CAPÍTULO III
O ano é 2012.
Eu estava no meu terceiro ano de Publicidade. Fazendo os trabalhos por mim e por Paolo. E estávamos juntos oficialmente. Mas na mesma ladainha de sempre. E agora eu já trabalhava como atendimento Jr numa agência de publicidade, o que era muito legal pra minha carreira.
O Gui estava no segundo ano de RP, em outra faculdade. Tinha um monte de novos amigos, E agora trabalhava numa empresa com horário comercial regular. Mas aos finais de semana, trabalhava de bartender. E como vocês podem imaginar, não recusava nenhuma festa. Enquanto os amigos iam pro churrasco, e zuavam a calopsitinha por trabalhar demais, lá ia ele vestindo o uniforme. Ele também namorava há quase um ano já. Bom, eu soube disso tudo muito depois, porque na época, não tinha nem sinal da existência dele. Toda a nossa comunicação e laços haviam sido cortados permanentemente. Eu nem imaginava mais onde ele andava. Muito menos que em Julho daquele ano ele estaria embarcando para o primeiro intercâmbio de sua vida. Um que ele pagou sozinho, com o dinheiro de todos aqueles empregos um emendado no outro, de segunda a segunda, desde os 16 anos de idade.
Ele embarcou com mais dois amigos pra Londres, para estudar Inglês durante 30 dias, e mochilar nos últimos 12 dias do programa. E acabou indo solteiro, porque foi obrigado a escolher entre a viagem e o namoro. E, por experiência, a gente já sabe bem o que ele escolheria, né? É preciso admitir, o menino sempre soube ter um foco.
Foi nessa primeira saída dele do País, que ele começou seu primeiro diário. Onde ele escreveu tudo sobre a viagem. Mas veja bem, ele não começava cada relato com o padrão “Querido diário”. Ele narrava diretamente para os futuros filhos. Que no caso agora serão nossos filhos, mas ele ainda não falava de mim no diário. Ou pelo menos ele diz que não. E teoricamente eu nunca vou descobrir porque ele insiste que somente nossos filhos terão permissão para lê-los (sim, oito anos depois, agora já são 3 diários, um para cada grande aventura dele nesse mundo a fora).
Bom, eu não sei se foi a inspiração desse projeto tipo cápsula do tempo, de relatar ali suas aventuras e seus sonhos realizados, mas em um dia qualquer, no meio dessa viagem, eu recebi uma mensagem no Facebook de alguém que eu não tinha notícias há mais de ano.
“Guilherme Rocamora enviou uma mensagem”.
G-E-L-E-I.
Primeiro provavelmente porque Paolo não poderia DESCONFIAR daquele contato clandestino. Mas depois o estômago seguia se contorcendo. E enquanto eu tentava acalmar aquelas borboletas, li o que a mensagem dizia. Ele me contava que estava num programa de estudo em Londres. E naquele momento assistia a um jogo das Olimpíadas com os amigos, e outras pessoas de diferentes nacionalidades. Em Londres. Fora do País. Falando inglês. Sem muito luxo e poucas libras no bolso, mas cada uma delas do-próprio-bolso. “O sonho dele…” pensei. Ele dizia que se pegou pensando na grandeza daquilo tudo, de ter finalmente realizado o maior sonho da sua vida até o momento. Sair do país, conhecer lugares e pessoas do mundo. E se deu conta que, precisava me agradecer. Porque concluiu que, se não fosse pelo meu esporro no dia em que terminei nosso namoro há quase 4 anos atrás, talvez ele não estivesse onde estava. “Então, por isso, serei eternamente grato. Espero que esteja bem. Se cuida, cabeça.” concluiu. Eu odiava quando ele me chamava assim. E ele sabia.
Eu fiquei sem ar por algum tempo. Reli a mensagem umas 20 vezes. Ou mais. Me agradecer? Eu estava muito feliz por ele. E muito orgulhosa por quão longe ele foi, mas não estava surpresa. Eu sempre soube que ele conquistaria grandes coisas. Todo mundo sabia. Não podia levar qualquer mérito por isso. A grandeza dele vinha de dentro, óbvio que ele ia voar alto. Ual. Tinha borboleta por toda a parte do meu corpo. Ual.
Precisei botar o pé de volta no chão antes de respondê-lo. Pra não ser tão transparente. E deletar a palavra “saudade” que escrevi quase inconscientemente. Fui educada. O parabenizei. Disse que o mérito era todo dele mas, que se ele sentia que aquele dia difícil da nossa adolescência lhe trouxe algo de bom, eu me sentia feliz por ele. Porque ele merecia. Fechei os olhos, enviei.
Deletei tudo pra não deixar rastros (porque sim, Paolo controlova). E fingi que nada daquilo me deixava sem ar. Eu sempre tive asma. Ia ser fácil disfarçar. E seguimos, mais uma vez. Separados.



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