CAPÍTULO IX
O ano é 2014.
18 de outubro. Pouco depois das 00h. Lembro da sensação da eternidade que aquele segundo durou quando ele abriu a porta e o sorriso pra mim. Eu não sentia o chão debaixo dos pés. “Quanto tempo!!” disse ele quebrando o silêncio. Nos abraçamos. Mas só por um segundo. Fiquei tão desnorteada que corri cumprimentar Rocapai e Rocamãecoruja. Não fiz a educada e também logo aceitei a cerveja oferecida, e ela durou bem pouco na minha mão. Mas não era ela que me deixava gelada. Minha cabeça girava tanto que eu me sentia um pouco surda, sem conseguir absorver direito o que diziam à minha volta. Além dos pais dele, estavam: Topã, o irmão, e mais dois amigos (que eu já conhecia da primeira temporada), e que claramente não entendiam o que eu estava fazendo ali. Me sentei num banquinho entre o Rocapai e a Rocamãecoruja. Calopstinha estava do outro lado do pai. Gato demais com um boné pra trás. Mas eu não ousava olhar pra ele. E curiosamente, eu conseguia sentir que ele me fitava constantemente. Eu interagi, claro. Mas nem me lembro muito do que conversamos. Sei que rimos bastante. Diretamente com o Calopsitinha eu não abria o bico. O tapava com a cerveja. E quando ele insistia em me dirigir a palavra eu acho que balbuciava alguma coisa incompreensível, sei lá. Fiquei idiota. O nível de adrenalina dentro de mim era tanto, que parecia que eu assistia toda aquela cena do lado de fora de uma vitrine, ouvindo tudo meio abafado. Os Rocapais foram embora lá pelas 1h30. Eu ia aproveitar a deixa pra ir também. “Gui, você vai com a gente?” perguntou a Rocamãecoruja. “Vou daqui a pouco, Mã. A Rá me deixa em casa, né?” ele respondeu me olhando com um sorrisinho mal intencionado. De novo, não consigo lembrar de responder nada audível, mas concordei. Aquela zona de borboleta no meu estômago tava me fazendo suar frio. Ele percebia meu nervosismo, e se divertia com isso. “Não fique até muito tarde, amanhã saímos cedo pra ir pro Vaticano brasileiro” disse o Rocapai antes de irem embora. O papo rolou solto até as 3h da manhã. Dessa vez o Calopsitinha fez questão de sentar do meu lado. E agora enquanto ele me encarava, eu quase conseguia sentir sua respiração. O que não colaborava nada com a minha pressão subindo. “Bom, melhor a gente ir, é a 3a vez que a mãe liga”. Um dos amigos se ofereceu para deixá-lo em casa, mas ele dispensou. “Você me leva, cabeça?” perguntou pegando na minha mão. Eu sorri, querendo desmaiar. Mas pela primeira vez naquela noite, sustentei aquele olhar por mais de 2 segundos. Ele me puxou. E me apertou num abraço. “Tira uma foto, Topã”. E registramos esses click aí. “Essa tem história” disse. Nos despedimos e descemos. Entrei no carro dando meu máximo pra fingir naturalidade. Ele sentou e virou de lado pra mim. Me encarando em silêncio. Rimos do nosso constrangimento. Depois de 6 anos que namoramos a primeira vez, uma série de tropeços um no outro, uma amizade reatada por email, não era pra esse encontro ser menos intenso? Minhas mãos suavam e dava pra ver meu batimento cardíaco pela minha garganta afff!!! “Essa sacolinha é pra você” eu disse apontando o presente no pé dele. Ele abriu e identificando o cofrinho, riu. “Pra você começar a juntar a grana pra Chicago”. “Você não existe”. ”Eu sei” respondi. “Contei pra eles hoje” ele contou guardando o presente. Respirei aliviada de não ter presenciado esse momento tenso. “E seu pai?” perguntei. “Ficou indignado. Achou um absurdo eu mal chegar e já ter data pra ir embora de novo”. Eu confesso que, internamente, precisei concordar. “E sua mãe?” perguntei. “Me xingou. E chorou. Mas sei que ficou orgulhosa também”. Me identifiquei de novo rsrs. “E seu irmão?” perguntei. “Riu”. E rimos também. Encostei a cabeça no banco, ainda virada pra ele, e não consegui conter um suspiro. “É bom te ver de novo, Gui…”. “É?” respondeu se aproximando 10cm do meu rosto. “Concordo com seus pais, você vai fazer falta” eu disse sem me mover, o encarando nos olhos, sem piscar. Ele avançou os últimos 10cm que nos separava, ainda me fitando nos olhos. Eu fechei os meus, e tentei recuperar o ar enquanto sentia o nariz dele tocar o meu. O ar não veio. O beijo sim. Se fechar os olhos agora, consigo sentir exatamente a explosão de sensações daquele segundo primeiro beijo das nossas vidas. A mão dele no meu pescoço, uma mistura de pressa com ternura. O selinho doce pra finalizar. Lembro que antes de abrir os olhos de novo, eu sorri. Aquilo parecia tão perfeito que deletei Chicago da cabeça. “Vamos pro vaticano comigo amanhã, minha vó vai amar rever você” ele convidou quando estacionei na frente da casa dele. “Tá maluco menino? Você chegou não faz nem 12h”. Ele me beijou de novo. “Saímos amanhã às 9h” e saiu do carro rindo do meu estado desnorteado. Fiz o trajeto inteiro de volta pra casa sorrindo, gargalhando, chacoalhando a cabeça pra me convencer que tudo aquilo tinha mesmo acontecido. Mandei áudio pra B e Gasperina dando spoiler do fim da noite. Já era lá pelas 5h da manhã. E 5km antes de chegar em casa eu pude ver o nascer do sol. “Obrigada, Deus” pensei. E registrei a cena sem conseguir desmanchar o sorriso do rosto. E por uma noite, me permiti esquecer mesmo sobre Chicago, e aproveitar aquele filme que eu protagonizava. Eu merecia. E àquela altura, mal sabia eu os capítulos que estavam por vir.




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