CAPÍTULO IV
O ano é 2013.
Eu vivia uma fase importante da minha vida. Eu estava concorrendo a uma vaga na maior agência de Campinas, e já era minha terceira tentativa, na terceira vaga diferente. Eu queria muito trabalhar lá. Paolo tinha me pedido um tempo (pela 10a vez) mas pela primeira vez, eu de fato dei esse tempo pra ele. O combinado era não nos envolvermos com mais ninguém, eu cumpri o combinado, e ele obviamente não. Eu sabia que ele estava pegando geral. E mesmo assim, não liguei, não apareci, não mandei mensagem, e vivi a minha vida. Eu não me permitia me envolver com mais ninguém, por causa de Paolo, eu sei. Mas eu comecei a olhar pra mim. Talvez pela primeira vez em muitos anos.
A última vez que tinha tido notícias do Calopsitinha, foi naquela mensagem clandestina em 2012, depois disso, silêncio total. Até um belo dia, voltando do trabalho e, passando na frente da casa de Paolo (porque era no caminho mesmo), eu o vi. No outdoor. Na campanha da faculdade.
NO OUTDOOR.
NA FRENTE DA CASA DO PAOLO.
Eu ri! Não consegui segurar. E segui meu caminho pra casa inconformada com as voltas que o mundo dá. De repente ele estava espalhado pela cidade inteira.E aparentemente aquela placa específica estava reservada para ele o mês todo, porque demorou pra ser substituída, hein? E daí ele começou a aparecer em anúncios enquanto eu via vídeos no youtube. Ou em um site de notícia qualquer. Não aguentei e fui ver como ele estava afinal. Foi nessa ocasião que eu percebi que ele não era mais um calopsitinha.
Estava com cara de homão. E o mesmo sorrisinho torto que eu sempre adorei. Estava namorando de novo, um mulherão. Com um cabelo preto tipo propaganda de shampoo e um sorriso campanha da Colgate. Linda. Ouch. Bom, ele merecia. Que bom que estava feliz. E engoli educadamente minha invejinha daquele casal 20.
Passei um mês oficialmente dando um tempo com Paolo. E numa terça à noite, aniversário de um amigo do trabalho, uma mesa enorme no bar foi reservada. Eu sentei na ponta com a turma da agência e, adivinhem quem estava na outra ponta, com outra turma de amigos? Rocamora. Calopsitinha não serve mais né gente. Ele e a musa colgate, que conseguiam ser mais lindos ainda ao vivo. Infelizmente era noite de double chopp. E eu não estava economizando pra realizar nenhum sonho. Contei pra minha chefe na época que meu namorado de adolescência estava na mesa, e eu estava eufórica. Double chopp gente. Ou não. Terceirizando a culpa ou não, a hora que eu decidi ir embora (infelizmente fui para outro compromisso onde Paolo estava), falei pra minha Chefe “Observa, vou cumprimentar ele.”. E com aquele sorrisinho diabólico tosco, saí.
Fiz a amiga. “Oiiii Guiiiiiii!! Quanto tempoooo!! Ta famoso hein menino?!”. De costas pra musa, fingi que ela não existia. Joguei baixo, eu sei, que vergonha. Mas quem acompanha aqui eu já falei que, 1- a gente cresceu aprendendo a nos tratar como inimigas, e 2- eu não era páreo, gente, a bixa era linda mesmo, era mais fácil fingir que ela não tava ali. “Oi Rá!! Tempo mesmo! Essa é a Musa Colgate, minha namorada”, ele disse, como sempre, impecável. A cumprimentei educadamente, óbvio, mas logo virei pra ele de novo. “E aí, como você tá?” continuei. Foi ali que eu descobri que agora ele era estagiário na Bosch e dali dois meses embarcaria para Stuttgart na Alemanha, num estágio por um ano. Alemanha! Ele não estava mesmo pra brincadeira. “Você fala alemão agora?” questionei. “Vou dar o meu melhor” ele respondeu com uma risada que me lembrou tanto. E as borboletas acordaram.
Entendi que era a hora de ir.
Desejei boa sorte, boa viagem e brinquei “para de ficar aparecendo em todo o vídeo de youtube que eu vejo”, o tipo de frase que você diz no nervosismo e depois não sabe explicar porque diaaaacho você disse aquilo.
E fui embora, sem olhar pra trás.
Sem me despedir da Musa Colgate também. Que vergonha
Lembro que mais tarde naquela noite, no outro compromisso, eu nem notei que o Paolo estava por lá. As borboletas não me deram paz durante dias. Mas o mês passou, Paolo voltou. Eu consegui minha vaga naquela agência. E uma fase nova na minha vida começou. Eu já não estava assim tão dependente do Paolo e nem o achava mais o último cara que pudesse me amar no mundo. Mas eu ainda não era 100% livre. Mas me amava 50% mais. Já era um bom começo.
E no início de 2014, um amigo meu postou uma foto no Facebook, que me fez rir de novo. A gente se conheceu na faculdade, e apesar de não cursarmos o mesmo curso, no intervalo as turmas se misturavam e estávamos sempre juntos. A gente se despediu dele quando ele foi pra Alemanha pra fazer um estágio pela Bosch. Mas ele não conhecia nenhum Rocamora. Não liguei. Mas duvido vocês adivinharem quem ele estava abraçando naquela foto. Não é possível! Foi o que eu pensei também!
E dessa vez eu nem hesitei em mandar mensagem pra ele.
“Ê Rocamora, o mundo encolheu, hein?” mandei.
Masssssss... Esse já é outro capítulo.



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