Nem se você tivesse me avisado

Que depois dos primeiros meses, o brilho ia estremecer. Ou tivesse me preparado para todas as coisas que estavam escondidas atrás do seu sorriso sedutor. Imagina?
Se eu soubesse que, depois de semanas de paixão intensa, os dias iam se tornar persistentemente cinzas. Se eu  que logo depois de ter mergulhado de cabeça naquele cenário bucólico que você pintou, o cilindro de oxigênio ia acabar. E, ao invés de buscar a superfície, eu ia continuar caindo cada vez mais fundo. Será que eu teria evitado ceder? Acho que não.

Era impossível imaginar que aquele abraço que me vestia tão perfeitamente, fosse um dia me causar tantas feridas. Mesmo pequenininhas. Disfarçadas de ajuda -pensando no meu próprio bem. Tão articuladas que em segundos era eu quem pedia desculpas. E passava a questionar minha sanidade -conforme você havia sugerido. Me mudei. Me desmontei. Me desconheci. Inconcebível pensar que depois de tantas juras e risos, eu teria dificuldade de distinguir a mentira da verdade, o certo do errado. Essas coisas costumavam ser tão claras pra mim. Logo eu, que sempre tive apego aos meus princípios e valores, me vi abrindo mãos de todos eles. Me afastei. Me fechei. Me isolei dentro de você.
Vi meu brilho se esvair junto à neblina dissipada do que um dia fora a imagem de um sonho perfeito.

Você podia ter me avisado. Mas acho que nem assim, eu teria evitado mergulhar em você.
Porque a pessoa que voltou à superfície, foi a melhor versão que já habitou em mim.
Ela foi crescendo a cada braçada que eu dava. Foi se agarrando a cada célula do meu corpo, mesmo em condições precárias de vida. Faltou ar. Luz. Esperança. Mas ela sobreviveu.
Pra que enfim hoje eu possa viver. Viver de verdade. Respirar hoje é maravilhoso, preciso te dizer. Tem uma intensidade diferente. A maioria dos arranhões que você causou, foram cicatrizando no caminho até a superfície. Outros vão precisar de um tempinho a mais. Mas vão sarar.
Sei disso porque descobri uma força aqui dentro que nem eu sabia que existia.
Ela é incrível. Igualzinha a mim. E é só com ela que eu sigo daqui em diante, tá bem?

Você é capaz de se apossar de algum crédito, eu sei. Supor que então, no fim, me fez um bem danado. Mas tem um segredo nas entrelinhas que você jamais teria capacidade de ler: você foi o fardo que me afundou. Só. A fonte dessa nova versão, que tá disposta a seguir respirando um pouquinho mais leve a cada dia, veio toda de mim. E dela eu não desisto jamais. Mesmo se eu soubesse.

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Por Rayssa Olivão


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