CAPÍTULO I




O ano é 2007.

Ele tinha 15. Eu estava pra completar 15. Nos conhecemos através de um amigo em comum. Ele era o mais novo da turma de uns 10 moleques -tudo doido. O loirinho do olho azul, que era certinho demais. E pra mim, tinha cara de calopsita.

A gente ficou bem amigo mesmo. Ele e todos os 10 moleques dançaram na minha festinha de 15 anos (vide foto). Na época, eu saía com um amigo dele. E ele, com uma amiga minha. Ah a adolescência, né? 

Quando eu levei um pé, e ele outro, as conversas no MSN se intensificaram. Daí a amizade virou namoro. A primeira namorada oficial dele. O primeiro encontro foi no cinema, e ele só me beijou no fim do filme. #verygentleman

A gente se dava muito bem. Ele me fazia rir o dia inteiro. Ele era do tipo que cuida, dá carinho e respeita acima de tudo. Ele sempre foi muito família, então logo ele me apresentou pros pais, tios e avós. O irmão dele já era meu amigo daquela turma de doido. Minha mãe se apaixonou rapidinho também. Ele sempre teve um dom com os pais dos outros. #verysmart

Duas coisas nele me impressionavam muito: a gratidão incondicional a familia, e a capacidade de sonhar alto. Naquela época ele dizia que queria conhecer o mundo, mas não falava um HELLO em inglês. Logo ele estava no 1 emprego num Buffet infantil. Da escola ia direto pra lá e só saía depois da 2a festa, lá pelas 00h. De segunda a segunda. Vez ou outra ele tinha folga numa terça-feira. Mas na época, meu pai não me deixava sair durante a semana, e aos fins de semana, as 23h tinha que estar de volta. Portanto, nossas agendas se desencontravam cada vez mais. Mas eu já estava muito apaixonada. E eu admirava muito a determinação dele de trabalhar com foco total pra ganhar seu dinheirinho, e presentear os pais em sinal de gratidão. Então eu não via problema em apoiar o foco dele estar mais no trabalho, do que no namoro. E de vez em quando, a folga dele caía no sábado, ou eu matava aula escondida pra ir encontrar ele durante a tarde (desculpa mãe, desculpa Daddy). Mas no geral, eu passava o domingo todo com os pais dele, e a noite ia buscá-lo no Buffet com a sogra. E o tempo que tínhamos juntos era o trajeto do Buffet, até minha casa, que durava uns 20min.

No fim, eu era mais uma adolescente (privilegiada) que queria muito namorar, mas ele queria trabalhar e jogar futebol. O dia que ele tirou folga, não me avisou e foi jogar bola, foi o dia que decidi que não dava mais pra mim né gente ufa!! Olha que linda cheia de amor próprio (pena que durou pouco kkkk mas essa é outra história). Falei pra mim “Não vou mandar nenhuma mensagem. Vamos ver quanto tempo ele fica sem dar sinal de vida”. Passou um mês, e nada. Muita humilhação pra mim, chega. Inclusive, num desabafo com meu sogro, ele mesmo me aconselhou “termine, ele não está te merecendo.”.Se o sogro falou né, gente??? No sábado seguinte, implorei pro meu pai me deixar ficar num churrasco após as 00h (porque era a hora que ele ia chegar depois do Buffet -onde ele já era chefe de bar) porque era a oportunidade que eu ia ter de terminar com aquele loko trabalhador!!! Daddy permitiu.

Depois de um mês sem nos falar, esse menino não me abraça e me beija como se nada tivesse acontecido? “Saudades, linda”. Ah pronto!! Peguei o Calopsitinha e vomitei nele toda minha sofrência. “Se nem namorar importa mais, pelo menos tire desse trabalho algo pra você e pro sonho que você diz ter. Invista numa escola de inglês, por exemplo, eu hein!” eu disse bem madura-zero-noção-dos-privilégios-que-tinha-na-época, rs. Ele não abriu a boca. Mas os olhinhos azuis embaçaram tudo atrás das lágrimas. Assumiu os erros, e respeitou minha decisão. Lembro desse término até hoje, dá até um arrepio, credo. Me arrependi no segundo seguinte. Eu o amava. Amava real. E sabia que ele amava de volta.

Mas esperei uma semana pra pedir pra voltar. Bati na porta dele as 7h da manhã, antes de ele ir trabalhar. Era Dezembro, levei presentes do camelô pra família toda. E um cachorrinho de pelúcia bem brega (daqueles que quando aperta diz “I love you”) pra ele. Não sei se foi o presente ou o orgulho ferido dele, mas ele não arredou o pé. “Você estava certa, você merece mais, não vamos voltar”. Voltei chorando no ônibus e a senhorinha que sentou do meu lado falou baixinho pra mim antes de descer: “Deus sabe de todas as coisas, mocinha”. O que só me fez chorar um tico mais. Mas acho que depois entendi. A última viagem que fiz com meus pais foi naquele verão. E lá eu falei pra mim mesma que quando voltasse, ia ter superado aquilo tudo. Acho que por isso Aracajú foi uma viagem tão especial pra mim, além de ser um destino paradisíaco no nosso Brasil. #ficadica

Dito e feito, voltei pra casa, e Guilherme era página virada pra mim. Mal sabia eu que os capítulos seguintes seriam desastrosos, e que o Guilherme estava longe de sair de cena. Mas esse capítulo fica pra outro dia.


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Por Rayssa Olivão

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