CAPÍTULO VII
O ano é 2014.
O menino sumiu mesmo gente. Mas acho que ele não contava com o furacão que tava dentro de mim, preso por cinco anos, que tava prontinho pra extravasar. Eu não insisti numa resposta não, fui viver! Pela primeira vez, em tanto tempo, de verdade! Até quem me via na fila do pão, já sabia que eu era recém liberta de um relacionamento abusivo ;)
Até parece que ia deixar outro macho acabar com os meus planos, né? Falei “Quer saber, vou é sozinha nessa viagem”. Comecei a tentar fechar o roteiro sozinha mesmo, e pesquisar as passagens. Mas como esse é um conto de fadas real, não demorou muito pra eu perceber que eu tinha pouco tempo e experiência para me planejar pra um mochilão pela Europa sozinha. Sem nunca ter saído do País, ou viajado sozinha.
Eu nunca fiz o tipo aventureira, lembram? Então apaguei o fogo do rabinho, botei os pezinhos no chão e cancelei a viagem. Meu lado racional gritou mais alto dessa vez, ufa! Bom, pra quem acompanhou, eu vinha de um longo histórico de abuso financeiro, terminava todo mês negativa no banco, um caos (créditos a Paolo). Mas 2 meses depois do término eu já tinha até uma folguinha pra colocar na poupança. Não ia mais viajar, mas podia torrar cada centavo comigo, né?
E foi o que eu fiz.
Pelo menos uma vez por semana eu tava na balada. Ia nos restaurantes preferidos. Comprava brusinhas. Fiz cartão na Renner, Riachuelo e C&A. Pagava pra amiga que não tinha dinheiro pro bar. Fui pro salão refazer o loiro. Não economizava na make (muito menos no corretivo e lápis preto como vocês podem ver kkk). Enchia o tanque do carro da minha mãe com gosto. Nada me segurava! Nem as ressacas! Entrei pro time do “Vamo? Vamo!”. Viajei pro Rio de Janeiro com as amigas no frio de julho mesmo. Me produzi pra festas que nunca pude ir porque o namorado podava. Assisti quase todos os jogos da copa do mundo em alguma festa ou bar. E beijei muito na boca. Me atraía, gente fina, tá afim? Bora! Até acabei me envolvendo mais profundamente com um Zé Bonitinho, mas o primeeeeiro sinal que ele deu de que podia ser cilada, pulei fora. Talvez nem fosse, mas pulei fora correndo mesmo assim.
Paolo já estava com outra. E eu me certificava de cruzar com ele apenas o inevitável, na faculdade e nas reuniões de TCC. Troquei de número, bloqueei, me blindei de qualquer contato dele. Numa festa a fantasia da faculdade, vi ele de longe, com a nova namo. Mas não cumprimentei porque, né? Não era mais ninguém pra mim. Mas do nada, enquanto eu tava lá de boinha rebolando até o chão, alguém me cutuca no ombro. Era ele. Naquela barulheira, ele só fez um sinal de oi, como uma cara de “não vai me cumprimentar não?!”. Não abri a boca. Fiz cara de “Quem é você, amado?”. Virei as costas e fui rebolar do outro lado da pista.
L-I-B-E-R-D-A-D-E meu povo! É o que esse momento representa pra mim. Eu dormia e acordava com um sorriso no rosto e isso era sucesso pra mim sim.
Bom, no meio dessa agenda agitada, eu e B. fomos num aniversário de outra amiga que, coincidentemente, era amiga do Calopsitinha. Mas eu ainda não sabia. E num papo muito agradável, regado a bons drinks, descobrimos.
“Noooossa você conhece o Gui??”
“Vish, longa história! rs”
“Ai adoro ele, ele ta na Alemanha sabia?”
“Ah sim! Ouvi falar!” - Bem plena.
“Ele tava namorando né?” - Beeeeeeem despretensiosa.
“Tava menina, terminaram há um tempo atrás, mas recentemente voltaram a se falar. Torcendo, adoro esse casal!”.
B. olhou pra mim.
Eu olhei pra B.
Falamos um milhão de coisas mentalmente.
Respiramos fundo e mantivemos a pose.
Depois surtamos.
“Amiga, foi por isso que ele parou de falar comigoooooo!!!!”
Tudo fez sentido.
Mas e o ranço de não ter me explicado, enfiava onde? Afff!!! Pois eu não deixei barato. Não segurei por muito tempo e mandei uma mensagem nada amigável pro Clopsitinha afrontoso.
“Não tem nada de errado em você voltar o contato ou reatar com sua ex. Mas achei que você teria a decência de me explicar, ao invés de simplesmente sumir.” - Mandei, sem esperar resposta.
Mas aí a peste respondeu, né??? Disse que não soube lidar. Que percebeu que a gente tava envolvido. Que a gente podia estar confundindo as coisas. E de repente se viu em contato de novo com a Musa Colgate. Então só parou de me responder.
“Lamentável. Eu esperava muito mais de você. Passar bem.” -FULL PISTOLA, sim eu estava.
Mas a verdade é que, de certa forma, ele estava vivendo a mesma fase que eu. Fazendo o que vinha na cabeça. Ao invés de economizar no almoço pra fazer surpresa, ele investia em conhecer o mundo. Aproveitava qualquer oportunidade de viagens curtas por lá. E já colecionava mais umas 10 cidades no diário. Tinha entrado pro tinder, e só dava match.
Acabou não reatando com a Musa Colgate, mas também não me procurou de novo. E seguimos assim por mais um mês depois do meu surto.
“+49 te enviou uma foto” - Porque na raiva eu fui logo deletando o número dele, óbvio.
Era a foto de uma van. A van da viagem em grupo, que supostamente eu estaria junto -no plano inicial. Sério, @Deus tava me testando. Não respondi, óbvio.
“Não vai mais falar comigo?” ele mandou.
ÓBVIO QUE NÃO MEU ANJO!!! Não respondi.
E chuva de print pra B.
“Miga que nervoso! Manda emoji, sei lá!!!”
Só se fosse (olhinhos revirados), então não mandei nada.
“Rá, para de graça, me desculpa”
Aí vomitei. Não economizei no verbo, nem me preocupei com as vírgulas.
“Se você me disser que tem maturidade pra manter uma amizade como adulto, a gente volta a se falar”
Pronto, nada mais engasgado!
Ele aceitou.
E logo eu tava rindo das piadas ruins dele de novo. E voltamos a nos divertir. Todo dia. O dia todo. Áudio pra lá e pra cá (quem conhece sabe que esse curte mandar áudio). A B. nem dava conta mais dos prints. Continuei no mesmo ritmo. Saindo, livre, feliz. E ele também. Rei do tinder. Mas Setembro foi acabando e a data dele retornar pro Brasil estava quase alí. E aí as borboletinhas voltaram.












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