Quando a saudade transborda

Brasileiro tem sempre um jeitinho pra tudo, né?
Tanto tem, que até na hora de sentir falta, resolveu inventar uma palavra sem tradução.
Porque "sentir falta" não descreve e nem chega perto disso. Era preciso algo que ousasse explicar a imensidão de sentimentos que nos inundam quando queremos de volta, e queremos logo.

Quando a saudade invade, é sem pieadade.
É como se ela revirasse tudo dentro de você, e tudo o que você usa como distração se dissipa pelo rastro de sua devastação.
Você é preenchido por lembranças. Fotos. Músicas. Sorrisos. Manias.
Um longa de roteiro original o qual você é obrigado a assistir, repetidamente, incessantemente.
Tudo aquilo que te faz recordar, te leva de volta, sem que você seja capaz de efetivamente sair do lugar.

Quando amamos, quando amamos verdadeira e inexplicavelmente, desejamos o dia-a-dia.
Qualdo algo é inesquecível logo quando começa, buscamos evitar o fim.
Mesmo cientes de que nada é pra sempre, e que o que é bom demais dura o suficiente pro piscar de olhos. Pro flash da câmera.
É preciso nos forçar a lembrar que apesar de só essas fotos irem para o álbum, temos outras coisas que nos levam de um registro feliz ao outro. E que precisam ser vividas.
E todo mundo sabe que mesmo tardando, a saudade não vai falhar a nos trazer as memórias de volta.

E vai doer. Vai sufocar. Só de lembrar.
A época de ter o filho pequeno. De ter 18 aninhos. De ter o pai e a mãe na mesa do jantar.
Do filho que fez a mala e foi. De ouvir ele falar dos sonhos de desbravar o mundo, mas brindando uma com você. De vê-lo saindo pra trabalhar, reclamando do chefe e de coisas da vida que mal-sabe-ele-como-a-vida-é. De assistir TV junto, um filme novo, um almoço em família, uma briguinha qualquer.
Da família que estã lá longe, que continua vivendo, que continua almoçando junto, viajando junto, mas que vai sem você. 
As crianças que crescem em segundos, que em apenas três meses já sabem andar, dançar e formar frases despretensiosas.
Os avós e suas pérolas, doçuras e corridas contra o tempo.
Os pets e suas singularidades de outro mundo. Os amigos e os intermináveis motivos pra comemorar.
Tudo leva um pedaço de você. É por isso que o vazio pesa tanto quando a saudade aperta. Nada vai estancar enquanto a peça que te falta não for devidamente preenchida.

Apesar de doída, a saudade é capaz de te fazer sentir aquele aroma. Ouvir aquele riso, sentir o aconchego do colo ou o sabor incomparável.
A saudade corrói, mas te permite vivenciar em 5D toda a energia que ficou guardada naquela lembrança. Que ficou tatuado debaixo da pele, correndo nas veias, e pulsando com você.
Que nada é capaz de apagar.

E quando não for possível atravessar a cidade, ou o oceano. Quando for preciso esperar os "apenas seis meses que passam tão rápido". Quando a tecnologia falhar, ou quando tecnologia nenhuma for capaz de permitir um último contato.
Quando ela sufocar, deixa transbordar.
Deixa escorrer pelos olhos todo esse amor. Assista o filme. Aprecie as lembranças.
Deixa a saudade palpitar pra te lembrar de tudo aquilo que realmente vale a caminhada.
Recordar também é viver.
Reforçar um amor. Desabrochar um sorriso.
Suspirar a beleza de ter saudade com nome ou endereço.

Deixa escorrer tudo o que a saudade tem pra te dizer:
VOCÊ TEM ALGO PRECIOSO EM SUA VIDA.
Algo pelo o qual vale a pena lutar. Voltar. Ou seguir em frente.
Porque saudade sim, tristeza nunca.



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