CAPÍTULO V



O ano é 2014.

E a troca de mensagens no facebook rendeu. Ele me contou tudo como tinha ido parar na Alemanha, e sobre o desafio de tentar aprender o alemão e fazer de um quarto, uma casa. Eu atualizei ele da minha vida, e contei como estava feliz no emprego que eu tanto sonhara. Ele comemorou comigo muito mais do que o Paolo, quando eu contei que tinha conseguido a vaga. Na verdade, nem “parabéns” Paolo me deu. Ele não admitia que eu estivesse naquela Agência, e ele não. De se esperar, né?

Bom, como Paolo ainda existia na minha vida, e nas minhas senhas de redes sociais, achei melhor migrar o papo com o Gui pro Gmail, pra evitar fadiga. E não demorou muito para aquela troca de emails se tornar diária. Era tão natural. Tão confortável. E era tudo amizade! Pelo menos, a gente achava que era. Ele me contava do namoro à distância, e eu contava sem muitos detalhes da minha sobrevida com Paolo. E mesmo que eu pensasse: “guerreiros, namoro à distância gente?! Deus me livre!” (bem feito, mordi a língua); ainda era meio desleal. 

Enquanto eu não tinha do que me orgulhar no meu namoro, ele compartilhava as coisas incríveis que fazia pra namorada. Vejam isso: antes de sair do Brasil, durante os 3 meses que ficaram juntos, ele escreveu um diário dos dois. De tudo o que faziam juntos. Depois, dividiu as páginas pelo número de semanas que eles ficariam separados. E a cada semana, um amigo em comum entregava um envelope com algumas páginas a ela.


[pausa para: AFFFFF]


Eu pensava comigo: “Na minha época me trocava pelo futebol né, peste!!!”. Mas engolia quadrado, e o parabenizava por ter aprendido a dar atenção à namorada. Aleluia!!!


Em meados de fevereiro, a Musa Colgate estava de viagem marcada pra lá. E, óbvio, ele tinha uma surpresa preparada. Ele me contou em detalhes, desde que economizava o dinheiro do almoço, e passava o mês comendo pão com queijo pra ter dinheiro pra quando ela chegasse, até o trato que ele tinha feito com ela: ele a pediria em casamento três vezes. Cada uma das vezes, num lugar diferente, com um anelzinho diferente. Na terceira vez, seria pra valer e, daqueles 3 aneizinhos, sairia a aliança deles. 


[pausa para: AF GENTE!!!]


E o dinheiro que ele estava juntando? Comprou uma passagem pra Paris de surpresa pra eles. E sim, o primeiro “pedido de casamento” seria feito lá na torre Eiffel.


Não dá né?!?! Foi o que eu pensei!!!


Eu vivia um relacionamento abusivo há 5 anos, não podia acreditar que um cara podia fazer esse tipo de coisa. Não era minha culpa quando a janta dele queimava, juro. Mas foi aí que eu saquei que aquelas trocas mexiam comigo muito mais do que eu esperava. E ele não correspondia, óbvio. Ele tava uma pilha de nervos, ansioso pela chegada da namorada. Mas era cada vez mais difícil ter aquele contato, e depois ter que voltar pra minha realidade com Paolo

Então me afastei. Mandei um último email desejando boa viagem, boa sorte e felicidades mil. Não foi uma mensagem muito literal, mas ele entendeu, e não apertou “Responder”. Esse foi o começo do meu despertar do meu porre de Paolo. Comecei a me perguntar se eu também não merecia um cara que fizesse grandes gestos românticos por mim, ao invés de um cara que colocava status “namorando” no Facebook só pra eu ver, e pro restante seguia em “solteiro”.

Bom, eu acompanhei de longe a viagem dos dois. Mas vi quando ele postou que “acordaram em Paris”. Tem noção? Botou a menina no trem e ela só descobriu o destino quando pisou na França.


Pelo amor!!!


Mas fiquei feliz de começar a perceber que, talvez, eu merecesse mais do que as migalhas que eu aceitava de Paolo. E me afastei em paz. Até que, pouco tempo depois da viagem, recebi outro email.


Assunto: Musa Colgate terminou comigo.


Quase caí da cadeira!!!

Não entendi direito os detalhes da história. Evitei parecer intrometida e perguntar demais. Mas ali retomamos nosso contato via email. E poucos dias depois, numa briga com Paolo, eu também falei “chega”. Na época, ele morava sozinho, e eu passava a maior parte do tempo na casa dele (e pagava boa parte das contas também). Então comecei a juntar minha trouxinha, e falar um monte de coisa que estava entalada há anos. E depois de vomitar tudo, Paolo respondeu:

“Acabou? Pode ir. Mas tem certeza? Porque se você for, eu não vou estar aqui quando você voltar”.

Eu saí pela porta. Quando cheguei em casa, tinha mensagens dele no celular:

“Você vai se arrepender. Você tá fazendo isso porque quer ir pra putaria com a sua amiga no carnaval né”.

E por obra Divina, eu consegui responder:

“Se é isso que você pensa de mim, sinal de que fiz a escolha certa e você não sabe nada a meu respeito”.


No dia seguinte foi minha vez de mandar o email.

“Terminei com Paolo”.

Pela primeira vez naquela história, EU tinha terminado. De onde veio toda aquela coragem, eu não sabia. Meu estômago ainda embrulhava. Mas, curiosamente, não me sentia arrependida. Guilherme foi bem educado e, ao invés de um “finalmente porra!!!”, respondeu:

“Você tá bem? Isso que importa”.



Eu estava. Até entregarem uma flor no meu trabalho. Com um cartão que dizia:

“Eu ainda posso ser o homem que você merece”.


Fiquei furiosa.

Em cinco anos, as duas únicas vezes que ele me mandou flores, foi quando fez merda. Mas aquela fúria era nova pra mim. Um misto de raiva com insegurança. Então topei encontrar Paolo pra conversar. Ele me pediu uma chance. Pela primeira vez, era ele implorando pra voltar. Um choque pra mim. Sinal que pela primeira vez, ele considerou que poderia me perder. Eu questionei:

“Ok, mas você sabe NO QUE precisa mudar?”


E durante uma hora inteira, chorou segurando minhas mãos, repetindo:

“Eu vou mudar, me dá uma chance, eu prometo, eu vou mudar”.


Mas nunca disse NO QUE.

Sinal de que não enxergava o que tinha de errado no que fazia comigo. Mas como nunca o tinha visto naquele estado de dependência -normalmente eu ocupava aquela posição; Cedi.

No dia seguinte, a resposta que recebi no email foi:

“Rá, eu prefiro não comentar. Acho que você sabe o que penso”.


Eu sabia. As minhas amigas não foram tão contidas, e escreveram tim-tim-por-tim-tim tudo o que pensavam em CapsLock. Um email histórico.

Enfim, seguimos. Mas dessa vez, não tão separados. Na verdade, o papo já tinha evoluído pro Whatsapp. Mas era só amizade. Ou pelo menos, a gente achava que era.


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Por Rayssa Olivão





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