi sacar mais dinheiro pra pagar o shuttle que levava até a cidade, e o cartão deu bloqueado. Ligou na agência. “Pronto senhor, seu cartão estará liberado para saque dentro de 48h”. Pena que em 48h era pra ele já ter visitado o Vaticano e estar a caminho de Barcelona. Ele ia perder a viagem. Até que recebi: “Deusão é muito bom mesmo, cabeça!”.
Num ato de desistência, soltou um “puta merda” em voz alta e ouviu “Brasileiro?”. Bateram maior papo. O Calopsitinha, como sempre, soube rir de si mesmo, e contou o que tinha dado errado. Antes de ir embora, Aretuza, uma mulher Trans muito simpática, lhe deu os 10$ que ele precisava para o shuttle.
“Você me tratou com respeito, não teve preconceito. Não vai me fazer falta”.
Deus é amor, não preconceito, minha gente!
E assim o Calopsitinha conseguiu seu bate-volta pro Vaticano, e depois seguiu pra Barcelona e zerou os pontos turísticos da cidade de bicicleta. Haja barrinha de cereal!!!
Ele me mandou foto de tudo. Eu chegava da balada, ele estava acordando em algum canto da europa pra turistar. 3a parada: Londres. Uma parada forçada. O visto do estágio tinha acabado. Pra renovar e garantir mais 3 meses de turista, ele precisava sair dos países contemplados no tratado de Schengen. Por isso o roteiro contava com dois dias em Londres. Sem Hostel. Muita barrinha de cereal. Ele só precisava do Visto. A questão é que a imigração podia entender o plano dele, e deportá-lo direto pro Brasil.
Portanto, crianças, não repitam isso em casa.
Esse dia eu orei tanto. TANTO! @Deus tava de orelha roxa já.
“Ok ele aprontou comigo, mas você saaaaabe como ele merece que dê certo. Por favorzinhu, Deusinhuuuu” eu pedia.
E não é que deu certo?
Mas agora fiquei aqui pensando, que um hostel com chuveiro cairia bem pro tanto que esse Calopsitinha suou de nervoso na imigração, né? kkkkk
Enfim, de Londres voltou para Portugal e, finalmente, chegou a vez de Dublin. Eu tava mais ansiosa que ele. Queria ver foto de tudo. “Filma os bares. Bebe a cerveja. Vai nos Cliffs!!”. Parecia que eu realizava um sonho através dele. Ele compartilhou cada segundinho comigo.
“Você ia amar aqui, cabeça” me mandou num áudio abafado pelo barulho do forte vento daquele lugar cinematográfico.
De lá, voltou para a Alemanha por 3 dias, antes de embarcar num trajeto de 55 horas, com escala em Frankfurt, Lisboa e Fortaleza até pousar em São Paulo, na sexta-feira em 17 de outubro de 2015.
Naquela semana falei com a Rocamãecoruja, que estava uma pilha de nervos ansiosa para o grande dia. A festa surpresa de boas vindas seria apenas no final de semana seguinte, acertávamos os últimos detalhes, e era para quando eu estava me preparando para encontrá-lo. Eu sabia que no primeiro final de semana dele no Brasil ele iria direto pro Vaticano Brasileiro visitar os avós.
Mas por mais que eu tentasse controlar, a ansiedade de finalmente reencontrá-lo, me consumia. Até comprei uma lembrancinha de boas vindas. Um cofrinho em formato de Kombi. Pra ele juntar o dinheiro pra próxima viagem, que já tinha data marcada, mas só eu sabia.
Era um mimo de “parabéns por mais essa”.
Sou dessas!
Ele pousou em Guarulhos umas 22h30.
“Chegou vivo?”
“Não dá pra reclamar”
Eu já estava na minha cama, de pijama. A estratégia durante os próximos 7 dias era ir dormir cedo, pra esse encontro chegar logo, porque eu tenho asma e uma hora ia surtar.
As 23h30 recebi uma mensagem.
Um endereço.
“Estamos na casa do meu irmão, cabeça. Vem me ver”
Sabe quando você vai sentindo o corpo ficando gelado, célula por célula?
“É quase 00h, Guilherme”
“Vem logo.”
Levantei correndo, saí largando a roupa pelo quarto, me troquei em segundos, catei o presente e fui implorar pra minha mãe me deixar pegar o carro pra sair àquela hora.
“Você tá louca, Rayssa?!”
PELO AMOR DE DEUSSSSSSSS!!!
Precisei apelar pro Daddy: “Pai eu encho o tanque, eu trabalho, tô fazendo TCC, te livrei do Paolo, pelo amor de Deus convence a mãe!!!”
Deu certo.
00h eu tava na Dom Pedro mandando áudio no grupo:
“É agora migas, ele chegou, me chamou, tô indo!!!”.
B e Gasperina não podiam crer.
Mas não dei conta de responder. [DIRIJAM COM CUIDADO!]
Cheguei. Tremendo. Que que eu tava fazendo? Parei um segundo.
Pensei em voltar e inventar uma desculpa.
Eu tava muito eufórica pra quem fingia estar despretensiosa com o retorno de ““um amigo””. Daí lembrei da música.
“Mas que seja feita a vontade de Deus/Se Ele quiser, então/Não importa quando, onde, como/Eu vou ter teu coração”.
E apertei o interfone.
Gelada.
Apertei o 10 no elevador.
Ele subiu, mas eu me sentia numa queda livre infinita.
Que doido!!!
A porta do elevador abriu.
Parei na frente do 110.
Prendi a respiração e apertei a campainha.
Ele abriu a porta.
Silêncio por 1 segundo travada naqueles olhões azuis.
“E ai, cabeça!” e sorriu.












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