CAPÍTULO VI
O ano é 2014.
Rocamora e eu nos falávamos todos os dias, durante a semana. Por whatsapp mesmo. E minhas melhores amigas acompanhavam tudo, print por print (quem nunca né?). Era quase como se Paolo não existisse. Mas às sextas, a gente se despedia. Já que eu passava o fim de semana na casa de Paolo e era melhor evitar uma tragédia. A amizade cresceu naturalmente. Quando contei que eu tinha um blog enferrujado, tratou logo de me incentivar a voltar a escrever. Era excitante falar com ele. Eu me sentia animada pra fazer qualquer coisa. Me sentia divertida. Espontânea. Feliz.
Quando voltei com Paolo, ele até que parecia ter mudado mesmo. Atencioso, carinhoso, gentil. Mas não durou muito pra novas histórias surgirem. “Zilana me contou que você estava praticamente namorando quando demos um tempo ano passado. Show”. Ele não só negou, como obrigou Zilana a tentar consertar. “Relaxa Zilana, eu sei que ele tá mentindo”, respondi. Amortecida. Nada mais me surpreendia.
Eu finalmente tinha despertado.
Um domingo qualquer, enquanto escrevia, o observei largado no sofá, assistindo Domingão do Faustão. Sempre odiei aquele programa. E todo domingo, era a mesma coisa.
“Vem aqui, vai começar as cacetadas”.
R-A-N-Ç-O.
“Terminei um texto, quer ler?”, perguntei.
“Leio depois, com calma.”.
Ele nunca lia.
Desde que reatamos, ele puxava o papo de casamento. E nesse domingo, pensei: “Não posso passar o resto dos meus domingos assim”.
Um clique. A chavinha virou.
Paolo já tinha percebido que nos últimos dias eu estava diferente. Mais distante. Menos submissa. Mais de saco cheio. Ele sabia que nem o cachorrinho que eu tinha comprado pra ele, me seguraria ali por muito mais tempo.
“Vou dormir em casa hoje” eu disse naquele domingo.
E nunca mais voltei.
Dois dias depois, numa ligação, ele questionou atordoado: “você me ama?’. E eu não fui capaz de responder. Não consegui mentir. E finalmente, me senti livre. Quando contei pro Rocamora no dia seguinte, ele obviamente não deu muita moral. Compreensível. Minha mãe também demorou pra acreditar. Ela precisou de 1 mês pra respirar aliviada. Eu ainda tinha quase o último ano todo de faculdade pra conviver com Paolo, no mesmo grupo de TCC. Mas nenhum encontro com ele me deixava pesada.
No meu primeiro mês solteira, Paolo me procurou, mesmo já estando envolvido com outra. Me pediu pra voltar. Apelou pro cachorro. Postou “Pai solteiro” e tudo. Foi aí que eu decidi abrir mão da guarda compartilhada, e deixar meu filhotinho. E segui sem olhar pra trás.
Com vários áudios do Calopsitinha pra responder. E num dia qualquer, recebi no Facebook:
“Gislaine Rocamora enviou uma solicitação de amizade”.
“EEEEITA, A SOGRA!” pensei.
Com quem eu passei a maioria dos finais de semana no meu namoro de adolescência, lembram? Amigas de longa data, logo estávamos papeando também. E de repente, tínhamos um jantar marcado.
“Vou jantar com a sua mãe hoje”.
Nossa, o que eu daria pra poder ter visto a cara dele nessa hora. Tirando o fato que, dessa vez, eu dirigi, parecia que o tempo não tinha passado. Uma noite deliciosa de velhas amigas, que rendeu outro convite, agora do Sogro.
“Ele não vai te perdoar se vocÊ não for um dia lá em casa”.
Euzinha, com zeeeero segundas intenções, fui. E de quebra, a Tia (que acompanhava a gente nos rolêzinhos do namoro adolescente) também foi. Praticamente uma reunião de família. O que hoje o Guilherme chama de “arapuca do amô”. Porque não demorou pra família toda shippar o #rocasal. Mais uma noite deliciosa que passou em segundos. Eu lembro como se fosse ontem, dos olhões azuis-dinamarqueses-com-amarelo-ouro-degradê do meu sogro me fitando sem piscar enquanto eu contava sobre mim. “Eu não consigo acreditar na mulher que você se tornou” ele repetiu umas 50 vezes durante a noite. E mais uma vez, tudo aquilo me era tão natural. Me sentia em casa. E naquele dia, voltando pra casa pensei: “Preciso botar o pé no chão”. Estava solteira de verdade pela primeira vez em 5 anos. O Calopsitinha estava do outro lado do mundo. Também recém solteiro. Ele só voltaria pro Brasil dali meses. E não nos víamos pessoalmente há anos! Era só o que me faltava me amarrar assim, do nada, e há distância!!!
Pronto, voltei pra Terra.
Mantive o contato com os sogros, mas a uma distância segura. Até que ele veio plantar a sementinha de que eu deveria viver intensamente, recuperar o tempo perdido e, porque não, viajar? Eu nunca tinha saído do país na época. Sempre fui mais agarrada na estabilidade das coisas. Rotina? Amo! Nunca me vi botando a mochila nas costas e me jogando no mundo.
“Faça um mochilão na europa, e a gente se encontra!”.
Gente eu não acabei de falar que precisava colocar o pé no chão?! Pois deletei esse alerta e fui logo tratando de tirar o passaporte, porque nem isso eu tinha. Juntei meus pais numa reunião e contei meu plano.
“Lembram do Gui? Então, ele tá na Alemanha… Ele me acompanharia… Eu nunca fiz nada assim… Posso juntar o dinheiro...”, fui falando toda cautelosa nos argumentos pra convencê-los da ideia. Mas os dois nem hesitaram: “Vai sim!!!”.
Acho que estavam tão aliviados de eu ter tirado Paolo das nossas vidas, que até se ofereceram para pagar a passagem. Corri organizar as férias no trabalho. Passei a almoçar miojo pra economizar o dinheiro da marmita, e listar os lugares que queria conhecer. Dublin tinha que estar no roteiro. Meu sonho era conhecer aquele lugar! Os Cliffs, a música, os bares, a melhor cerveja do mundo. Sonho! Falávamos disso o dia todo. Montava e desmontava roteiro. Nesse meio tempo ele conseguiu quebrar o pé e perder um dente -vocês não sabem o histórico que ele tem de coisas que só acontecem com ele kkkk. Eu precisava ficar repetindo pra mim mesma pra voltar a colar os pés no chão. O foco era a viagem, a aventura. Não me envolver com ele. Respira. Foca. Daí me dava 5 minutos e eu focava na correria da Agência e do TCC pra conseguir, de fato, respirar. E eu sentia que ele fazia o mesmo às vezes. Dava um passo pra trás, pra equilibrar.
E num dia qualquer, quando eu precisava oficialmente comprar as passagens, e bater o martelo no roteiro, mandei mensagem. Ele não respondeu. No dia seguinte, nada.
“Gui?” mandei. Nada.
“???”. Nada.
Uma semana depois, nada.
“B, o menino sumiu”.
“Amiga que?! Como assim gente?!”.
Sumiu. Não respondia. Não aparecia.
Fiquei furiosa.
E desapareci também.



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